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Quotidianos

Crónica de um corte anunciadoPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Mas a China e o Brasil continuam crescendo, bem como outros países parece ser difícil fazer vingar a histeria colectiva; são países que se preocupam com a produção, e não com a especulação.

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Crónica de um corte anunciado Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Há já alguns dias, a Standard & Poor´s anunciou mais um corte no rating de países europeus. Novo corte que era de esperar, porque a manobra tem sido diversas vezes repetida, e sempre com êxito. Mas, desta vez, algo de diferente se passou.
Primeiro, quase ninguém deu conta disso. Longe vão os dias em que tal coisa fazia as primeiras páginas nos jornais, e horas de telejornais. Lembra a história do pastorinho que gritava aos lobos, até que deixaram de lhe dar atenção. Mas será que vêm mesmo aí os lobos?
Já há cerca de um ano, em dois artigos meus intitulados “A galinha dos ovos de ouro”, era referida a manobra das variações de rating (sempre para baixo!) e a inevitabilidade da desvalorização dessa manobra, quando os agentes políticos económicos (económicos, e não financeiros) se capacitassem de que os riscos não eram riscos, que havia quem ficasse de fora dessa espiral, e que a verdadeira face da crise acabaria por vir à superfície. Dito de outra forma, o abuso da manobra representaria matar a galinha dos ovos de ouro.
Segundo, porque desta vez a S&P visou a França, pela primeira vez. Dentro da manobra napoleónica, seria um erro crasso atacar em simultâneo a França a Alemanha, o que traria um cerrar de fileiras e uma frente comum contra a especulação. Há tanta razão para atacar uma como outra (o passivo da Alemanha com a reunificação continua elevado), mas provocar uma cisão entre os parceiros do tandem seria golpe de génio.
E mais: os estrategas do rating sabem bem que a “técnica do salame” é muito eficaz. Já funcionou na perfeição com os países periféricos (os PIGS), e estaria na altura de ir um pouco mais dentro do miolo da Comunidade. Mas parece que a manobra não está a dar resultado: o efeito, aparentemente, não foi nenhum, e o desinteresse dos media são prova disso.
Mas a China e o Brasil continuam crescendo, bem como outros países parece ser difícil fazer vingar a histeria colectiva; são países que se preocupam com a produção, e não com a especulação. E, tal como se estudam as medicinas caseiras de países do Terceiro Mundo, seria de estudar as mezinhas desses países quanto aos remédios para a crise.
Em terceiro lugar, são cada vez a mais as vozes que insistem na taxação das operações financeiras. Não só porque é imoral que sobre um bem essencial se pague cerca de um quarto do seu valor em IVA, contra zero sobre transacções financeiras de valores fabulosos e moralidade duvidosa. Mas os agentes dessas transacções sabem bem que taxar é identificar, localizar, explicar, e daí a resistência em aceitar uma taxa que seria, diz-se, 0,01% do valor; comparado com 23% sobre um alimento…
Parece que, no seio da Comunidade Europeia, o grande obstáculo a esta medida é a Inglaterra. É natural: depois de ter tentado contrariar a constituição da Comunidade, depois de ter sido obrigada a entrar nessa mesma Comunidade, tem tido um papel constante de travar o seu funcionamento. Isto é tão verdade quanto à tributação das operações financeiras como quanto à Segunda Guerra do Iraque: o Governo de Sua Majestade tem alinhado com os interesses americanos. Ironia da História: o movimento Tea Party tem as suas raízes na rejeição do colonialismo inglês; agora… businesss is business.
Por isso, seria interessante pôr a seguinte questão: a ter que sair alguém, quem, afinal, deve sair da Comunidade Europeia?

Nuno Santa Clara

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