Saltar para o conteúdo
Quotidianos

FREGUESIAS - TERRITÓRIO , IDENTIDADE , AUTONOMIAPor José Caria
Montijo

Simples processos políticos-económico-técnico-administrativos de “aglomerar “, “extinguir”, “criar” podem ser susceptíveis de agravar distorções, assimetrias, desequilibrios, não motivando à participação, antes, em alguns casos, desiludindo, desencantando, apatizando.

4 min de leitura
FREGUESIAS - TERRITÓRIO , IDENTIDADE , AUTONOMIA Por José Caria Montijo

Por Jornal Rostos

O território é uma interiorização do espaço organizado pelo pensamento.
Território , Identidade(s) local(ais) e autonomia(s) são incontornáveis como factores da equação duma possível reforma administrativa das autarquias locais.
A organização dos diferentes espaços geográficos, económicos, políticos, ideológicos e administrativos onde se movem as comunidades locais é aspecto relevante das suas histórias, do seu viver.

A Freguesia , em muitos casos , é mais que uma extensão geográfica, muito mais que divisão administrativa, é realidade intersubjectiva transportada para uma dada comunidade.
O apego ao húmus original é um dos traços mais profundos da identidade de certos povos , povoados e complexos etnográficos locais.
Ao processar-se , a identidade local, capaz de garantir coesão societária a um dado espaço do território,revelou e revela ,ao longo dos Tempos, disfunções verificadas na prática administrativa quando confrontada com afinidades em usos e costumes.

Algumas aglomerações de diferentes espaços/comunidade geográficos, económicos, políticos, Ideológicos, simbólicos, administrativos feitas em base exclusivamente técnica e “racional” podem ser susceptíveis de não ter poder motivador algum sobre certas comunidades, nem sequer apresentarem razões fundamentadas justificativas de adesão íntima ou mesmo sentimental de populações/comunidades.
Essa implementação pode ver-se tolhida por reacções de interesses e realidades locais que ignora em nome de interesse entendido , no topo, como superior.

Simples processos políticos-económico-técnico-administrativos de “aglomerar “, “extinguir”, “criar” podem ser susceptíveis de agravar distorções, assimetrias, desequilibrios, não motivando à participação, antes, em alguns casos, desiludindo, desencantando, apatizando.
As populações locais conquistaram o estatuto de parceiros sociais; Melhoramentos tecnológicos aproximam meios urbanos e rurais; suprimem-se algumas, digo bem, algumas distâncias proporcionando-se conhecimento mútuo ; aproximações importantes para identidades díspares e/ou semelhantes;

De qualquer “mexida” no edifício complexo antropológico-sociológico pela “simples” vertente administrativa não deve, não pode, estar ausente o pressuposto de que a identidade de comunidade(s) local(ais), divididas ( ou aglomeradas)
administrativamente, tem vindo a ser um longo processo activo de expressão e significações, de práticas simbólicas , nas quais e pelas quais essa(s) comunidade(s) actualiza (m) as suas relações com a sociedade global .
A identidade da comunidade local é produção ideológica que justifica estratégia comunitária com vista à assunção de existência própria, ao reforço de coesão social, À consolidação de laços de solidariedade, à conjuração de incerteza perante o futuro, na relativa fidelidade a processos passados fecundos e exitosos.
Também por isso são muitas e muitas as Freguesias importantes.

A (s) identidade local (ais) - incontornável (eis) em processos de estabelecimento de Mapas administrativos - foi, tantas e tantas vezes, construida no “confronto” entre o que era idêntico e o que era diferente em que actores sociais se diferenciaram pela identização e, simultaneamente, em processo, se integraram, identificando-se; Local e global entrecruzaram-se e entrecruzam-se.
História(s), sociabilidade(s), mas não desligadas de traços do(s) conjunto(s) ; As identidades locais não são meros estereótipos ao sabor desta ao daquela componente político-administrativa supostamente de mudança para melhor ;
As comunidades locais não mudam por pressão do Estado, nem as sociedades pela força de Decretos .
É pela concertação com vários parceiros sociais ( comunidades,colectividades) que se ajustam interesses comuns sob pena de estar à espreita o deserto, a apatia, alguma desintegração identitária e social.
Daí tanto apego em muitas e muitas Freguesias à identidade tornada reivindicação e contestação contra estratégias (confessadas, inconfessadas, omitidas, dissimuladas) susceptíveis de “destruir” vivências autónomas de tantas das nossas colectividades/comunidades.

Alguns mitos etiológicos ou de fundação, integrações na(s) história(s) local(ais) , proporcionaram a constituição , em tantas das nossas Freguesias, em tantas das nossas comunidades locais, dum precipitado de recordações populares e eruditas fazendo da identidade própria complexo multifuncional .
As “ aglomerações de Freguesias” - em momento em que o corpo social atravessa periodo de mal-estar e de crise - longe de serem “pacíficas”, são susceptiveis de provocar afirmações de reforço de coesões apelativas de identidades e reforço de “autonomias” .
Isto, e muito mais ( que este espaço não suporta), não pode deixar de ser tido em atenção pelos arquitectos administrativistas da legislatura presente.
“para que os vindouros saibam que este povo existiu,sofreu e cantou “ em “momento de transe” - como dizia Teófilo Braga .

José Caria (Out.º/2011

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção