Parábola do lápisPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Este caso, como dizem os açorianos, “foi verídico e passou-se”, mas não posso precisar quando, onde, e com quem. Dadas estas imprecisões, prefiro chamar-lhe parábola, em vez de crónica, anedota ou conto.
Houve em tempos (supõe-se que tempos de crise, como agora) um chefe de serviço que, quando um subordinado lhe pedia um lápis, partia um e dava-lhe metade. E assim entendia que promovia a poupança, porque o tal subordinado tinha que se contentar com a satisfação de metade do pedido.
Ou, em linguagem mais bíblica, o chefe louvava o Senhor pela sua (dele) prudência, porquanto tinha poupado nos escassos recursos.
Ora, a frieza dos números dá-nos outra visão das coisas. Se um lápis novo tem cerca de vinte centímetros, partido em duas metades, cada uma terá dez centímetros.
Por outro lado, se é impossível escrever com uma ponta de lápis com menos de cinco centímetros, então teremos, não cinco centímetros inúteis em cada lápis, mas dez. Ou seja, em vez de 25% de perda, temos 50%.
Então, porque louvava o Senhor o chefe auto-promovido a prudente? De prudente e sábio, de facto, não tinha nada…
Daí a utilidade desta parábola. Não falta para aí quem siga o exemplo do chefe “prudente” e, na mira da poupança, interrompa projectos, adie trabalhos, protele soluções, cancele realizações. Dando, em troca, metades de lápis. E, quem sabe, louvando o Senhor.
Resta saber o que faremos com as pontas de lápis que irão sobrando.
Nuno Santa Clara














