As rotas do ÍndicoPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
A recente mini odisseia dos passageiros do navio de cruzeiro de luxo “Costa Allegra” (e também dos tripulantes, dos quais ninguém fala) tem sido tema de artigos e reportagens em abundância.
Presos num navio sem propulsão, parado no alto mar, ao sabor das vagas, sem energia elétrica, sem ar condicionado, sem elevadores, sem cozinhas, sem água corrente, enfim, sem nada, e condenados a fazer todos os esforços para se adaptar (seria exagerado dizer sobreviver) àquelas duras condições.
E ainda por cima em mares tropicais, com a ameaça latente dos piratas somalis, postos perante a alternativa de torrar ao sol ou abafar no interior do navio.
Cena de horror, dirão alguns; aviso ou castigo divino, dirão outros; é bem feito, dirão os invejosos, sem meios para sonhar com outro cruzeiro além da viagem Cacilhas - Lisboa.
Mas o interessante é que aqueles dias de pesadelo podem ter um efeito benéfico: é o de demonstrar, não só o quanto se avançou na tecnologia do bem-estar, mas também o quanto se pode perder em questão de minutos.
E também um regresso ao passado. Navegar em mares tórridos, sem qualquer espécie de comodidade, comendo sabe-se lá o quê, bebendo água suja e morna, tendo de escolher entre sufocar no porão e torrar no convés, desconfiando de qualquer vela que surgisse no horizonte, era a rotina dos que faziam a rota da Índia, há cinco séculos a esta parte.
Foi essa gente que realizou a primeira globalização; que demonstrou que o Mundo era só um; que havia outras gentes, outras falas, outros sabores, outras mercadorias.
É que hoje há uma certa relutância em falar, vá-se lá saber porquê, daquelas gentes, e das suas aventuras. Da gesta heroica passou-se ao ostracismo, como se o simples facto histórico não tivesse valor, face às posições ideológicas em moda.
Moda: em termos matemáticos, mais concretamente na estatística, moda é o valor que detém o maior número de observações, ou, por outras palavras, aquilo que aparece mais vezes. Não o mais certo, mas o que mais se repete.
E só.
Se esta moda pegou entre nós, o filósofo inglês Bertrand Russel defendia que a chegada dos portugueses à Índia, em 1498, devia ser considerada como o fim da Idade Média, pelo impacto global que teve, e não a queda de Constantinopla, em 1453, data clássica do fim da idade Média, facto que não teve consequências de maior, a não ser psicológicas.
Adiante. Aproveitemos, pois, esta oportunidade para refletir um pouco sobre o nosso passado, e sobre o nosso presente. Para separar o trigo do joio, e para meditar sobre o que é essencial e o que é acessório. Não só na ausente Economia, e nas omnipresentes Finanças.
Ao contrário da tradição, no “Costa Allegra” não foi necessário deitar sortes para saber quem seria comido.
Aqui deitam-se sortes para saber quem vai ser despedido. E, tal como nos navios de antanho, cada um pensa que a sorte irá cair no vizinho do lado.
Nuno Santa Clara














