A explicação dos pássarosPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Não se trata de uma citação, nem de um plágio. Apenas a recordação de um título de um escritor famoso, que me pareceu ajustada para o tema deste desabafo.
Ainda sou daquela geração em que o Livro de Leitura transcrevia um pequeno poema que nos ficou gravado:
“Os passarinhos,
Tão engraçados,
Fazem os ninhos
Com mil cuidados…”
Talvez daí viesse o meu amor pela Natureza em geral, e pelas aves em particular.
E eis senão quando a Televisão nos mostrou o último adeus das andorinhas ao defunto Grande Líder Hereditário da Coreia do Norte, ponte entre o Grande Líder Fundador e o Grande Líder Herdeiro, contrariando migrações, mudanças climáticas e instintos ancestrais.
Sinal dos céus, em sentido directo e figurado. Pois as aves no céu vivem, e dos céus vêm os sinais prodigiosos.
Decerto haverá quem veja nestas palavras uma crítica velada a um regime que consegue (?) combinar a ditadura do proletariado com a hereditariedade de um cargo político (e logo o máximo!).
Ou quem nelas veja a insinuação do obscurantismo de um povo em busca de sinais celestes para justificar uma continuidade incapaz de resistir a uma análise minimamente estruturada.
Nada disso.
Apenas a recordação de outro facto, tão cândido como o poema acima reproduzido, e que foi profusamente difundido à época.
Aquando da inauguração da Ponte sobre o Tejo, uma pombinha branca pousou junto do Venerando Chefe de Estado (assim se dizia à época), o Almirante Américo Thomaz, ficando essa imagem gravada para a posteridade. Alva, imaculada, rabo de leque, com sugestões trinitárias, ali ficou, como que apadrinhando a cerimónia.
Que paralelismo podemos tirar destas duas aparições ornitológicas? Pois bem, parece que há um fio condutor entre elas.
Em qualquer dos casos, parecem legitimar uma longa ditadura.
E, acima de tudo, na falta de argumento mais sólido, qualquer ditadura pode basear-se… na explicação dos pássaros.
Nuno Santa Clara














