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Quotidianos

Razão de vidaPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Não parece haver resposta concreta, cientificamente fundamentada. O que se diz nas farmácias é que há (ou antes, havia) doentes crónicos que deixaram de ir buscar remédios, por carência de meios. Ou por ter acabado ou diminuído a comparticipação. Também porque a Centro de saúde fica mais longe, ou fechou.

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Razão de vida Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

As estatísticas valem o que valem, e a crueza dos números tanto dá para nos esclarecer sobre a dimensão objetiva de uma ocorrência, como para mascarar tragédias, diluindo-as num contexto global, como forma de as esvaziar de sentido.
O exemplo máximo da desmistificação dessa técnica foi feito por um escritor alemão, Erich Maria Remarque, no seu livro de referência, “A Oeste nada de novo”, em que no último capítulo o “herói” morre em combate, num dia calmo da Frente, a ponto de o comunicado do Estado-Maior dizer apenas… a Oeste nada de novo. Em termos da estatística da Frente talvez, mas não para a mãe daquele soldado: foi o dia da pior tragédia do Mundo, ainda que tivesse sido o único morto desse dia.
Claro que este livro foi devidamente queimado na praça pública pelas Sturm Abteilung, ou SA, as sinistras milícias de camisa castanha do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores da Alemanha, abreviadamente o partido nazi. Escrevo o nome completo para que não se esqueça que em nome dos trabalhadores e do socialismo (era o nome do partido nazi!) se fizeram coisas destas – e foram as mais inocentes.
Voltando às estatísticas, nos últimos dias assistiu-se em Portugal a uma assustadora espiral de crescimento de óbitos, sobretudo entre a população mais idosa. A título de exemplo, enquanto a média diária de enterros nos nossos cemitérios é de 1,6 por dia, chegou-se no Barreiro aos seis num só dia!
Dado que a maior parte das vítimas são idosos, não faltará quem diga que a quelque chose malheur est bon, ou, numa tradução livre, há males que vêm por bem. Menos pensões a pagar, menos doentes crónicos, menos internamentos, menos medicamentos comparticipados (os que são): para o equilíbrio financeiro, são boas notícias. Menos, é claro, para os esposos, filhos e netos, que o sentem na carne.
Mas afinal, porque morre tanta gente, a ponto de complicar a tal estatística? Isto tem um lado mau, pois o aumento de mortalidade é indício de perda de qualidade de vida, logo de um retrocesso no desenvolvimento do País. E lá se vai a nossa imagem externa, tão cuidadosamente trabalhada.
Não parece haver resposta concreta, cientificamente fundamentada. O que se diz nas farmácias é que há (ou antes, havia) doentes crónicos que deixaram de ir buscar remédios, por carência de meios. Ou por ter acabado ou diminuído a comparticipação. Também porque a Centro de saúde fica mais longe, ou fechou.
Mas também porque a sobrevivência pressupõe uma vontade de viver. Dirão que o instinto nos impele para a vida, mas também não é menos verdade que os animais se escondem e encolhem para morrer.
Há outras razões. No jornal ELO (publicação mensal da Associação de Deficientes das Forças Armadas - ADFA) deste mês de Março foi publicado o habitual obituário: nove associados falecidos, sendo um de 71 anos, um de 69, dois de 68, três de 66, e dois de 62. Isto para ilustrar aquela conclusão de um estudo americano em que se afirmava que os veteranos de guerra tinham um esperança de vida dez anos inferior à dos restantes cidadãos.
O ano de 2012 foi declarado o “Ano Europeu do Envelhecimento Ativo e da Solidariedade Entre Gerações”. Pelo atrás dito, é difícil conciliar este espírito com as medidas concretas que se vão tomando, nomeadamente em matéria de saúde. E só com alguma dose de imaginação, para não dizer outra coisa, se pode considerar o aumento da idade para passar à reforma como uma medida concreta para atingir o envelhecimento ativo.
Dir-se-á que “cá se fazem e cá se pagam”, e que os atuais reformadores irão também um dia para a reforma, para colher o que semearam. Não creio: terão tempo para preparar os meios que lhes evitem essas contingências.
Mas não os que os apoiaram e neles votaram. Esses terão, como os nossos atuais idosos em extinção, de procurar uma razão de vida.
E não será fácil.

Nuno Santa Clara

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