Doentes ficam 24 horas no corredor do Hospital do Barreiro sem tratamento adequadoPor Paula da Costa
Não têm camas? Requisitem-nas!!!!! Eu podia levar uma cama de casa.
Não têm espaço? Adaptem em situação de urgências outros espaços dentro do hospital?

Por Jornal Rostos
Dito isto, passo aos factos.
Mais uma vez a minha experiência pessoal sobre o Hospital do Barreiro e a sua má gestão.
Pela terceira vez fui às urgências com o meu pai com os mesmos sintomas das duas últimas idas. Chegámos lá no dia 5 de Março pela manhã cedo. O Hospital estava a abarrotar de doentes por todo o lado. Desta vez, contrariamente às outras vezes, o meu pai foi visto e diagnosticado em 6 horas: consultas e exames. A médica decidiu internar o meu pai dada a gravidade da situação. A médica informou-nos que não havia vagas nas enfermarias e que por essa razão o meu pai ficaria em SO (Serviço de Observação) temporariamente. E assim foi. Puseram o meu pai numa maca, porque não havia camas e ficou no chamado Balcão porque também não havia vagas no SO.
O Hospital estava “pelas costuras”. Parecia um hospital de campanha em situação de guerra. Camas e macas por todo o lado, dezenas e dezenas de pessoas à espera de consulta ou de exames…
Apesar do meu pai não estar, de facto, em SO retiraram-lhe tudo o que é pessoal. Vestiram-lhe uma bata, que lhe ficava pequena, o meu pai é um homem muito alto e puseram-lhe um cobertor que na minha opinião parecia que tinha vindo do exército do tempo da 1ª Guerra Mundial, e colocaram-no num canto do chamado Balcão, para mim seria um corredor que mais parecia um armazém de doentes.
Em todo este cenário vi duas senhoras voluntárias que estavam a abrir e a fechar uma porta. Nunca as vi a ajudar ou a apoiar nenhum doente. Foram pressionadas por mim a ajudar uma senhora que estava em cadeira de rodas com oxigénio para ir à casa e banho.
Acompanhava o meu pai dentro das minhas poucas possibilidades. Ia vê-lo e dava-lhe coragem para poder suportar as condições em que ele estava: desconfortável, ambiente barulhento, sem condições e dignidade. Falava com os enfermeiros e era sempre a mesma resposta: não há camas, não há vagas.
Voltei 24 horas depois e encontrei o meu pai na mesma situação e com a agravante de não estar a ser medicado para o seu problema. Questionei as enfermeiras que me disseram que enquanto estivesse no Balcão não receberia tratamento para o seu problema.
Fiquei perplexa com a situação: então o meu pai que tinha recebido ordens de internamento urgente estava há 24 horas sem tratamento, a dormir numa maca que mal dava para o seu tamanho e com o corpo cheio de dores?
A impotência e a raiva começaram a crescer dentro de mim. Andei pela urgência a procurar alguma pessoa responsável que me pudesse responder a estas perguntas. Finalmente cheguei ao médico responsável pelo chamado Balcão.
Era um médico espanhol de nome Anton (penso eu) e eu já de lágrimas nos olhos protestei e mostrei a minha indignação pela situação do meu pai há 24 horas. Não só do meu pai mas também pelas dezenas de pessoas, a maior parte velhotes, que estavam desesperadamente à espera de seguir para o SO para receber tratamento. Mais uma vez a mesma resposta: Não há vagas e não camas. Disse e mais uma vez reafirmei que hospital era este que não tinha um plano B para situações de fluxo de doentes? Que Serviço Nacional de Saúde era este? Que incompetência da gestão era esta que estava a tornar tão ténue a linha entre a vida e a morte? O médico ouviu-me atentamente e confrangido prometeu-me que iria tentar solucionar o problema.
Saí do gabinete e fiz uma reclamação no Livro de Reclamações.
Falei com o meu pai e voltei para casa, dizendo que iria voltar ao Hospital às 10 da noite para saber informações.
Durante aquelas longas horas, dado que tinha que ir tratar da minha mãe, que também está doente, a minha raiva e incompreensão estava num crescente dentro da minha alma.
Perto das 10 da noite estava decidida em fazer fosse o que fosse: ou o meu pai iria para o SO ou eu iria para a prisão. Dali não sairia…
Por sorte e pelas boas estrelas o meu pai já tinha ido para o SO por volta das 4 da tarde e estava a receber tratamento.
A minha indignação é total.
O que são estas Urgências do Hospital do Barreiro? São urgências ou um armazém de morte?
Não têm plano B? Então que capacidade tem este hospital para uma situação de catástrofe?
Não têm camas? Requisitem-nas!!!!! Eu podia levar uma cama de casa.
Não têm espaço? Adaptem em situação de urgências outros espaços dentro do hospital?
Não têm dinheiro para medicamentos ou material médico, suspendam os salários dos administradores e vendam os sofás de couro dos seus gabinetes!
Só tratarão mal e com indignidade os meus “mais velhos” por cima do meu cadáver. Como dizia o poeta “cantarei até que a voz me doa”, neste caso “gritarei até que a voz me doa”
Todos nós descontámos uma vida inteira para o SNS. O que fizeram ao nosso dinheiro?
Estamos fartos de tanta incompetência, de tanta sem-vergonha, de tanta desumanidade de tanta insensibilidade.
Até quando???????
Paula da Costa














