Saltar para o conteúdo
Quotidianos

GUERRA DO ULTRAMARPor João Manuel Saraiva
Barreiro

Recordo a Genoveva, preta não muito preta nem com os característicos traços da preta, preta, percebem? Mulher madura de perto talvez dos trinta anos, bonita, rosto lustroso, corpo cheio mas não gordo, lavadeira de roupa de alguns militares da minha Bataria.

6 min de leitura
GUERRA DO ULTRAMAR Por João Manuel Saraiva Barreiro

Por Jornal Rostos

Em cada soldado há, sempre houve, um mensageiro e um cronista. E, em cada acontecimento, um número infindável de versões, de figurantes, de artistas principais, secundários… até de cenários… e até de VÍTIMAS! Como diz o bom povo – “Quem conta um conto aumenta-lhe um ponto”. Posta a coisa assim, desta maneira, quem são ou foram, afinal, as VÍTIMAS de toda esta “GUERRA DE INTERESSES” a que, sacanamente, mascararam e baptizaram de “GUERRA DO ULTRAMAR”?
Quem foram eles?

Opinião muito minha, VÍTIMAS foram todos os que, inocentemente, como sonâmbulos, sem distinções de sexo, religião ou idade – brancos e pretos, civis e militares –, se viram empurrados e envolvidos numa teia que não urdiram e que não lhes deixou qualquer tipo de saudade. No entanto, e fazendo crença nos meus sentimentos, as verdadeiros e únicas VÍTIMAS da nossa “triste epopeia africana” foram, e assim é que está certo, os milhares de infelizes que sofreram feridas incuráveis, quer no corpo, que os levaram e ainda levam, hoje, a um prosseguimento de vida ou a um final da mesma tão traiçoeiro como penoso, quer na mente, sensíveis às rudezas e horrores de situações que desconheciam e que viveram e ainda vivem sem qualquer defesa… e tanto sofrimento presenciei.

Embora já se passassem trinta e tal ou quarenta e não sei quantos anos das datas em que o desgosto e o peso dele, à chegada, não perdoou a ninguém que fosse, sofrem eles, VÍTIMAS – e para todos o meu enorme e profundo abraço de amizade –, de diversas tipologias de deficiência. As que existem, embora muito abreviadas, segundo dados da Associação dos Deficientes das Forças Armadas, são as seguintes:

Da Visual – a cegueira total; a parcial; e lesões visuais, onde se incluem os amblíopes;
Da Auditiva – surdez total e parcial;
Da Motora – vertebromedulares, que engloba a tetraplegia e paraplegia; amputação dos membros inferiores; amputação dos membros superiores, que engloba braços, mãos e dedos; biamputados dos membros inferiores e superiores; afecções graves de locomoção;
Psíquica – doenças do foro psíquico, que engloba, para além do stress de guerra, doenças como a esquizofrenia e outras;
Outras deficiências – inclui uma extensa lista de doenças do foro interno.

Opinião diferente, no entanto, reclama o bom pobre povo português... “Anda uma mãe a criar um filho para isto!...” quando proclama alto e em bom som que as VÍTIMAS foram todos, todos os portugueses, a partir do dia em que, ao saírem de casa após um adeus choroso, viraram a esquina com um último olhar e seguiram para o desconhecido, que ficava lá no fim do mundo... “Coitados, o que eles não devem sofrer lá na terra dos pretos!? Sem o amor dos pais, da família, com os amigos longe... Nem quero pensar! E o que é que comem? E onde dormem? E quem os trata quando passam mal? E... e todos tão novinhos que até faz pena… alguns que até nunca saíram de casa, sempre apaparicados pelas mães…! Que tristeza!”

Num assunto profundamente sensível e melindroso, casos houve que os houve e não foram poucos, de selvajaria e terrorismo puro, praticados pelas tais VÍTIMAS… filhos das nossas mães. Não me alongando nem isso me daria qualquer prazer, pelo contrário – e menciono porque nunca em tantos programas nomeadamente de televisão sobre a “Guerra do Ultramar” este apêndice veio à baila –, essas VÍTIMAS vejam só, apenas, apenas abusaram sem qualquer pingo de senso humano quer de pretos, evidentemente, sempre com um toque de violência, violência da mais maníaca, barata, reles e porca – como aconteceu com um, entre muitos e de outras formas que, fugido ao controle da minha secção no cruzamento de Quifangondo (vinha ele no cimo de uma camioneta carregada de mamões para o mercado de Quinaxixe, em Luanda – Janeiro de 1962), só o conseguimos apanhar dias depois, no Muceque Sambizanga, em Luanda… para, depois, de regresso às instalações que ocupávamos no Cacuaco e deitado no chão do jipão-maca, junto aos nossos pés, levar um enxerto de pontapés ao desbarato por tudo quanto era sítio, ainda vergastado com um rabo de raia salgado que o marcaram e de que maneira… “festa” acompanhada com palmas e risadas de gozo à mistura. No dia seguinte, de manhã, foi encontrado já sem vida, junto a uma vala fora do aquartelamento, com sinais, evidentes, de ter “levado mais” durante a noite.

Quanto às pretas… as “armas” utilizadas eram diferentes, naturalmente. De novinhas a velhas mal cheirosas ninguém escapava, “o que vinha à rede era peixe”, desde combinações com o próprio marido (cheguei a pagar a um pescador, depois de me aproximar da mulher e lhe dar um cigarro mais uma lata de atum, 2$50 contra os 50$00 que reclamava, quando “usei” a mulher na cubata da praia onde ele guardava os pertences da pesca), ou de grávidas com grandes barrigas mas não interessava, o importante e fundamental em todas as situações... era gozar a coisa e pronto! - “Porra! Agora já me sinto bem, estou aliviado!”, disseram muitos, centenas ou milhares, com um sorriso de conquista malandra à mistura. Como nas situações de se formar bicha (o mais graduado era o primeiro, evidentemente) com apenas uma preta no final da mesma... deitada vestida no chão ou na esteira, de pernas escancaradas, rijas depois moles, olhos fechados e quieta, também caladinha e muito senão... digamos que “apenas” ao sabor de um desconhecido mas por quem tinha um “medo de morte”, é o termo – assim como os muitos filhos de militares que por lá ficaram, fruto de envolvimentos a troco de nada ou a de uns miseráveis tostões, ou até de umas bolachas de água e sal ou de uma lata de conserva da ração de reserva à escolha, de sardinha ou atum… nas hesitações davam tudo!

Recordo a Genoveva, preta não muito preta nem com os característicos traços da preta, preta, percebem? Mulher madura de perto talvez dos trinta anos, bonita, rosto lustroso, corpo cheio mas não gordo, lavadeira de roupa de alguns militares da minha Bataria. Naquele dia, finais de Setembro de 1963, em Quinfangondo, aquando da despedida ao padre e demais gente daquela aldeia (a quem nos ligaram amizades quando permanecemos uns meses no Cacuaco, localidade vizinha – e porque dias depois embarcávamos no Vera Cruz, para Lisboa), a Genoveva, de passo engasgado, aproximou-se de nós, grupo de furriéis milicianos. Ao colo trazia um bebé mulatinho, bonito, tal como a mãe, sorridente, e logo todos do grupo reconheceram pelas feições que o pai só podia ser o R........, era a “cara chapada dele” (por “coincidência” ela tinha sido a lavadeira dele, meses antes). Quando chegarmos a Portugal vamos dizer à tua mãe que tem um neto em Angola! Vais ver!” – dissemos nós, numa ameaça meio séria. Ele afastou-se, envergonhado, chamou um de nós e perguntou, nervoso e atabalhoado: “O que é que eu faço agora?” – e acabou por dar algum dinheiro para entregar à mulher.

João Saraiva
Furriel Miliciano de Artilharia, Angola
Junho 1961/Outubro 1963

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção