O MURO DO PILIMPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Sou do tempo do Muro de Berlim. Sou até do tempo em que muita gente do lado de cá dizia que o Muro tinha razão de ser; invocavam até razões etnográficas, geográficas, históricas. Quem não o entendeu assim foi o povo alemão, com os resultados que se viram.
Ora, uma das verdadeiras razões do Muro foi a drenagem de cérebros que a fronteira aberta permitia. Há decerto consenso sobre a qualidade do ensino da antiga República Democrática Alemã; aliás, o empenhamento nessa área não era diferente do que se registava no trabalho ou no desporto, com os resultados que todos se lembram. Só que os ordenados e as condições de vida não tinham comparação e daí o salto para o El Dorado da República Federal Alemã.
Era uma emigração não desejada, ou melhor, combatida, e combatida até ao extremo da construção do Muro.
Mudando de coordenadas, o nosso País sempre esteve marcado pela emigração. Desde o início da expansão, o fluxo dos que partem não mais cessou. Guerreiros ambiciosos, sacerdotes inspirados, filhos segundos em cata de fortuna, devotos em busca de tolerância religiosa, pobres querendo ser ricos, servos em busca de liberdade, marginais compelidos: todos os motivos foram bons. E, como disse o poeta,
“Ao cheiro desta canela,
O Reino se despovoa”.
Será atávico, será do ADN? Ou apenas de uma maldição? Mesmo no final do século passado e início deste, quando Portugal passou a ser um país de imigração, a emigração continuou. Mas agora com outro cunho: em vez de aventureiros, deserdados da sorte e foragidos, passamos a ter como emigrantes gente qualificada, que queria progredir na carreira, e queria obter o reconhecimento e as oportunidades que na Pátria lhes negavam.
Parece que este movimento tem tendência para se acentuar, e há mostras de que está a ser encarado com bonomia (para não usar outro termo) pelos poderes constituídos. O futebol dá o exemplo: os melhores jogam lá fora. Mas o pior é que não rendem tanto quando jogam na selecção nacional.
Ora, esta bonomia já deu origem a sugestões de ordenamento, como a criação de uma Agência para o efeito. Nenhuma inovação: já no Estado Novo se disciplinava a emigração, por cotas, por cartas de chamada, até por acordos internacionais. Bastará rever a legislação da época e adaptar às actuais circunstâncias.
Mas, e se, à margem da futura Agência, acontecer emigração indesejada? Como nos anos sessenta, com a emigração clandestina?
Então, haverá que recorrer a métodos semelhantes aos da RDA; não com o Muro de Berlim, mas com medidas de repressão fiscais, sociais, educacionais.
Será o Muro do Pilim.
Nuno Santa Clara














