Do Sebastianismo ao JardinismoPor Nuno Santa Clara
Barreiro
Este sindroma tem raízes semelhantes a um outro, bem mais antigo: o Sebastianismo. E quem melhor o definiu foi Fernando Pessoa: “Melhor é esperar por D. Sebastião/ Quer ele venha ou não”. Ou como quando escreveu que Jesus Cristo não sabia nada de finanças.

Por Jornal Rostos
Numa primeira reacção às eleições na Madeira, o que apeteceria dizer é que nada mudou. É um erro: basta olhar com atenção para as reacções das diversas personalidades envolvidas, e um cuidadoso exame aos números, para ver que algo mudou.
Não mudou, decerto, o âmago da população madeirense; conservadora por natureza, transferiu votos do PSD para O CDS/PP, e não para o PS, como muita gente esperava. Também se notou um certo desencanto com a classe política, que pode ser aferido pela emergência de novos partidos, e pela queda dos clássicos (PS e PCP), bem como pela elevada abstenção, mesmo num momento crucial para a terra.
Mas algo mudou, como se pôde ver pela intervenção de Alberto João Jardim, moderada, ponderada, com o vencedor das urnas calmo e sentado, sobretudo lendo pausadamente um comunicado, ao contrário dos seus hábitos de truculência, improviso e espectáculo. O único impromptu foi a rábula dos óculos, talvez por falta de hábito de leitura de quem faz do improviso a sua dilecta forma de expressão.
E atenda-se às declarações das sedes nacionais dos partidos, entregues a segundas figuras e inócuas no seu contexto. Desvalorização dos resultados ou necessidade de tempo para análise? Apenas o CDS/PP, grande ganhador, apostou forte na celebração.
Teremos, pois, mudanças à vista. Mas como se muda numa terra conservadora?
Atentemos num sentimento transversal na sociedade portuguesa, aquilo a que podemos chamar o “sindroma da obra feita”. Mesmo pessoas de quadrantes políticos adversários acusam essa disfunção, sendo comum dizer-se que “a obra está lá”. Podemos acrescentar: como as pirâmides do Egipto. Nem vale a pena esclarecer que houve obras inúteis, que o timming das construções foi pautado pelas campanhas eleitorais, que se gastou rios de dinheiro com horas ou trabalhos extra, que as expropriações estão por resolver, ou que há fortunas suspeitas. O sindroma insinua-se, contorna a lógica, desfaz raciocínios, e repete a afirmação: “a obra está lá”.
Como dizem algumas pessoas bem pensantes: bem podíamos ter tido um Alberto João aqui no Continente. Como estaríamos? Bem, nem é preciso muita imaginação: estávamos como a Grécia, ou pior.
Este sindroma tem raízes semelhantes a um outro, bem mais antigo: o Sebastianismo. E quem melhor o definiu foi Fernando Pessoa: “Melhor é esperar por D. Sebastião/ Quer ele venha ou não”. Ou como quando escreveu que Jesus Cristo não sabia nada de finanças.
Bem pode dizer-se que o Jardinismo é uma heresia do Sebastianismo. Partem da mesma base de rejeição da lógica, da negação das evidências e da crença inabalável num futuro glorioso, envolto em brumas.
E, tal como no Sebastianismo, é servido por charlatães, que vão tratando bem das suas vidinhas; para esses, o futuro é hoje, não sendo necessário esperar por D. Sebastião.
Nuno Santa Clara














