A greve de 70 dias no Sul e Sueste – 1920 - através dos Diários de José António Marques.Por Rosalina Carmona
Barreiro
. Comunicação apresentada à 3ª Sessão “O Mundo do Trabalho na Península de Setúbal”
«Terminou a reunião às 19h50. Destroçaram uns para um lado, outros para diversas partes. Vim só, em direcção à estrada, era escuro mas a noite estava linda. Ainda veio um cão atrás de mim, ouvi falas de pessoas conhecidas. Saltei o valado, caindo na estrada, aonde vinham muitos ferroviários.»
«Terminou a reunião às 19h50. Destroçaram uns para um lado, outros para diversas partes. Vim só, em direcção à estrada, era escuro mas a noite estava linda. Ainda veio um cão atrás de mim, ouvi falas de pessoas conhecidas. Saltei o valado, caindo na estrada, aonde vinham muitos ferroviários.»

Por Jornal Rostos
«Terminou a reunião às 19h50. Destroçaram uns para um lado, outros para diversas partes. Vim só, em direcção à estrada, era escuro mas a noite estava linda. Ainda veio um cão atrás de mim, ouvi falas de pessoas conhecidas. Saltei o valado, caindo na estrada, aonde vinham muitos ferroviários.»
Comunicação apresentada à 3ª Sessão “O Mundo do Trabalho na Península de Setúbal”, resultante de investigação ainda em curso, no Arquivo Municipal do Barreiro, sobre um acervo documental constituído por diários manuscritos produzidos por um trabalhador ferroviário, José António Marques (JAM), entre 1918 e 1988.
A importância dos diários é tal que, constituem hoje uma fonte incontornável para o conhecimento da história – em particular do Barreiro – na primeira metade do século XX. Do primeiro caderno diário seleccionei um acontecimento, interessante sob vários pontos de vista, impressionante pelo desfecho que teve, dos quais sublinho 2:
1. O modo sistemático como JAM o foi descrevendo, num quase registo cinematográfico;
2. A forma, como tal acontecimento pôs à prova a capacidade de luta e resistência da classe ferroviária.
A comunicação baseia-se, em grande parte, na transcrição do testemunho de JAM, e é, portanto, através do seu olhar, por vezes das suas emoções, que podemos acompanhar, diariamente, tudo, ou quase tudo, quanto se passou durante a Greve de 70 dias no Sul e Sueste, em 1920.
No ano em que ele começa os seus Diários, a vila do Barreiro, segundo um Relatório da Comissão Administrativa da Câmara, contava cerca 12.000 habitantes e possuía «além das vastas oficinas dos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste e Companhia União Fabril […] perto de 160 estabelecimentos, 4 cordoarias, 3 estaleiros para barcos de cabotagem, 20 fábricas de cortiça, 1 fábrica de conservas, 1 de moagens, além de grandes armazéns de retém [i.e. armazenamento].»
Antes de entrar no tema da greve, lancemos um olhar, ainda que breve, sobre alguns acontecimentos descritos por JAM, que nos remetem, para a conflitualidade social lactente que, se vai acentuando ao longo de 1920.
Em 14 de Janeiro, diz ele que, uns 80 operários abandonaram as Oficinas falando que «arrebentava a greve». No mesmo dia, também, os corticeiros entraram em greve.
Em Fevereiro, no dia 12, o pessoal da CUF também entrou em greve, e a 24, os Caminhos de Ferro do Sul e Sueste (CFSS) estavam novamente em greve. A 26 declarou-se a greve no Minho e Douro.
Em 4 Março, JAM, de serviço em Faro, escrevia:
«Fui à primeira reunião de ferroviários. Na cidade correu o boato que se tinham declarado em greve os correios e telégrafos. Fez um dia lindo e peras e a noite de luar, mas fria, [comentário habitual] Soube que no Barreiro principiou o trabalho, às 14h retirou para Lisboa o Batalhão de SCF. Fez 17 anos a Maria Gertrudes Maurício.» Fl 35v
No dia 5 «Soube-se que por causa da greve caiu o governo.»
No dia 25 Março, a reunião de ferroviários que estava marcada não se realizou, por ter sido proibida. A 27 foram presos Leopoldo Calapez e Manuel Dionísio Júnior, por trazerem consigo exemplares do jornal A Bandeira Vermelha e foram efectuadas buscas às casas de Miguel Correia e António José Piloto.
Em 10 de Abril foi preso pela Polícia Cívica, o Presidente da Associação de Classe, António José Piloto.
Em 14 de Abril, suicidou-se nas Oficinas Gerais um servente de 20 anos. Deixou uma carta, na qual se dizia «cansado da vida e aborrecido com a má organização social», noticia o Sul e Sueste.
Em 5 de Junho, JAM escrevia: «pelas 12h declarou-se em greve o pessoal da construção da linha do Barreiro/Seixal» e, a 18, foi todo o pessoal das linhas do SS.
Em 1 de Julho, segundo JAM, nova greve no SS e a 3 entraram em greve os Caminhos de Ferro do Vouga.
A 4 de Agosto, durante uma reunião de ferroviários no Barreiro, registou-se um tiroteio e, no mesmo dia, foi tomada a Rotunda das Máquinas pela GNR. O Barreiro estava em estado de sítio.
Escreve JAM: «Á noite as ruas são patrulhadas por forças de Cavalaria, Infantaria e GNR, principalmente a Rua Miguel Pais. Quando regressava a casa, mais o Eugénio da Silva, perto da 1 da madrugada, fomos abordados por praças da GNR, que procuraram donde vínhamos. O Sebastião Gomes e o José Pequeno fugiram, para a S. Instrução, por motivo de estarem a fazer experiências com revólveres. Deu resultado a Guarda andar em procura deles.»
No dia 15 de Setembro, realizou-se uma reunião geral de ferroviários, onde foram discutidos, entre outros assuntos, a questão dos vencimentos.
No dia 20 Setembro escrevia ele:
«Principiaram as forças da GNR a guardar os comboios, tanto de passageiros como mercadorias.»
No mesmo dia, Miguel Correia, dirigente da Associação de Classe e outros ferroviários, foram suspensos. Nos dias seguintes o cenário é o mesmo:
«Continuam as forças militares na estação, fazendo-se a partida dos comboios e vapores militarmente» e «no dia 29 pelas 16h, foram tomadas as Oficinas Gerais por forças militares.»
Faremos agora uma pausa no relato de JAM, para dizer que, a causa de tantas greves, segundo o jornal O Sul e Sueste, eram a carestia de vida e a fome ; por aumentos salariais ; contra as perseguições e pela readmissão de ferroviários despedidos; a libertação de ferroviários presos e pelo cumprimento da lei das 8 h de trabalho
Chegados ao dia 30 de Setembro de 1920, escreveu JAM «pelas 17 horas, o pessoal do caminho de ferro do Sul e Sueste declarou-se em greve». (Teve início a paralisação que durou 70 dias, terminando a 9 de Dezembro desse ano.)
Nessa noite, conta JAM que, a estação do Barreiro, estava às escuras e parecia um deserto, não se ouvindo sequer o silvo de uma única locomotiva. O silêncio fora interrompido, pelas 22 horas, com a chegada dos tripulantes dos vapores, que terminaram as carreiras em Lisboa e regressavam ao Barreiro, a bordo do catraio do Mariano.
Em 2 de Outubro prosseguia a greve e escrevia JAM: «Chegou mais tropa, para render a que se encontrava já há dias na Estação do Barreiro. Fizeram os militares um comboio, às 18h para Setúbal e a Central Eléctrica já trabalha.
A 3 continuava a greve. «Já há 8 dias que não havia pão no Barreiro. Só [o] apanha quem for às bichas. Pelas 11h40, encalhou em frente da Estação, o vapor Minho, tripulado por marinheiros e praças do exército. Ás 12h40 partiu um comboio, dizia-se que seguiu para Beja. Foram transferidas as Festas do Lavradio, por motivo da greve. Á noite corria o boato [que] andavam a fazer rusgas a casas de ferroviários. Quando cheguei a casa estava a família toda em cuidado.»
No dia 5 a continuação da greve nos CFSS. «Declarou-se, pelas 5 h da madrugada a greve na C. P. Fomos armar aos pássaros, para o Pinhal da Brenha, apanhámos só 3.»
A 7 de Outubro, chegaram mais forças de Infantaria e Cavalaria da GNR, patrulhando as ruas e cercando a Associação dos Ferroviários. Havia perseguições e prisões indiscriminadas, no intuito de obrigar os ferroviários a voltar ao trabalho. Ao «desembarcar do vapor, na estação do Barreiro, foram presos o José Café e o Amadeu Marinho, julgando a GNR tratar-se de maquinistas.
Pelas 19h35 estive mais o Daciano no Mexilhoeiro. Fomos para ao pé dos maquinistas, e fogueiros de terra e mar, e outros ferroviários, que se encontravam junto a uma barraca, a ver os vapores a fazer carreiras de Lisboa a Barreiro. Regressámos a Barreiro, era quase noite. Soube que tinham chegado mais 30 praças de cavalaria da GNR, de Setúbal.
A 9 escreve ele: «Continua-se a efectuar prisões de ferroviários e pondo-se outros em liberdade.
Continuava a greve dos CFSS e a 13 escrevia: «Fui passear ao campo mais o Carlos Sândalo e o Borralho. Saímos do L. Casal até à Quinta Nova do Gandum, perto de Alhos Vedros. Encontrámos, por acaso, o Comité Local, por cima da Paiva. Era o António José Piloto e o maquinista Horta.»
Já tinham passado 3 semanas desde o início da greve. Registava-se agora entre os ferroviários, algum desalento. A presença dos militares, pela vila, era opressiva. No jornal local Acção, referia-se a propósito da greve:
«A táctica adoptada pelo governo foi mobilizar diversas unidades do exército para com elas normalizar os serviços ferroviários, mas isso que ainda só veio agravar mais a vida interna do país, só tem protelado a questão, que particularmente também tem originado incalculáveis prejuízos».
Alguns ferroviários começavam a regressar ao trabalho; os ânimos exaltavam-se e surgiam conflitos. No dia 24 de Outubro, ao fim da tarde, registaram-se incidentes.
«Ás 18h55 foi corrido o Guerra, escriturário amarelo, vindo alguns sobre ele, pela Rua Eusébio Leão. Pelas 19h20 foi também [corrido] o amarelo José d’Almeida “Rato Cego”. Ás 20h50, atiraram da janela do Alfredo Figueiras uma carta, com os dizeres “Viva os Ferroviários” e foi corrido, por uma claque de ferroviários, o sobrinho do “Rato Cego”. Por fim até perdeu a fala. Eu, e outros, mandámo-lo embora para casa.»
No dia seguinte escrevia: «Continua a greve e todo o dia andaram pela vila bastantes camiões, em transporte de carga e passageiros, de várias partes do Alentejo. Correu o boato de, ficar hoje, a situação dos ferroviários do Estado resolvida. Pelas 23h houve descargas na estação, sobre umas embarcações.»
No dia 26 de Outubro continuava a greve e houve uma reunião, com o Ministro do Comércio, mas nada ficou resolvido. Saíram nesse dia, do Barreiro para o Alentejo 12 camiões, carregados de sacaria de adubos, da CUF.
No dia 27 terminavam sem êxito as negociações entre o Governo e o Comité. A situação nas casas dos ferroviários agravava-se, alguns arranjavam meios para tentar garantir a subsistência da família. Escreve ele:
«Pelas 20h45 passaram pelo Largo Casal 2 indivíduos, a vender sardinha fresca. Meteram-se pelo beco do Formiga, correndo o boato que eram ferroviários, disfarçados.»
No dia 30 de Outubro houve mais prisões. Pelo Barreiro dizia-se que a Ponte de Faro tinha ido pelos ares, e o “Século” noticiava que, os grevistas tinham tirado os carris, perto de Ourique. Nesse dia, à tarde, houve reunião de ferroviários, no campo.
«Fomos a caminho do campo ao sítio combinado para a reunião. Às 15h15 fomos até ao Pinhal do Brenha, mas como não víssemos nenhum camarada fomos para a estrada. A primeira vedeta, no cruzamento, era Luiz Fonseca, a 2ª vedeta, na Quinta dos Arcos, o José Oliveira. Juntaram-se perto de 800 ferroviários.
Aberta a sessão, a maioria dos ferroviários, assentaram-se no chão. Presidente da reunião, o Piloto. O primeiro a falar foi o Custódio Boavida, sobre o estado actual da greve. Também falou o chefe dos maquinistas, Horta. Falou sobre o pessoal de tracção, principalmente os maquinistas, depois o José Leal, maquinista, sobre os últimos decretos do governo do Sr. António Granjo.
Até falou o Cebola, dizendo: “é agora o princípio da greve por violências”.
Também falou o militar do Batalhão de Sapadores, Luís Monteiro, disse sobre o mesmo caso do Cebola “isto aqui só por meio de violências, que andar a pedir aos ministros por esmola, de ministério para ministério, de dia para dia, não dá resultado”.
E ele disse: na greve de Novembro, há 2 anos, tinha queimado a caldeira da máquina 14, e era militar, dizendo [ainda] “o melhor era já formar uma comissão para se tratar das violências e actos de sabotagem”.
A seguir falou o chefe de estação, Fernandes Júnior, sobre a venda da linha. Depois falou o Chefe do Escoural, o Carvalho, sobre alguns assuntos da greve e sobre um assunto que se tinha passado com outro ferroviário: que vinham a pé em Poceirão e tiveram que negar que eram ferroviários.
Em seguida falou o revisor Ferreira, sobre muitos assuntos ferroviários, dizendo “o melhor era as violências, já não há outro meio a fazer”. Depois disse, “há dias, por não ter que comer, cozi uns caranguejos.”
No fim falou o Piloto, disse: “nem que viessem forças para nos prender, não retirava ninguém do lugar que estamos”, sendo aprovado por todos. Dizendo também: “camaradas: não tomai o trabalho sem ver a vitória final, senão ficamos desgraçados”.
Também falou sobre os 100 contos, que o governo vai fazer de despesa com os reis da Bélgica, que brevemente chegarão a Lisboa, e dos 300 contos para a ordem pública, que foram aprovados sem discussão, e para nós trabalhadores que produzimos não há verba, e não se aprova.
Sobre os amarelos, o Batalhão de Sapadores e o roubo nas Oficinas - de 400ks de metal branco - e sobre os camaradas a pedir o dinheiro à classe, disse “façam o menos possível, o dinheiro em caixa é pouco”.
Empregar as violências, não ter dó dos passageiros, que eles não têm dó dos nossos filhos e dos ferroviários estarem a morrer de fome.
E que o Sr. António Granjo condenou o vagão fantasma, mas está pronto a mandá-lo fazer. E condenou os ferroviários que frequentam tabernas e teatros, dando vivas aos ferroviários do SS, CP, MD e ao Comité, respondendo os camaradas com vivas ao Miguel Correia
O Piloto disse no final: “não haja receios alguns, é olhar para a frente, e não para trás”.
Terminou a reunião às 19h50. Destroçaram uns para um lado, outros para diversas partes. Vim só, em direcção à estrada, era escuro mas a noite estava linda. Ainda veio um cão atrás de mim, ouvi falas de pessoas conhecidas. Saltei o valado, caindo na estrada, aonde vinham muitos ferroviários.»
Nos dias seguintes, foram presos mais ferroviários e alguns, desesperados, estavam resolvidos a ir contratados para África, para os caminhos-de-ferro de Moçâmedes.
No dia 3 «foi preso o guarda-freio Cebola e pelas 10h25 fui avisado para fugir de casa, andando em minha procura a Polícia dos CFSS e o Sr. Alexandre, e alguns da Segurança do Estado, e o Secreta Alberto Silva. Fui para o terreno do meu pai. Foi o almoço e jornais, parecendo já um preso. Ás 18h5 regressei a casa, não fui à vila.»
No dia 7 de Novembro começou o vagão fantasma. O Batalhão de Sapadores cercou o Lavradio «sendo presos alguns ferroviários, entre eles o maquinista António Feio, Francisco A. Silva e Manuel Nunes. Estes seguiram no comboio 19, à frente do célebre “vagão fantasma” para Setúbal. No cabeçote da máquina soldados da GNR, tendo instruções de fuzilar os ferroviários que transitavam no dito vagão.
No dia seguinte foram para o vagão fantasma, o Luís Carvalho, fiel de estação, Francisco Candeias, chefe, e António Camacho, revisor de material. À noite recolheram ao Governo Civil [de Lisboa].»
O braço de ferro prosseguia e a situação económica dos ferroviários piorava, de dia para dia. Alguns, segundo JAM, estavam já a «trabalhar na agricultura no Lavradio, em Alhos Vedros, Moita, etc. e outros na Companhia União Fabril e na grande fábrica que se encontra em construção, na Verderena.»
A 9 escrevia ele: «Fui à vila à noite, soube que tinha ordem de prisão, [tal] como o Carlos Garcias. Este passou dois dias no Teatro República. Por esse motivo, a polícia andava em rondas, à procura também do Artur e do Custódio. Foi preso o filho do Brito.»
No dia 11 Novembro, o Tenente-coronel Raul Esteves convidou os ferroviários para fazerem a sua apresentação ao serviço, até dia 25, mas as prisões continuavam e os que fossem apanhados eram levados e metidos no vagão fantasma.
O desespero estava instalado e, no dia 12, houve mais um suicídio, matou-se com um tiro o bilheteiro António Paiva.
Continuava a greve. No dia 13, as caldeiras das Oficinas estavam a trabalhar, com militares do Batalhão de Sapadores. Diz JAM:«Ás 17h50 tocou a buzina, pela primeira vez, após 44 dias em greve.»
No outro dia à noite, o Largo Casal estava apinhado de ferroviários, ansiosos por notícias, que não chegavam. Corria o boato que tinham roubado a buzina das Oficinas.
Mas, no dia 16 a buzina tocou às 7h20, às 7h25, às 7h37, às 9h30, às 10h, às 11h45 e 11h52.
Houve desordens numa taberna, no Largo Casal, e chegaram ao Barreiro mais 40 praças do Batalhão de Sapadores. Havia várias locomotivas avariadas, os militares não sabiam trabalhar com elas.
No dia seguinte não tocou a buzina nas Oficinas. Ao meio-dia, chegou farinha ao Barreiro, há já 7 dias sem pão. Soube-se que ficou formado o novo governo, e às 20h15, foi corrido do Largo Casal, o Manuel Sacristão, por ser amarelo.
Continuava a greve, mas havia carreiras de vapores para Lisboa, feitas por militares e umas 10 locomotivas a trabalhar.
«Pelas 20h10 atiraram foguetes. Diziam os boateiros, que era a greve resolvida, soube-se mais tarde que era o aniversário do 22 de Novembro. Por motivo do boato, da greve resolvida, havia já cervejas e no Largo Casal, não se podia passar, estavam perto de 300 ferroviários e de outras classes. Vinham saber notícias…»
No dia 25 de Novembro, terminou o prazo para admissão dos requerimentos, e, até esse dia, tinham entrado 5 nas Oficinas. Da parte da tarde, Raul Esteves e mais oficiais, «passearam pela vila. Patrulhas de Infantaria e Cavalaria não autorizavam grupos pelas ruas, nem nos estabelecimentos. O governo pediu a demissão. Fez um dia tristíssimo, todo o dia.»
A 30 «Continuação da greve. Três indivíduos desconhecidos deram uma tareia no Inspector Carvalho. No dia 1, julgando haver reunião dos ferroviários, forças da GNR a pé, de cavalaria e engenharia e alguns camiões, foram para o Vale Romão. Ainda prenderam um fulano três vezes, apalpando quem passava e revistando carroças, burros, etc.»
No dia 3 de Dezembro:
«Ás 19h10 encontravam-se no Largo Casal muitos ferroviários, à espera de fresquinhas. Neste momento chegou uma força da GNR, a cavalo, a maioria meteram-se pela Leitaria do Lá-vai. A Guarda, ao ver isto, fizeram cerco à dita Leitaria. Desapearam 4 praças e 1 Cabo, estiveram a apalpar todos, sendo perto de 60 ferroviários. Alguns tentaram sair pela porta de trás mas, deram com a Guarda. O Farto Velho, o tempo que teve, foi esconder o revólver na boca do fogareiro. Não prenderam pessoa alguma, sendo um grande alvoroço por toda a vila.»
Nesse dia, ainda, soube-se «que o Comité foi chamado pelo ministro e suprimido o “vagão fantasma”, sendo soltos todos os grevistas na linha do Douro e Minho.»
No dia 4 continuava a greve, sendo cada vez mais grave a situação entre os ferroviários. «A maioria dos ferroviários encontrava-se no Largo, “esmorecidos”. Em casa soube que foram demitidos o João de Beja e o Maneca. Fizeram requerimento e a resposta foi, que, estavam já preenchidos os lugares.»
No dia 6 escrevia JAM que estavam «proibidos os ajuntamentos pelas ruas e estabelecimentos, era só aviar-se e sair logo. Os jornais traziam que a vila estava entregue ao poder militar. Foi substituído o Administrador do Concelho [pelo] Sr. Capitão Loureiro. Saí de casa, cheguei ao Largo Casal, fui depois até à praia, encontravam-se muitos ferroviários. Depois juntei-me de conversa com o Luís Penim, e outros, com respeito à nossa situação. Depois fomos pela praia, Jardim Público, Bairro Operário, etc. Pelas 17h50 chegou uma ordem que iam prender os ferroviários como vadios. Já foram presos 2, no Barreiro-A, como tal.»
Nos Paços do Concelho estava preso Júlio Veríssimo. «Fui ter com um oficial dizendo: parece mal-estar esse homem nessa prisão, como Presidente do Senado da Câmara. Resposta do oficial: não [o] conheço como tal, mas sim ferroviário, e se é por causa disso, ele segue já para entrar na cadeia. [E] seguiu depois para o vapor às 17h55.
Correu o boato que vão tomar a Associação de Classe, para quartel da GNR. Regressei a casa.
No dia 7 de Dezembro andou toda a manhã o Capitão Loureiro como Administrador do Concelho e prendeu 7 ferroviários. Depois mandou 3 embora. Continuavam as patrulhas pelas ruas da vila. Chegaram mais 150 praças da GNR, que fizeram aquartelamento na Associação de Classe e nas Cocheiras do Daciano. Não era permitido andar nas ruas, e, alguns empregados da Fábrica Herold, pediram um salvo-conduto. À noite houve reunião de ferroviários e corticeiros.»
No dia 8 ansiava-se que a greve terminasse.
«Chegou a notícia que a Comissão de Melhoramentos esteve no Ministério, mas não ficou nada resolvido. Saíram manifestos aos ferroviários e ao público, com os dizeres: apresentação dos ferroviários em massa, amanhã.» No Largo Casal, cheio de ferroviários, esperava-se pelo Comité.
No dia 9 de Dezembro, profundamente desalentado, escrevia JAM: «Terminou a greve dos ferroviários. Após 70 dias em greve perdemos, pelo motivo de fome, em diversos lares.»
Eis que, chegava ao fim, uma das mais longas paralisações registadas no Sul e Sueste, na qual a classe sofreu uma derrota tremenda. As reclamações não foram atendidas e muitos foram despedidos.
«Estiveram muitíssimos ferroviários no Largo Casal. Veio ordem para irem todos para o Largo dos Aliados. Em frente da Igreja da Senhora do Rosário falou o Rosa de Tunes, e, pelas 11h30, seguimos em massa, pela Rua Miguel Pais. Eram perto de 2000 homens para se apresentar ao serviço. Ao chegarmos em frente da minha loja, um alferes e 2 praças da GNR, a cavalo, não deixaram passar pessoa alguma. Formou-se uma comissão e foram à estação. Foi respondido à dita: não pode ser ninguém admitido sem requerimento. Respondeu o pessoal, todo à uma: vamos embora. Regressamos ao Largo dos Aliados e só apareceram uns 300 ferroviários. A maioria foi fazer requerimentos e outros já os tinham feitos, nas algibeiras. Quando regressámos ao Largo, passou pela Rua Miguel Pais uma força de cavalaria da GNR, acelerada, para a estação. No Largo, esteve numa das janelas da Igreja, falando, o Custódio Boa Vida, dizendo “não se faz requerimentos, que foi uma comissão a Lisboa”. Quando terminou, uma mulher que estava a ouvir, fugiu, e a maioria dos ferroviários idem. Mais tarde […] encontrava-se grande bicha nos Paços do Concelho, ao papel selado. Ao fim da tarde, já estavam 3 terços do pessoal com requerimentos metidos.
Encontravam-se muitos ferroviários pela praia, à espera de notícias de Lisboa. Avistou-se ao longe o Catraio do Mariano, todos a andar, e ele, foi para a doca da CUF. Vieram com a notícia que, a Comissão, ficou em Lisboa. Retirámos para o Largo Casal, fazendo bastante frio. No Largo estavam poucos ferroviários. Fui para a Sociedade de Instrução, mais o Custódio e o Aurélio.»
No dia 10 «Levantei-me às 7h30, estive com Rafael Soeiro e fomos até às Oficinas. Estavam perto de 60 ferroviários. Retirei e fui para a vila. Comprei, no José Café, por motivo de não haver papel selado, papel de 25 linhas. Estavam muitos ferroviários e mulheres, a comprar também. Entrou um ferroviário com “Batalhas”, debaixo do sobretudo, a vender.
Pelas 12h30 fiz entrega do meu requerimento na mesa. Regressei ao Largo Casal, uns faziam requerimentos, outros em procura de papel selado. No Largo estava grande número de ferroviários, ao sol. Chegou um camarada, dizendo que: vinha no jornal o nome de 400 ferroviários despedidos, do SS, Douro e Minho.
Soube que estavam a chamar alguns, que tinham metido os requerimentos de manhã. O Eugénio Silva veio despedido. Estavam muitos ferroviários a trabalhar nas Oficinas.
Mais tarde, uma grande claque, fomos até às Oficinas, estava grande porção de ferroviários, à espera que chamassem pelos nomes. Entrei pelo escritório:
Trazes fato de ganga?
Não.
Mandou-me a casa buscar.
[Depois vestiu-se no escritório.]
Tens ferramenta?
Não.
Mandou-me à Gare. Neste momento chegou um comboio, feito por militares. Pelas 17h12 o João da Luz mandou-me embora, fui para a vila. Falei com a Maria Gertrudes e regressei à Sociedade Instrução. Estive a jogar à bisca, mais o Júlio Martins…
O primeiro comboio, feito pelo pessoal foi para Setúbal, máquina nº 28, maquinista António de Oliveira, fogueiro o Balbino.»
Rosalina Carmona
Historiadora
Barreiro, 26 de Novembro 2011
1. Arquivo Municipal do Barreiro, Melhoramentos na Vila do Barreiro Projectados pela Comissão Administrativa demissionária – 1918. CMB/B/A/0306/Cx 10, 1918-1969
2. O Sul e Sueste, nº21, 31 de Março, 1920
3. O Sul e Sueste, nº21, 31 de Março, 1920. Eram todos membros da Associação de Classe
4. O Sul e Sueste, nº22, 23 de Abril, 1920
5. O Sul e Sueste, nº22, 23 de Abril, 1920.
6. «Chega a ser ridículo o vencimento da maioria dos ferroviários, comparável com os de certos moços de escritório, no entanto as suas responsabilidades são enormíssimas, e o seu trabalho extenuante e arriscado. Dia a dia os lares ferroviários são assaltados por doenças provenientes da sua má alimentação e das intempéries a que estão sujeitos, devido à falta de conforto tanto interior como exterior e não há meio de aparecer uma creatura, que dentro dos processos legaes, legítmos e humanos ponha termo a tal situação…». “Terrível Situação”, O Sul e Sueste, nº33, 16 de Agosto, 1920, p.2
7. «Pessoal efectivo auxiliar, ou eventual 70$00; pessoal feminino 50$00; aprendizes, boletineiros e praticantes 50$00; reformados 50$00; pensões de sobrevivência 35$00» O Sul e Sueste, nº20, 14 de Março, 1920. Reclamações que já estavam na origem de uma outra greve, ocorrida em Novembro de 1919.
8. O Sul e Sueste, nº25, 20 de Maio, 1920. Nesta altura trabalhava-se 10 horas nas Oficinas dos CFSS, não sendo observada a lei das 8 horas, aprovada em 7 de Maio de 1919.
9. Acção, nº 2, 24 Outubro, 1920
Comunicação apresentada à 3ª Sessão “O Mundo do Trabalho na Península de Setúbal”, resultante de investigação ainda em curso, no Arquivo Municipal do Barreiro, sobre um acervo documental constituído por diários manuscritos produzidos por um trabalhador ferroviário, José António Marques (JAM), entre 1918 e 1988.
A importância dos diários é tal que, constituem hoje uma fonte incontornável para o conhecimento da história – em particular do Barreiro – na primeira metade do século XX. Do primeiro caderno diário seleccionei um acontecimento, interessante sob vários pontos de vista, impressionante pelo desfecho que teve, dos quais sublinho 2:
1. O modo sistemático como JAM o foi descrevendo, num quase registo cinematográfico;
2. A forma, como tal acontecimento pôs à prova a capacidade de luta e resistência da classe ferroviária.
A comunicação baseia-se, em grande parte, na transcrição do testemunho de JAM, e é, portanto, através do seu olhar, por vezes das suas emoções, que podemos acompanhar, diariamente, tudo, ou quase tudo, quanto se passou durante a Greve de 70 dias no Sul e Sueste, em 1920.
No ano em que ele começa os seus Diários, a vila do Barreiro, segundo um Relatório da Comissão Administrativa da Câmara, contava cerca 12.000 habitantes e possuía «além das vastas oficinas dos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste e Companhia União Fabril […] perto de 160 estabelecimentos, 4 cordoarias, 3 estaleiros para barcos de cabotagem, 20 fábricas de cortiça, 1 fábrica de conservas, 1 de moagens, além de grandes armazéns de retém [i.e. armazenamento].»
Antes de entrar no tema da greve, lancemos um olhar, ainda que breve, sobre alguns acontecimentos descritos por JAM, que nos remetem, para a conflitualidade social lactente que, se vai acentuando ao longo de 1920.
Em 14 de Janeiro, diz ele que, uns 80 operários abandonaram as Oficinas falando que «arrebentava a greve». No mesmo dia, também, os corticeiros entraram em greve.
Em Fevereiro, no dia 12, o pessoal da CUF também entrou em greve, e a 24, os Caminhos de Ferro do Sul e Sueste (CFSS) estavam novamente em greve. A 26 declarou-se a greve no Minho e Douro.
Em 4 Março, JAM, de serviço em Faro, escrevia:
«Fui à primeira reunião de ferroviários. Na cidade correu o boato que se tinham declarado em greve os correios e telégrafos. Fez um dia lindo e peras e a noite de luar, mas fria, [comentário habitual] Soube que no Barreiro principiou o trabalho, às 14h retirou para Lisboa o Batalhão de SCF. Fez 17 anos a Maria Gertrudes Maurício.» Fl 35v
No dia 5 «Soube-se que por causa da greve caiu o governo.»
No dia 25 Março, a reunião de ferroviários que estava marcada não se realizou, por ter sido proibida. A 27 foram presos Leopoldo Calapez e Manuel Dionísio Júnior, por trazerem consigo exemplares do jornal A Bandeira Vermelha e foram efectuadas buscas às casas de Miguel Correia e António José Piloto.
Em 10 de Abril foi preso pela Polícia Cívica, o Presidente da Associação de Classe, António José Piloto.
Em 14 de Abril, suicidou-se nas Oficinas Gerais um servente de 20 anos. Deixou uma carta, na qual se dizia «cansado da vida e aborrecido com a má organização social», noticia o Sul e Sueste.
Em 5 de Junho, JAM escrevia: «pelas 12h declarou-se em greve o pessoal da construção da linha do Barreiro/Seixal» e, a 18, foi todo o pessoal das linhas do SS.
Em 1 de Julho, segundo JAM, nova greve no SS e a 3 entraram em greve os Caminhos de Ferro do Vouga.
A 4 de Agosto, durante uma reunião de ferroviários no Barreiro, registou-se um tiroteio e, no mesmo dia, foi tomada a Rotunda das Máquinas pela GNR. O Barreiro estava em estado de sítio.
Escreve JAM: «Á noite as ruas são patrulhadas por forças de Cavalaria, Infantaria e GNR, principalmente a Rua Miguel Pais. Quando regressava a casa, mais o Eugénio da Silva, perto da 1 da madrugada, fomos abordados por praças da GNR, que procuraram donde vínhamos. O Sebastião Gomes e o José Pequeno fugiram, para a S. Instrução, por motivo de estarem a fazer experiências com revólveres. Deu resultado a Guarda andar em procura deles.»
No dia 15 de Setembro, realizou-se uma reunião geral de ferroviários, onde foram discutidos, entre outros assuntos, a questão dos vencimentos.
No dia 20 Setembro escrevia ele:
«Principiaram as forças da GNR a guardar os comboios, tanto de passageiros como mercadorias.»
No mesmo dia, Miguel Correia, dirigente da Associação de Classe e outros ferroviários, foram suspensos. Nos dias seguintes o cenário é o mesmo:
«Continuam as forças militares na estação, fazendo-se a partida dos comboios e vapores militarmente» e «no dia 29 pelas 16h, foram tomadas as Oficinas Gerais por forças militares.»
Faremos agora uma pausa no relato de JAM, para dizer que, a causa de tantas greves, segundo o jornal O Sul e Sueste, eram a carestia de vida e a fome ; por aumentos salariais ; contra as perseguições e pela readmissão de ferroviários despedidos; a libertação de ferroviários presos e pelo cumprimento da lei das 8 h de trabalho
Chegados ao dia 30 de Setembro de 1920, escreveu JAM «pelas 17 horas, o pessoal do caminho de ferro do Sul e Sueste declarou-se em greve». (Teve início a paralisação que durou 70 dias, terminando a 9 de Dezembro desse ano.)
Nessa noite, conta JAM que, a estação do Barreiro, estava às escuras e parecia um deserto, não se ouvindo sequer o silvo de uma única locomotiva. O silêncio fora interrompido, pelas 22 horas, com a chegada dos tripulantes dos vapores, que terminaram as carreiras em Lisboa e regressavam ao Barreiro, a bordo do catraio do Mariano.
Em 2 de Outubro prosseguia a greve e escrevia JAM: «Chegou mais tropa, para render a que se encontrava já há dias na Estação do Barreiro. Fizeram os militares um comboio, às 18h para Setúbal e a Central Eléctrica já trabalha.
A 3 continuava a greve. «Já há 8 dias que não havia pão no Barreiro. Só [o] apanha quem for às bichas. Pelas 11h40, encalhou em frente da Estação, o vapor Minho, tripulado por marinheiros e praças do exército. Ás 12h40 partiu um comboio, dizia-se que seguiu para Beja. Foram transferidas as Festas do Lavradio, por motivo da greve. Á noite corria o boato [que] andavam a fazer rusgas a casas de ferroviários. Quando cheguei a casa estava a família toda em cuidado.»
No dia 5 a continuação da greve nos CFSS. «Declarou-se, pelas 5 h da madrugada a greve na C. P. Fomos armar aos pássaros, para o Pinhal da Brenha, apanhámos só 3.»
A 7 de Outubro, chegaram mais forças de Infantaria e Cavalaria da GNR, patrulhando as ruas e cercando a Associação dos Ferroviários. Havia perseguições e prisões indiscriminadas, no intuito de obrigar os ferroviários a voltar ao trabalho. Ao «desembarcar do vapor, na estação do Barreiro, foram presos o José Café e o Amadeu Marinho, julgando a GNR tratar-se de maquinistas.
Pelas 19h35 estive mais o Daciano no Mexilhoeiro. Fomos para ao pé dos maquinistas, e fogueiros de terra e mar, e outros ferroviários, que se encontravam junto a uma barraca, a ver os vapores a fazer carreiras de Lisboa a Barreiro. Regressámos a Barreiro, era quase noite. Soube que tinham chegado mais 30 praças de cavalaria da GNR, de Setúbal.
A 9 escreve ele: «Continua-se a efectuar prisões de ferroviários e pondo-se outros em liberdade.
Continuava a greve dos CFSS e a 13 escrevia: «Fui passear ao campo mais o Carlos Sândalo e o Borralho. Saímos do L. Casal até à Quinta Nova do Gandum, perto de Alhos Vedros. Encontrámos, por acaso, o Comité Local, por cima da Paiva. Era o António José Piloto e o maquinista Horta.»
Já tinham passado 3 semanas desde o início da greve. Registava-se agora entre os ferroviários, algum desalento. A presença dos militares, pela vila, era opressiva. No jornal local Acção, referia-se a propósito da greve:
«A táctica adoptada pelo governo foi mobilizar diversas unidades do exército para com elas normalizar os serviços ferroviários, mas isso que ainda só veio agravar mais a vida interna do país, só tem protelado a questão, que particularmente também tem originado incalculáveis prejuízos».
Alguns ferroviários começavam a regressar ao trabalho; os ânimos exaltavam-se e surgiam conflitos. No dia 24 de Outubro, ao fim da tarde, registaram-se incidentes.
«Ás 18h55 foi corrido o Guerra, escriturário amarelo, vindo alguns sobre ele, pela Rua Eusébio Leão. Pelas 19h20 foi também [corrido] o amarelo José d’Almeida “Rato Cego”. Ás 20h50, atiraram da janela do Alfredo Figueiras uma carta, com os dizeres “Viva os Ferroviários” e foi corrido, por uma claque de ferroviários, o sobrinho do “Rato Cego”. Por fim até perdeu a fala. Eu, e outros, mandámo-lo embora para casa.»
No dia seguinte escrevia: «Continua a greve e todo o dia andaram pela vila bastantes camiões, em transporte de carga e passageiros, de várias partes do Alentejo. Correu o boato de, ficar hoje, a situação dos ferroviários do Estado resolvida. Pelas 23h houve descargas na estação, sobre umas embarcações.»
No dia 26 de Outubro continuava a greve e houve uma reunião, com o Ministro do Comércio, mas nada ficou resolvido. Saíram nesse dia, do Barreiro para o Alentejo 12 camiões, carregados de sacaria de adubos, da CUF.
No dia 27 terminavam sem êxito as negociações entre o Governo e o Comité. A situação nas casas dos ferroviários agravava-se, alguns arranjavam meios para tentar garantir a subsistência da família. Escreve ele:
«Pelas 20h45 passaram pelo Largo Casal 2 indivíduos, a vender sardinha fresca. Meteram-se pelo beco do Formiga, correndo o boato que eram ferroviários, disfarçados.»
No dia 30 de Outubro houve mais prisões. Pelo Barreiro dizia-se que a Ponte de Faro tinha ido pelos ares, e o “Século” noticiava que, os grevistas tinham tirado os carris, perto de Ourique. Nesse dia, à tarde, houve reunião de ferroviários, no campo.
«Fomos a caminho do campo ao sítio combinado para a reunião. Às 15h15 fomos até ao Pinhal do Brenha, mas como não víssemos nenhum camarada fomos para a estrada. A primeira vedeta, no cruzamento, era Luiz Fonseca, a 2ª vedeta, na Quinta dos Arcos, o José Oliveira. Juntaram-se perto de 800 ferroviários.
Aberta a sessão, a maioria dos ferroviários, assentaram-se no chão. Presidente da reunião, o Piloto. O primeiro a falar foi o Custódio Boavida, sobre o estado actual da greve. Também falou o chefe dos maquinistas, Horta. Falou sobre o pessoal de tracção, principalmente os maquinistas, depois o José Leal, maquinista, sobre os últimos decretos do governo do Sr. António Granjo.
Até falou o Cebola, dizendo: “é agora o princípio da greve por violências”.
Também falou o militar do Batalhão de Sapadores, Luís Monteiro, disse sobre o mesmo caso do Cebola “isto aqui só por meio de violências, que andar a pedir aos ministros por esmola, de ministério para ministério, de dia para dia, não dá resultado”.
E ele disse: na greve de Novembro, há 2 anos, tinha queimado a caldeira da máquina 14, e era militar, dizendo [ainda] “o melhor era já formar uma comissão para se tratar das violências e actos de sabotagem”.
A seguir falou o chefe de estação, Fernandes Júnior, sobre a venda da linha. Depois falou o Chefe do Escoural, o Carvalho, sobre alguns assuntos da greve e sobre um assunto que se tinha passado com outro ferroviário: que vinham a pé em Poceirão e tiveram que negar que eram ferroviários.
Em seguida falou o revisor Ferreira, sobre muitos assuntos ferroviários, dizendo “o melhor era as violências, já não há outro meio a fazer”. Depois disse, “há dias, por não ter que comer, cozi uns caranguejos.”
No fim falou o Piloto, disse: “nem que viessem forças para nos prender, não retirava ninguém do lugar que estamos”, sendo aprovado por todos. Dizendo também: “camaradas: não tomai o trabalho sem ver a vitória final, senão ficamos desgraçados”.
Também falou sobre os 100 contos, que o governo vai fazer de despesa com os reis da Bélgica, que brevemente chegarão a Lisboa, e dos 300 contos para a ordem pública, que foram aprovados sem discussão, e para nós trabalhadores que produzimos não há verba, e não se aprova.
Sobre os amarelos, o Batalhão de Sapadores e o roubo nas Oficinas - de 400ks de metal branco - e sobre os camaradas a pedir o dinheiro à classe, disse “façam o menos possível, o dinheiro em caixa é pouco”.
Empregar as violências, não ter dó dos passageiros, que eles não têm dó dos nossos filhos e dos ferroviários estarem a morrer de fome.
E que o Sr. António Granjo condenou o vagão fantasma, mas está pronto a mandá-lo fazer. E condenou os ferroviários que frequentam tabernas e teatros, dando vivas aos ferroviários do SS, CP, MD e ao Comité, respondendo os camaradas com vivas ao Miguel Correia
O Piloto disse no final: “não haja receios alguns, é olhar para a frente, e não para trás”.
Terminou a reunião às 19h50. Destroçaram uns para um lado, outros para diversas partes. Vim só, em direcção à estrada, era escuro mas a noite estava linda. Ainda veio um cão atrás de mim, ouvi falas de pessoas conhecidas. Saltei o valado, caindo na estrada, aonde vinham muitos ferroviários.»
Nos dias seguintes, foram presos mais ferroviários e alguns, desesperados, estavam resolvidos a ir contratados para África, para os caminhos-de-ferro de Moçâmedes.
No dia 3 «foi preso o guarda-freio Cebola e pelas 10h25 fui avisado para fugir de casa, andando em minha procura a Polícia dos CFSS e o Sr. Alexandre, e alguns da Segurança do Estado, e o Secreta Alberto Silva. Fui para o terreno do meu pai. Foi o almoço e jornais, parecendo já um preso. Ás 18h5 regressei a casa, não fui à vila.»
No dia 7 de Novembro começou o vagão fantasma. O Batalhão de Sapadores cercou o Lavradio «sendo presos alguns ferroviários, entre eles o maquinista António Feio, Francisco A. Silva e Manuel Nunes. Estes seguiram no comboio 19, à frente do célebre “vagão fantasma” para Setúbal. No cabeçote da máquina soldados da GNR, tendo instruções de fuzilar os ferroviários que transitavam no dito vagão.
No dia seguinte foram para o vagão fantasma, o Luís Carvalho, fiel de estação, Francisco Candeias, chefe, e António Camacho, revisor de material. À noite recolheram ao Governo Civil [de Lisboa].»
O braço de ferro prosseguia e a situação económica dos ferroviários piorava, de dia para dia. Alguns, segundo JAM, estavam já a «trabalhar na agricultura no Lavradio, em Alhos Vedros, Moita, etc. e outros na Companhia União Fabril e na grande fábrica que se encontra em construção, na Verderena.»
A 9 escrevia ele: «Fui à vila à noite, soube que tinha ordem de prisão, [tal] como o Carlos Garcias. Este passou dois dias no Teatro República. Por esse motivo, a polícia andava em rondas, à procura também do Artur e do Custódio. Foi preso o filho do Brito.»
No dia 11 Novembro, o Tenente-coronel Raul Esteves convidou os ferroviários para fazerem a sua apresentação ao serviço, até dia 25, mas as prisões continuavam e os que fossem apanhados eram levados e metidos no vagão fantasma.
O desespero estava instalado e, no dia 12, houve mais um suicídio, matou-se com um tiro o bilheteiro António Paiva.
Continuava a greve. No dia 13, as caldeiras das Oficinas estavam a trabalhar, com militares do Batalhão de Sapadores. Diz JAM:«Ás 17h50 tocou a buzina, pela primeira vez, após 44 dias em greve.»
No outro dia à noite, o Largo Casal estava apinhado de ferroviários, ansiosos por notícias, que não chegavam. Corria o boato que tinham roubado a buzina das Oficinas.
Mas, no dia 16 a buzina tocou às 7h20, às 7h25, às 7h37, às 9h30, às 10h, às 11h45 e 11h52.
Houve desordens numa taberna, no Largo Casal, e chegaram ao Barreiro mais 40 praças do Batalhão de Sapadores. Havia várias locomotivas avariadas, os militares não sabiam trabalhar com elas.
No dia seguinte não tocou a buzina nas Oficinas. Ao meio-dia, chegou farinha ao Barreiro, há já 7 dias sem pão. Soube-se que ficou formado o novo governo, e às 20h15, foi corrido do Largo Casal, o Manuel Sacristão, por ser amarelo.
Continuava a greve, mas havia carreiras de vapores para Lisboa, feitas por militares e umas 10 locomotivas a trabalhar.
«Pelas 20h10 atiraram foguetes. Diziam os boateiros, que era a greve resolvida, soube-se mais tarde que era o aniversário do 22 de Novembro. Por motivo do boato, da greve resolvida, havia já cervejas e no Largo Casal, não se podia passar, estavam perto de 300 ferroviários e de outras classes. Vinham saber notícias…»
No dia 25 de Novembro, terminou o prazo para admissão dos requerimentos, e, até esse dia, tinham entrado 5 nas Oficinas. Da parte da tarde, Raul Esteves e mais oficiais, «passearam pela vila. Patrulhas de Infantaria e Cavalaria não autorizavam grupos pelas ruas, nem nos estabelecimentos. O governo pediu a demissão. Fez um dia tristíssimo, todo o dia.»
A 30 «Continuação da greve. Três indivíduos desconhecidos deram uma tareia no Inspector Carvalho. No dia 1, julgando haver reunião dos ferroviários, forças da GNR a pé, de cavalaria e engenharia e alguns camiões, foram para o Vale Romão. Ainda prenderam um fulano três vezes, apalpando quem passava e revistando carroças, burros, etc.»
No dia 3 de Dezembro:
«Ás 19h10 encontravam-se no Largo Casal muitos ferroviários, à espera de fresquinhas. Neste momento chegou uma força da GNR, a cavalo, a maioria meteram-se pela Leitaria do Lá-vai. A Guarda, ao ver isto, fizeram cerco à dita Leitaria. Desapearam 4 praças e 1 Cabo, estiveram a apalpar todos, sendo perto de 60 ferroviários. Alguns tentaram sair pela porta de trás mas, deram com a Guarda. O Farto Velho, o tempo que teve, foi esconder o revólver na boca do fogareiro. Não prenderam pessoa alguma, sendo um grande alvoroço por toda a vila.»
Nesse dia, ainda, soube-se «que o Comité foi chamado pelo ministro e suprimido o “vagão fantasma”, sendo soltos todos os grevistas na linha do Douro e Minho.»
No dia 4 continuava a greve, sendo cada vez mais grave a situação entre os ferroviários. «A maioria dos ferroviários encontrava-se no Largo, “esmorecidos”. Em casa soube que foram demitidos o João de Beja e o Maneca. Fizeram requerimento e a resposta foi, que, estavam já preenchidos os lugares.»
No dia 6 escrevia JAM que estavam «proibidos os ajuntamentos pelas ruas e estabelecimentos, era só aviar-se e sair logo. Os jornais traziam que a vila estava entregue ao poder militar. Foi substituído o Administrador do Concelho [pelo] Sr. Capitão Loureiro. Saí de casa, cheguei ao Largo Casal, fui depois até à praia, encontravam-se muitos ferroviários. Depois juntei-me de conversa com o Luís Penim, e outros, com respeito à nossa situação. Depois fomos pela praia, Jardim Público, Bairro Operário, etc. Pelas 17h50 chegou uma ordem que iam prender os ferroviários como vadios. Já foram presos 2, no Barreiro-A, como tal.»
Nos Paços do Concelho estava preso Júlio Veríssimo. «Fui ter com um oficial dizendo: parece mal-estar esse homem nessa prisão, como Presidente do Senado da Câmara. Resposta do oficial: não [o] conheço como tal, mas sim ferroviário, e se é por causa disso, ele segue já para entrar na cadeia. [E] seguiu depois para o vapor às 17h55.
Correu o boato que vão tomar a Associação de Classe, para quartel da GNR. Regressei a casa.
No dia 7 de Dezembro andou toda a manhã o Capitão Loureiro como Administrador do Concelho e prendeu 7 ferroviários. Depois mandou 3 embora. Continuavam as patrulhas pelas ruas da vila. Chegaram mais 150 praças da GNR, que fizeram aquartelamento na Associação de Classe e nas Cocheiras do Daciano. Não era permitido andar nas ruas, e, alguns empregados da Fábrica Herold, pediram um salvo-conduto. À noite houve reunião de ferroviários e corticeiros.»
No dia 8 ansiava-se que a greve terminasse.
«Chegou a notícia que a Comissão de Melhoramentos esteve no Ministério, mas não ficou nada resolvido. Saíram manifestos aos ferroviários e ao público, com os dizeres: apresentação dos ferroviários em massa, amanhã.» No Largo Casal, cheio de ferroviários, esperava-se pelo Comité.
No dia 9 de Dezembro, profundamente desalentado, escrevia JAM: «Terminou a greve dos ferroviários. Após 70 dias em greve perdemos, pelo motivo de fome, em diversos lares.»
Eis que, chegava ao fim, uma das mais longas paralisações registadas no Sul e Sueste, na qual a classe sofreu uma derrota tremenda. As reclamações não foram atendidas e muitos foram despedidos.
«Estiveram muitíssimos ferroviários no Largo Casal. Veio ordem para irem todos para o Largo dos Aliados. Em frente da Igreja da Senhora do Rosário falou o Rosa de Tunes, e, pelas 11h30, seguimos em massa, pela Rua Miguel Pais. Eram perto de 2000 homens para se apresentar ao serviço. Ao chegarmos em frente da minha loja, um alferes e 2 praças da GNR, a cavalo, não deixaram passar pessoa alguma. Formou-se uma comissão e foram à estação. Foi respondido à dita: não pode ser ninguém admitido sem requerimento. Respondeu o pessoal, todo à uma: vamos embora. Regressamos ao Largo dos Aliados e só apareceram uns 300 ferroviários. A maioria foi fazer requerimentos e outros já os tinham feitos, nas algibeiras. Quando regressámos ao Largo, passou pela Rua Miguel Pais uma força de cavalaria da GNR, acelerada, para a estação. No Largo, esteve numa das janelas da Igreja, falando, o Custódio Boa Vida, dizendo “não se faz requerimentos, que foi uma comissão a Lisboa”. Quando terminou, uma mulher que estava a ouvir, fugiu, e a maioria dos ferroviários idem. Mais tarde […] encontrava-se grande bicha nos Paços do Concelho, ao papel selado. Ao fim da tarde, já estavam 3 terços do pessoal com requerimentos metidos.
Encontravam-se muitos ferroviários pela praia, à espera de notícias de Lisboa. Avistou-se ao longe o Catraio do Mariano, todos a andar, e ele, foi para a doca da CUF. Vieram com a notícia que, a Comissão, ficou em Lisboa. Retirámos para o Largo Casal, fazendo bastante frio. No Largo estavam poucos ferroviários. Fui para a Sociedade de Instrução, mais o Custódio e o Aurélio.»
No dia 10 «Levantei-me às 7h30, estive com Rafael Soeiro e fomos até às Oficinas. Estavam perto de 60 ferroviários. Retirei e fui para a vila. Comprei, no José Café, por motivo de não haver papel selado, papel de 25 linhas. Estavam muitos ferroviários e mulheres, a comprar também. Entrou um ferroviário com “Batalhas”, debaixo do sobretudo, a vender.
Pelas 12h30 fiz entrega do meu requerimento na mesa. Regressei ao Largo Casal, uns faziam requerimentos, outros em procura de papel selado. No Largo estava grande número de ferroviários, ao sol. Chegou um camarada, dizendo que: vinha no jornal o nome de 400 ferroviários despedidos, do SS, Douro e Minho.
Soube que estavam a chamar alguns, que tinham metido os requerimentos de manhã. O Eugénio Silva veio despedido. Estavam muitos ferroviários a trabalhar nas Oficinas.
Mais tarde, uma grande claque, fomos até às Oficinas, estava grande porção de ferroviários, à espera que chamassem pelos nomes. Entrei pelo escritório:
Trazes fato de ganga?
Não.
Mandou-me a casa buscar.
[Depois vestiu-se no escritório.]
Tens ferramenta?
Não.
Mandou-me à Gare. Neste momento chegou um comboio, feito por militares. Pelas 17h12 o João da Luz mandou-me embora, fui para a vila. Falei com a Maria Gertrudes e regressei à Sociedade Instrução. Estive a jogar à bisca, mais o Júlio Martins…
O primeiro comboio, feito pelo pessoal foi para Setúbal, máquina nº 28, maquinista António de Oliveira, fogueiro o Balbino.»
Rosalina Carmona
Historiadora
Barreiro, 26 de Novembro 2011
1. Arquivo Municipal do Barreiro, Melhoramentos na Vila do Barreiro Projectados pela Comissão Administrativa demissionária – 1918. CMB/B/A/0306/Cx 10, 1918-1969
2. O Sul e Sueste, nº21, 31 de Março, 1920
3. O Sul e Sueste, nº21, 31 de Março, 1920. Eram todos membros da Associação de Classe
4. O Sul e Sueste, nº22, 23 de Abril, 1920
5. O Sul e Sueste, nº22, 23 de Abril, 1920.
6. «Chega a ser ridículo o vencimento da maioria dos ferroviários, comparável com os de certos moços de escritório, no entanto as suas responsabilidades são enormíssimas, e o seu trabalho extenuante e arriscado. Dia a dia os lares ferroviários são assaltados por doenças provenientes da sua má alimentação e das intempéries a que estão sujeitos, devido à falta de conforto tanto interior como exterior e não há meio de aparecer uma creatura, que dentro dos processos legaes, legítmos e humanos ponha termo a tal situação…». “Terrível Situação”, O Sul e Sueste, nº33, 16 de Agosto, 1920, p.2
7. «Pessoal efectivo auxiliar, ou eventual 70$00; pessoal feminino 50$00; aprendizes, boletineiros e praticantes 50$00; reformados 50$00; pensões de sobrevivência 35$00» O Sul e Sueste, nº20, 14 de Março, 1920. Reclamações que já estavam na origem de uma outra greve, ocorrida em Novembro de 1919.
8. O Sul e Sueste, nº25, 20 de Maio, 1920. Nesta altura trabalhava-se 10 horas nas Oficinas dos CFSS, não sendo observada a lei das 8 horas, aprovada em 7 de Maio de 1919.
9. Acção, nº 2, 24 Outubro, 1920















