Operação “Félix” – II fasePor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
No fim do Verão de 1941, a Alemanha de Hitler tinha, aparentemente, a vitória na mão. Apenas a Inglaterra resistia, atrás do Canal da Mancha, assediada por ataques aéreos, naquilo que ficou conhecido por Batalha de Inglaterra.
Apesar das promessas de Göering, essa batalha foi inconclusiva. Hitler virou-se então para outros teatros de operações, entre os quais estava a Península Ibérica, com o objetivo principal de tomar Gibraltar, o ferrolho do Mediterrâneo.
Segundo documentos da época, a diretiva n.º 18 ficou assente em Novembro desse ano, dando origem ao planeamento da operação “Félix”. Nela se previa o emprego de três divisões, uma blindada sobre Sevilha, outra blindada sobre Badajoz e uma motorizada sobre Valladolid; tudo com a (esperada) cooperação da Espanha de Franco. Outras fontes mencionam até oito divisões. Paralelamente, seriam reforçadas as Canárias e ocupado Cabo Verde. A transposição dos Pirinéus devia ser feita até 10 de Janeiro de 1941, esperando-se uma campanha de curta duração.
As coisas não correram assim. Franco recusou-se a entrar na Guerra; acabava de sair de uma, e a Espanha estava devastada, tinha um deficit de um milhão de toneladas de cereais para alimentar o seu povo, não tinha combustíveis, nem material de guerra moderno. A marinha alemã não estava em condições de garantir a conquista e manutenção de Cabo Verde. E, sobretudo, em 18 de Dezembro, é difundida a directiva n.º 21: o ataque à Rússia, através da célebre operação “Barbarossa”, que passou a ser a obsessão de Hitler até ao seu fim. A operação Félix ficou adiada para “depois da derrota da Rússia”.
De qualquer forma, não haver referências a Portugal neste plano pode levar ao engano. Se a Espanha era um aliado, e o objectivo Gibraltar, para quê as divisões dirigidas a Badajoz e Valladolid? A resposta lógica é: a de Badajoz estava orientada para a linha de invasão do Alentejo, e a de Valladolid para a linha de invasão da Beira Alta e para a Corunha – teatros de operações bem conhecidos dos ingleses. Esta interpretação parece confirmada por outras fontes, que referem uma operação “Isabella”, que seria desencadeada caso os ingleses desembarcassem em Portugal, na sequência do ataque a Gibraltar.
Em resumo, a atitude de Franco, a Operação Barbarossa e as dificuldades da marinha alemã pouparam-nos a uma invasão sem oposição viável.
Mas talvez, nalguns subconscientes, a ideia tenha ficado. Como no Japão: a Esfera de Co-Prosperidade Asiática foi perdida na guerra, mas recuperada – e com juros! – no pós guerra. E há constantes na vida das nações, resilientes e independentes do governo ou regime político do momento.
Durante a Guerra Colonial, Portugal esteve sujeito a um embargo de aquisição de armamento. Furaram esse embargo a França e a Alemanha. Porquê esta última? Não tinha interesses em África, mas precisava de profundidade para responder a uma eventual agressão vinda de Leste. Foi o suficiente para ultrapassar os pruridos que uma guerra daquele tipo levantava.
Só que qualquer ajuda não é gratuita – pressupõe um retorno, e não apenas financeiro. E que melhor que uma relação de dependência?
Por isso, quando ouvi falar no declínio de Portugal, considerando quem o dizia, houve uma campainha de alarme que soou. Povos atrasados, países em declínio, necessidade de um salvador, por um lado. Oposição a qualquer solução que não passe por esse salvador, por outro. Procurar alargar e diversificar as fontes de financiamento parece não agradar aos tais subconscientes.
Claro que não nos chamou untermenshen (sub-humanos), porque isso passou de moda; nem a Europa, oriental ou ocidental, foi alguma vez referida como um lebensraum (espaço vital).
Mas a tentação do dirigismo, herdeiro do objectivo estratégico, anda por aí, como uma II fase da Operação Félix, agora recorrendo às finanças, trocando Berlim por Frankfurt, o Alto Comando pela Bolsa. Não se trata de enviar as panzer divisionen, mas de garantir a nossa dependência, mãe da subserviência, para manter Portugal sob controlo férreo.
A nossa independência foi sendo garantida por um conjunto de alianças, umas vezes fruto da conjuntura, outras vezes segundo um padrão permanente, como a aliança inglesa. Não que os aliados tivessem algum sentimento generoso a nosso respeito; apenas porque, em dado momento histórico, os nossos interesses e os deles coincidiram.
Temos de buscar parceiros no exterior, com fizemos com Aragão contra Castela, ou com a Inglaterra contra a França e Espanha. Fala-se da China e de Angola, ou mesmo o Brasil, entre outros candidatos. Pois bem, vamos por aí, se for necessário, e com o mesmo pragmatismo com que os nossos actuais críticos negociaram com esses mesmos países.
Que diabo! Oito séculos de independência, a fronteira mais antiga da Europa, a unidade cultural deste País, são razões que justificam que se procure dispensar intermediários.
Porque, como diz o Povo, quem parte e reparte…
Nuno Santa Clara














