Saltar para o conteúdo
Quotidianos

O caso de Giffen, à portuguesaPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Não se trata de humor negro, que seria de muito mau gosto. Mas, tendo em conta a fria, desumana e desapiedada lógica do liberalismo que à força nos querem impingir (melhor seria dizer impor), seria de pensar se não teria passado pela cabeça de algum iluminado esta saída para a crise: paga-se menos, para que eles poupem mais.

2 min de leitura
O caso de Giffen, à portuguesa Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

No final do século XIX, o economista inglês Robert Giffen constatou um facto curioso e, aparentemente, absurdo. Quando subiu o preço de um bem essencial e insubstituível, como o pão, aumentava o seu consumo.
Isto parecia desafiar toda a lógica. Tinha-se como assente, já nessa altura, que o aumento do preço de um bem acarretava uma baixa na sua procura, com ajustamentos sucessivos, até se atingir o equilíbrio. De certo modo, o paraíso do liberalismo económico: um sistema auto-regulado, sem intervenção externa.
Mas aquele caso anómalo intrigou (e ainda hoje intriga) os investigadores.
No fundo, a questão era esta: se o bem em causa é essencial e insubstituível, o aumento do seu preço acarreta diminuição da possibilidade de adquirir outros bens, como carne, por exemplo; e, para compensar, compra-se mais pão, porque a fome a isso obriga.
Veio-me à memória este caso, que como disse ainda hoje gera controvérsia, ao ver na TV uma série de entrevistas com pessoas aparentemente de poucos recursos, a que era perguntado o que contavam fazer com o minguado subsídio de Natal. E a resposta foi surgindo: não se gasta, porque não se sabe o que por aí vem; portanto, vamos poupá-lo.
Temos assim outro caso, não menos estranho: aparentemente, quanto menos se ganha, mais se poupa… E o dinheiro também é um bem essencial.
Não se trata de humor negro, que seria de muito mau gosto. Mas, tendo em conta a fria, desumana e desapiedada lógica do liberalismo que à força nos querem impingir (melhor seria dizer impor), seria de pensar se não teria passado pela cabeça de algum iluminado esta saída para a crise: paga-se menos, para que eles poupem mais.
Não creio em tal maquiavelismo; não porque não acredite haver gente para tal, mas porque isso pressupõe alguém a pensar num prazo de um ano, e isso é muito para quem só pensa no Deve e no Haver.

Nuno Santa Clara

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção