SePor Nuno Santa Clara
Barreiro
Tudo sem autor ou responsável conhecido. Ou antes, o culpado deve ser o “se”.

Por Jornal Rostos
Não se trata de glosar o célebre poema “If”, de Rudyard Kipling, escrito em 1895, que muita gente conhece, e cuja leitura recomendo a quem ainda não o fez. Pode ser encontrado na Internet, procurando em “If”.
Não se trata, portanto, de elencar as atitudes e posturas que levariam a ser um Homem.
Trata-se de estudar as implicações do modesto pronome reflexo “se”, profusa e constantemente utilizado na língua portuguesa, com ou sem acordos ortográficos.
Pois a fórmula é de todos os dias, e todas as ocasiões. Abriu-se, partiu-se, acabou-se, fechou-se.
Então, porquê um estudo?
Porque as implicações do “se”, pronome reflexo, são enormes. Se não, vejamos: quando perguntamos a alguém, supostamente responsável pela operação e manutenção de uma máquina, porque esta não funciona, a resposta é “avariou-se”. Se perguntarmos a alguém, encarregado de um trabalho qualquer, o que sucedeu a um qualquer objecto, a resposta será “partiu-se”; ou se perguntarmos a alguém porque não há determinado artigo no armazém, ele dirá “acabou-se”.
Portanto, aquelas duas letrinhas têm um peso enorme no campo das responsabilidades: permite passar do definido ao indefinido, alijando culpas, diluído autorias, arquivando processos.
E não se julgue que este fenómeno atinge apenas a classe baixa, como os exemplos dados poderiam sugerir. Bem pelo contrário. O desenvolvimento da actual crise é um excelente exemplo da sábia utilização do pronome reflexo.
Como sabemos, os activos desvalorizaram-se, as expectativas goraram-se, as oportunidades perderam-se, os objectivos desvaneceram-se, os créditos evaporaram-se, as famílias endividaram-se, o Governou empenhou-se – e a Banca safou-se.
Tudo sem autor ou responsável conhecido. Ou antes, o culpado deve ser o “se”.
E os portugueses lixaram-se.
Nuno Santa Clara














