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Quotidianos

A arrogância do poderPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Mas a arrogância do poder tem outra face. Os executantes da missão “sagrada”, militares ou civis, não serão responsabilizados pelo que fizeram; tal como aos cruzados era prometido o Reino dos Céus, a essa gente é garantida a impunidade.

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A arrogância do poder Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Há muitas décadas, naquela fase da vida em que se procuram avidamente explicações e justificações para tudo o que se passa neste Mundo, li um livro que, de certo modo, parecia ser a contra corrente do que os Estados Unidos estavam fazendo.
O livro era “A Arrogância do Poder” e o seu autor o senador James William Fulbright. Coisa estranha: era um homem do Sul, anticomunista ferrenho, e não era propriamente um defensor dos direitos cívicos (posição que veio a alterar).
Alguns trechos desse livro:
- Através da nossa História (dos EUA, claro), duas tendências coexistiram dificilmente: uma tendência dominante de humanitarismo democrático e uma tendência menos dominante de puritanismo intolerante;
- O Poder tende a confundir-se ele mesmo com a virtude, e uma grande nação é particularmente suscetível à ideia de que o seu poder é um sinal do favor de Deus, conferindo-lhe uma especial responsabilidade sobre as outras nações;
- Uma vez imbuída da ideia de missão, uma grande nação facilmente assume que tem os meios e o dever de fazer o trabalho de Deus.
Convenhamos que um senador escrever isto, em 1966, em plena Guerra do Vietname, e quando vinha ainda longe o cansaço da guerra e o espectro do falhanço, foi um ato de coragem. Mas foi, sobretudo, um diagnóstico que se mantém atual, quase meio século depois.
O que se está a passar neste momento no Afeganistão encaixa bem nesta análise. E não só pela intervenção militar em si, como pelos últimos acontecimentos.
A “estória” da queima de exemplares do Alcorão é uma boa amostra de um surto de puritanismo intolerante, como referiu Fulbright; só comparável á monumental gaffe de George W. Bush, ao descrever a II Guerra do Iraque como “uma cruzada”.
Num caso e noutro, a raiz da asneira está na ignorância, a grande mãe da intolerância; talvez compreensível no caso do obscuro militar que redescobriu o auto da fé, dificilmente justificável no caso do antigo presidente (sem ironia, talvez compreensível para quem confessou que apenas lera um livro em toda a vida).
Mas a arrogância do poder tem outra face. Os executantes da missão “sagrada”, militares ou civis, não serão responsabilizados pelo que fizeram; tal como aos cruzados era prometido o Reino dos Céus, a essa gente é garantida a impunidade.
Significa isto que, se um militar descontrolado desencadear uma guerra, ou um funcionário falto de bom senso provocar um conflito, daí não virá grande mal ao Mundo; ao fim e ao cabo, estavam do lado bom da barricada.
Neste caso, a queima dos livros desencadeou protestos, tiros mortes, e sobretudo um retrocesso em todo o processo de Paz, que esperemos não ser irreversível. Para quem não se interessa pelas mortes causadas, desaparecerem em fumo milhões e milhões de dólares em programas variados, comprometidos pela perda de confiança.
Porquê esta atitude estúpida? Pelo assomo da “outra” tendência, a da intolerância, conjugada com a convicção de estar a “fazer o trabalho de Deus”. Ora, se o meu Deus é diferente do teu Deus, justifica-se o fogo purificador. Quer seja nas fogueiras da Santa Inquisição, nas queimas públicas de livros pelas SA de Adolf Hitler, ou nos confins do Afeganistão.

Nuno Santa Clara

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