INDIGNAÇÃO TOTAL – Urgências do Hospital do BarreiroPor Paula da Costa
Barreiro
Devia haver um sistema que não permitisse que uma pessoa de idade ficasse 12 horas à espera de um diagnóstico?

Por Jornal Rostos
Onze horas da manhã de sexta-feira entrada nas urgências no hospital do Barreiro. Saída do hospital 22,45. Quase 12 horas esperando por um diagnóstico e medicação.
O meu pai já lá tinha estado há oito dias com o mesmo problema.
É isto o Serviço Nacional de Saúde.
O meu pai com quase 80 anos, com 2 próteses nas ancas e de bengala, entrou na Triagem e deram-lhe uma fita verde, que significa pouca urgência.
Teve que ir sozinho porque eu tinha que ficar com a minha mãe que tem Alzheimer. Por volta das 19 horas consegui ir ter com ele ao hospital. Da triagem até ser visto por um médico passaram 5 horas. Andou de médico para médico sem conseguirem um diagnóstico. Finalmente vi a médica de cirurgia e às 20 horas, foi visto por essa médica que estava cheia de trabalho. Dezenas e dezenas de pacientes à espera da consulta de cirurgia. A cirurgia tinha 3 médicos e um deles esteve 4 horas na sala de operações. Ficaram apenas 2 a atender os pacientes das urgências.
Depois da avaliação da cirurgia, voltámos para a sala de espera para o meu pai ser visto por mais um médico.
Mais 2 horas passaram. A paciência do meu pai contrastava com a minha impaciência. Eu parecia um leão enjaulado.
Dirigi-me ao guichet e perguntei o que se passava com um doente que ali estava desde as 11 da manhã. Foram ao computador e disseram-me para ir à Sala 1, e fui. Estava lá um médico sem doentes Entrei, expliquei o problema e imediatamente atendeu o meu pai. Diagnosticou-o, medicou-o e finalmente saímos do hospital do Barreiro. Eram 22,45, noite dentro e o meu pai sem almoçar e jantar.
O que eu fui vendo:
A sala de espera da triagem tem apenas 6 cadeiras. A outra pequena sala de espera, com 16 cadeiras, é para os acompanhantes dos doentes. Pessoas idosas ia chegando à triagem e ficando de pé…. Aguardando a chamada.
A cirurgia não tem uma sala de espera para os doentes. Tem uma sala que só recebe macas e não tem uma única cadeira. Quando os doentes entram de maca para esta sala não podem estar com os seus acompanhantes, que por lei é obrigatório. Falei com algumas pessoas que estavam desesperadas, e tinham o papel de acompanhantes que queriam estar com os seus familiares e era-lhes negado esse acompanhamento. Verifiquei que muitas daquelas pessoas que estavam nas macas da sala de espera da cirurgia eram velhotes, e estavam ali há horas e horas, sozinhos.
Absolutamente inadmissível!
Quando fui ao Gabinete 1 da medicina geral verifiquei que todas as cadeiras da sala de espera estavam ocupadas e havia doentes de pé por todo o lado. Um homem jovem estava no chão encostado à parede a torcer-se e a gemer. Perguntei a uma técnica de saúde o que se passava com aquele jovem. Resposta dela: Está cheio de dores” Ainda protestei: “Dêem-lhe uma maca!” – nada feito!
Em todo o tempo que lá estive nunca vi nenhum funcionário do hospital a ter uma conversa com algum doente. Nunca vi nenhuma atitude de complacência, compreensão ou de carinho.
Sei que o Hospital do Barreiro tem um grupo de voluntários. Onde e que eles estão? Que tipo de apoio dão aos doentes das urgências?
Devia haver um sistema que não permitisse que uma pessoa de idade ficasse 12 horas à espera de um diagnóstico?
Porque razão não há cadeiras suficientes para os doentes?
Porque razão não há um pouco de chá e bolachas para os doentes que por ali andam horas e horas?
As queixas na sala de espera são mais que muitas. É só lá ir, sentar-se e ouvir e fazer uma reportagem.
Não podemos permitir que neste país a culpa morra solteira. Há responsáveis por este caos e por esta insensibilidade para com os doentes.
Termino parafraseando o poeta António Aleixo:
Vós que lá do Vosso Império
prometeis um mundo novo,
calai-vos que pode o povo
querer um mundo novo a sério
Paula da Costa – Cidade Sol, Barreiro














