Balanço da Década - SetúbalA vida social na região – Que mudou?
O meu olhar
Por Eugénio Fonseca

Por Jornal Rostos
Para a região de Setúbal, a primeira década deste século foi marcada por enormes expectativas no plano económico que poderiam dar maior sustentabilidade à coesão social, fragilizada devido às características territoriais, sociológicas e ao modelo desenvolvimento económico em curso.
Esperava - se pela criação de uns milhares de postos de trabalho se não tivessem sido suspensos (alimentamos a esperança de que se trata apenas de suspensão) os projectos da construção de um novo aeroporto, da plataforma logística do Poceirão, de mais uma travessia sobre o Tejo, de linhas férreas de alta velocidade (apesar de não concordar que este empreendimento pusesse vir a pôr em causa, nomeadamente, a permanência de plantação de vinhas)…
Se estes investimentos tivessem prosseguido, tornar-se-ia mais fecunda a principal fonte de crescimento económico da região que é o trabalho. Sem ele, facilmente se resvala para a precariedade financeira e, em consequência dela, para a social.
Mas foram interrompidos, não tendo trazido, a curto prazo, qualquer benefício. Pelo contrário, especularam-se os preços de terrenos e disparou, sem planeamento, a construção de fogos, tendo ficado muitos por habitar e outros por acabar, facto que levou à falência de construtores civis e a despedimentos.
Felizmente que algumas empresas - numa feliz cumplicidade entre gestores e trabalhadores, cumprindo cada qual a missão que lhe compete – têm permitido que não seja mais frágil a nossa condição social. Refiro-me à Auto Europa e à Lisnave. Mas também é importante mencionar que foi nesta década que se construiu uma nova fábrica de papel, sob a responsabilidade da PortucelSoporcel; se iniciou o empreendimento turístico de Tróia que permitirá a dinamização das potencialidades turísticas da Costa Vicentina e da cidade de Setúbal (correndo-se, embora, o risco de os menos abastados não acederem, pelo menos, aos benefícios naturais); se disseminaram grandes superfícies comerciais (até demais, contribuindo para o sufoco do pequeno comércio) e se instalaram novas indústrias.
Tudo isto gerou mais emprego, apesar de nem todo ser bem pago nem em condições respeitadoras da dignidade dos trabalhadores. Pelo que se nota ainda um défice de consciência social no que respeita ao cumprimento de direitos fundamentais que se reflecte, posteriormente, no acesso a medidas de protecção social. Porém, também é conveniente ter presente que este imperativo de maior sentido de co-responsabilidade social também se aplica aos trabalhadores que não podem alienar os seus deveres, encarando o trabalho, não apenas como um meio de sustento, mas também como expressão do contributo que cada um deve dar para o progresso da sua região, do país e do mundo em geral.
Foi nestes dez anos que o país recebeu o maior número de imigrantes. As zonas mais industrializadas do Distrito de Setúbal foram umas das que, do território nacional, maior número de estrangeiros receberam. As possibilidades de trabalho e a existência de uma satisfatória cobertura de respostas sociais facilitaram a opção. Esta movimentação e permanência obrigou a diversificar alguns serviços, tendo surgido escolas para a aprendizagem do português e equipas para o apoio na legalização dos indocumentados. Inicialmente as IPSS tiveram um papel muito importante, tendo, posteriormente, começado a surgir associações constituídas pelos próprios migrantes. Ao associarem-se puderam assegurar melhor a sua integração e difundir a gastronomia e cultura de cada país, o que se revelou um enriquecimento para o nosso.
Na área social específica houve também evolução. Apareceram novas instituições que reforçaram respostas sócio – educativas e de acção social já existentes e tomaram novas iniciativas, investindo em áreas diferentes. Mesmo assim, continuam a ser poucas a que se dedicam, prioritariamente, ao desenvolvimento sócio- local, canalizando a sua intervenção para a transformação em profundidade das comunidades a que pertencem.
Apesar de tantos esforços (e foram muitos) para requalificar os bairros, mal designados de sociais, em ordem à melhoria da integração humana e comunitária dos seus habitantes, não se conseguiram atingir os objectivos desejáveis. A solução não passa por acções pontuais e desintegradas. Há que ter a coragem para encarar a adopção de medidas mais profundas.
As autarquias também avançaram na sua intervenção para a área social, criando equipamentos próprios ou em parceria com IPSS. Em quase todas (se não em todas) foi implementada a Rede Social e nalgumas criados os Bancos de Voluntariado.
Contudo, não se adiantou tanto como é necessário no trabalho em rede. Os representantes das instituições públicas e particulares passaram a encontrar-se mais, mas nem sempre isso quer dizer verdadeira parceria nem resulta nas adequadas e indispensáveis articulações. Por outro lado, tem faltado um correcto planeamento social, levando à implementação de respostas ou serviços onde já existem outros similares, deixando a descoberto outras necessidades. Para que se evite este erro estratégico há que não cair na tentação de avançar com projectos só por existir financiamento disponível ou por interesses de protagonismo político ou social. São as reais necessidades da população as únicas justificações para a intervenção social.
A década termina, infelizmente, com uma “espada muito afiada” sobre a região. Em 2008, o mundo é atingido por uma crise financeira que depressa se torna também económica. Pela sua vulnerabilidade, Portugal está a ser fortemente atingido. Basta verificar as taxas de desemprego nunca vistas nos últimos cem anos. Faltando trabalho, como já referi, os seus impactos na nossa região começam logo a reflectir-se. As paróquias e as IPSS são os termómetros mais eficazes, pois, desde há três anos, não param de aparecer novas pessoas em situação de carência económica. Ultimamente, algumas instituições estão a ver comprometida a sua viabilidade, porque muitas famílias deixaram de pagar as mensalidades. Mas a situação ainda não é comparável à que atingiu a região na década de oitenta do século passado. Realço: “ainda não é”. Basta encerrar uma das empresas e não tenho dúvidas de que correremos o risco de revivermos os mesmos problemas desse tempo. Por isso, que a Auto Europa dure mais 20 anos, bem como todas as outras. Quem lá chegar que formule os mesmos votos.
Foram muitas as expectativas na implementação de um desenvolvimento mais sustentável. Como em tudo, umas foram concretizadas outras não. A década terminou com maus augúrios. Que não nos aflijam mais, porque já tivemos, em tempos idos, a nossa parte, e queremos ter forças anímicas para fazer da nossa região, uma das melhores do país. Condições não nos faltam.
Eugénio Fonseca














