Chapéus há muitosPor Nuno Santa Clara
Barreiro
O caciquismo fazia o resto. Por isso, essas eleições ficaram conhecidas como as “chapeladas”. Só houve um governo que perdeu as eleições por si organizadas e, em vez de louvado pela sua honestidade e isenção, foi escarnecido por toda a gente.

Por Jornal Rostos
Todos recordamos esta frase, que ficou para a História, do Vasquinho da Anatomia,figura inesquecível do saudoso período de ouro da cinematografia nacional.
Pois bem, há mais histórias ligadas ao chapéu. Durante a nossa Monarquia liberal, tornou-se hábito fazer cair governos nas Cortes (na Assembleia, diríamos hoje). Nesse caso, eram naturalmente marcadas eleições, o governo em funções encarregava-se de as organizar (até aí, tudo bem), mas de as organizar de forma a ganhá-las de véspera (aí, tudo mal).
Para tanto, abria-se ou fechava-se o universo dos votantes, baixando as exigências ou aumentando-as, a fim de ter os resultados garantidos antes da contagem dos votos. Juntar ou separar círculos eleitorais era a regra, de modo a que, partindo dos últimos resultados eleitorais, conseguia-se reordenar as mesas de forma a ter o partido organizador como grande ganhador das eleições.
Sim, porque isto de política também é uma ciência, e mete matemática.
O caciquismo fazia o resto. Por isso, essas eleições ficaram conhecidas como as “chapeladas”. Só houve um governo que perdeu as eleições por si organizadas e, em vez de louvado pela sua honestidade e isenção, foi escarnecido por toda a gente.
Ninguém duvida que há autarquias a mais neste País, mas também não há dúvida que a situação não é uniforme. A título de exemplo, o concelho de Barcelos tem 89 freguesias, mais que todo o distrito de Setúbal… Decerto haverá para isso razões históricas, como as que levaram à existência de mais de cinquenta freguesias de Lisboa; decerto houve concelhos surgidos por empenho de algum comendador; mas daí a uma redução cega e matemática vai uma grande diferença.
Se juntarmos a isto a já anunciada doutrina das Câmaras monocolores, teremos reconhecido o princípio norteador de todas as guerras: o vencedor leva tudo (terá também direito ao saque?). E teremos uma real machadada no Poder Autárquico.
Pois é, como dizia o Vasquinho, chapéus há muitos; e eu acrescentaria que barretes também.
Nuno Santa Clara














