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Quotidianos

Os 14% de Desemprego em Dezembro de 2011Por José Bastos
Montijo

Nos últimos 15 anos, o emprego que foi desaparecendo na indústria, na agricultura e na pecuária, foi sendo substituído por outro na construção de habitações, edifícios comerciais e obras públicas nacionais e municipais.
Com a crise que já era expectável há anos na construção de habitações e obras públicas, perderam-se no país muitas centenas de milhar de empregos e o Montijo não fugiu à regra.

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Os 14% de Desemprego em Dezembro de 2011 Por José Bastos Montijo

Por Jornal Rostos

Parece que o Governo e os comentadores de serviço ficaram muito admirados pelo facto do desemprego ter atingido em Dezembro a taxa de 14%.
Para quem anda no terreno, perto das pessoas e das empresas, não é novidade . Não há nenhuma oferta de emprego, nem mesmo muito precário. Quem perde um emprego dificilmente encontra outro. E os jovens à procura do primeiro emprego não têm hipótese nenhuma.
O nosso Primeiro Ministro diz agora que o desemprego vai ter uma tendência de descida no segundo semestre do ano. Devemos acreditar no que diz o PM? Quando toda a gente pensa o contrário.
Não sei o que o leva a dizer uma coisa destas quando é previsível que no final do ano o desemprego esteja em 15% ou 16%. Todos gostávamos que descesse mas as políticas de austeridade do Governo conduzem a uma subida.
O Montijo, um concelho com pouco mais de 50.000 habitantes , que conheço muito bem, já teve uma grande pujança económica nos sectores primário, secundário e terciário.
A agricultura, a floresta e a pecuária têm hoje muito menos emprego. Acabaram as fábricas de cortiça e existem três ou quatro fábricas de transformação de carnes. Fechou este ano a última cerâmica de barro vermelho-
As pequenas e médias empresas comerciais estão quase todas a fechar. Muitos pequenos empresários terminam a sua actividade sem emprego e cheios de dívidas. O financiamento bancário de que tanto se fala para salvar as pequenas empresas em dificuldades, não resolve os problemas deles nem os nossos.
O que aparece de novo pela cidade são lojas dos chineses e outras de compra de ouro usado e nas últimas semanas uma loja de sexo smart shop e um motel.
Nos últimos 15 anos, o emprego que foi desaparecendo na indústria, na agricultura e na pecuária, foi sendo substituído por outro na construção de habitações, edifícios comerciais e obras públicas nacionais e municipais.
Com a crise que já era expectável há anos na construção de habitações e obras públicas, perderam-se no país muitas centenas de milhar de empregos e o Montijo não fugiu à regra.
É um emprego que não volta, pois já existem casas que chegam para todos e não temos capital público para financiar mais obras. O Governo desistiu de construir o aeroporto em Canha e as obras de uma grande transformação da Escola Secundária Jorge Peixinho estão paradas por falta de verba. Há imensos prédios devolutos, novos, para venda e prédios inacabados, por falência dos empresários.
A paragem na construção civil está a causar uma autêntica catástrofe no desaparecimento de empregos. Não são só os operários das obras, são também os pequenos empresários (empreiteiros) que executavam carpintarias, serralharias de ferro e alumínio, electricidade, canalizações, gás e telefones, pintores, carpinteiros de toscos ,armadores de ferro, técnicos de ar condicionado, ladrilhadores, exploração de areias e de pedreiras, camionagem, aluguer de máquinas e outros. Toda esta gente que fazia parte da classe média, está hoje na ruina e com muitas dívidas. Há dias visitei um Amigo que tem uma carpintaria, com cerca de trinta trabalhadores, que executavam roupeiros para os prédios. Não tinham uma única encomenda nem esperança de as conseguir. Um outro Amigo, pequeno empresário da construção civil (empreiteiro), pessoa muito honesta e trabalhadora, suicidou-se por não ter possibilidade de pagar aos fornecedores,
E ainda as fábricas de cerâmica de barro vermelho que produzem tijolos, telhas e tijoleiras, cimenteiras, betão pronto, vigas de betão armado, fábricas de azulejo, mosaicos e loiças sanitárias e o comércio de materiais de construção.
E também arquitectos, engenheiros, desenhadores, topógrafos, promotores imobiliários, advogados, solicitadores, vendedores e outras profissões liberais.
A actividade económica da construção civil e obras públicas está numa grande decadência e vai atirar com milhares de pessoas para a ruina. Ninguém mostra coragem para enfrentar este problema. Não interessa o que escreve a comunicação social é necessário andar no terreno para se perceber a gravidade da situação.
Estou absolutamente convencido que uma grande parte dos 120.000 emigrantes de 2011, foi deste sector, em busca da sobrevivência, para não passarem fome.
Só um “golpe de asa” político nos pode ajudar a resolver este grave problema. Não se trata um ciclo económico tradicional. É uma actividade económica muita importante que quase desapareceu e que não volta tão cedo.
Já há muitos anos que esta situação me preocupa, pois em 1999 escrevia o seguinte:
“As baixas taxas de juro, deram origem a uma grande procura de habitações, em muitos casos ainda bonificadas, e as facilidades concedidas que conduziu ao crescimento dos preços em percentagem muito superiores à inflação o que originou, por sua vez , uma procura de terrenos para construção a preços de tal maneira especulativos que faz lembrar o que eu ouvia dizer em criança sobre a procura do volfrâmio no tempo da guerra.
A situação que se vive no mundo da construção é de grande euforia. Tudo quanto se constrói está vendido e com grande lucro. Será que esta situação poderá manter-se por muitos anos? Eu não acredito. A especulação e o mercado, seja qual for tem os seus limites. Uma crise num sector económico com a importância da construção civil, poderá trazer graves consequências sociais na área do emprego. Portanto, é necessário que o poder político preste atenção para o que se está a passar, de modo que as consequências não sejam tão gravosas. “É melhor prevenir do que remediar”. “

(Este texto saiu na imprensa local e regional em 1999 e está publicado em livro).

José Bastos

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