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Quotidianos

A desobediência civilPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Mas a contestação é uma arma, e pode revestir variadas formas; caberá a cada povo e a cada momento encontrar a sua forma de expressão. E nada pior do que tentar importar soluções: se permitem a comparação, é como cantar fado em inglês.

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A desobediência civil Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Para os que julgam que a desobediência civil foi inventada pelos hippies dos anos sessenta, na então turbulenta Califórnia, e como oposição à Guerra do Vietname, recomendo a leitura de um livro com esse mesmo nome, escrito em meados do século XIX (isso mesmo, há mais de século e meio!) por um escritor e pensador americano infelizmente pouco conhecido: Henry David Thoreau.
Esse ensaio, publicado em 1849, veio a inspirar personalidades como Mahatma Gandhi e Martin Luther King, tornou-se um clássico do politicamente incorreto.
Na base da filosofia de Thoreau não está o derrube dos governos, mas a sua melhoria, recorrendo, se necessário, à desobediência. Ele próprio foi preso por se recusar a pagar impostos, por não concordar com o destino que lhes era dado, e teria dito na altura qualquer coisa como “há ocasiões na vida em que o único local decente para um homem honesto é a prisão”.
Nada que os nossos resistentes à ditadura não conheçam, por experiência própria.
Claro que a resposta à desobediência civil dada por um regime democrático ou por um regime ditatorial não é a mesma; veja-se o que se tem passado com a “Primavera Árabe”, sobretudo na Síria.
Mas a contestação é uma arma, e pode revestir variadas formas; caberá a cada povo e a cada momento encontrar a sua forma de expressão. E nada pior do que tentar importar soluções: se permitem a comparação, é como cantar fado em inglês.
Outra das características da desobediência civil é a sua transversalidade e aceitação pela população em geral. Se alguma força política organizada tentar liderar um processo destes, está condenada ao fracasso, uma vez que os militantes e simpatizantes pró ou contra tenderão a agrupar-se em torno de interesses que nada têm a ver com a contestação original, e o movimento dissipa-se.
Por outro lado, o clima de contestação é contagiante, sobretudo para nós, latinos, criando uma espécie de fraternidade espontânea. Quem não se lembra da recusa de cobrança de bilhetes do pessoal da Carris, ainda durante a ditadura (greve da mala, como ficou conhecida)?
Pois esta semana assistiu-se a algo de semelhante, com a questão do Carnaval. A decisão de várias Câmaras em conceder tolerância de ponto, a adesão dos foliões (à falta de outro nome) em comparecer em massa nos diversos eventos, a persistência dos organizadores em terminar o que tinham começado há meses, tudo isto fez com que este Carnaval fosse um êxito em todo o lado.
Mas agora com uma diferença. É certo que o Entrudo sempre foi uma válvula de escape contra o quotidiano, uma ocasião para exprimir alguns agravos, uma boa altura para criticar mais ou menos abertamente os governantes. Só que agora teve aquele grãozinho de sal da contestação ter um objetivo mais concreto, o desafio à posição governamental da celebração tradicional do Carnaval.
Para quem se escandalize com isso, proponho um exercício simples: imaginemos que a senhora Merkl, em nome da poupança e dos dias de trabalho perdidos, decidisse acabar com a Oktoberfest, em Munique? Duvido que a contestação dos alemães fosse tão pacífica como a nossa…
Há quem diga que o teatro de revista nunca mais se recompôs, depois do desaparecimento da Censura. Faziam falta as alusões, insinuações, subentendidos e outros subterfúgios que desafiavam os espectadores e faziam rir ou sorrir pelo não dito.
Talvez a proibição do Carnaval o tenha salvo. Do cortejo algo esmorecido, pouco participado e repetitivo passou-se para a contestação, o desafio, a participação plena e alegre. Tudo com a cumplicidade dos órgãos de comunicação, que noutros casos seriam talvez mais cuidadosos.
E para resilientes sorumbáticos, um só conselho: é Carnaval… ninguém leva a mal!

Nuno Santa Clara

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