OS TRABALHOS DE SÍSIFOPor José Manuel de Oliveira Soares
Barreiro

Por Jornal Rostos
Há dias atrás escrevi aqui mais ou menos o seguinte “a situação económico/financeira do País (a que até o nome mudaram) é demasiado má para se dever só a incompetência – quando os avisos vinham de todos os lados e das mais variadas pessoas -, para mim foi premeditado. Não me perguntem por quem, pois não sei. Haverá quem não concorde comigo, outros concordrão e outros nim!
Vou dar um exemplo que me leva a essa convicção. Há 7 ou 8 anos, não sei agora precisar, uma empresa de transportes marítimos dos Açores – de quem o Governo Regional dos Açores (GRA) é accionista (maioritário ou não, não sei) encomendou aos Estaleiros Navais de Viana do Castelo(ENVC) dois “ ferries” adaptados ao mar dos Açores e aos seus portos. Os navios foram concebidos, projectados e construídos com essas características.
Em 2009. O primeiro dos 2 navios, a que deram o nome de “Atlântida” – premonição (?), foi para provas de mar e foi chumbado. Razão? A velocidade contratada não foi atingida. O navio navegava a menos 1,5 nós/hora para uns, a menos 0,5 nós/hora para outros. Isto provocava um atraso de cerca de 10 minutos entre as duas ilhas mais distantes.
Segundo a imprensa, um dos administradores da Empordef (“dona” dos ENVC) afirmou que ao GRA assistia a razão para a recusa de aceitar o navio. Desde então o navio, por estrear, apodrece num cais dos Estaleiros do Alfeite. O 2º navio, construido em anéis (partes), jáz em armazém nos ENVC.
Há quem diga que o GRA rejeitou o navio por não ter dinheiro. Esperava apoio da UE que não veio.
Certo é que os ENVC construiram. Têm sido suportados pelos nossos impostos. Estão tecnicamente falidos. Os açoreanos continuam a navegar, entre ilhas, em barcos alugados ao estrangeiro (defice comercial e saída de divisas) sabe-se lá a que preço.
Se isto não é sabotagem económica ao País, não sei o que é sabotagem económica! O GRA terá dado o tiro, o governo anterior admitiu ou não se apercebeu (acção) e o actual não fez nada ou desconhece o caso (omissão) até agora.
SÍSIFO foi um rei caído em desgraça, a quem, segundo a lenda, os deuses castigaram com um trabalho que nunca daria por terminado (empurrar um rochedo por uma montanha acima, que tornava a rolar para baixo). Teria de o executar até à eternidade.
Vem esta lenda a propósito do esforço que tem sido exigido aos portugueses, desde há demasiados anos.
1977 – 1.ª intervenção do FMI com que um governo socialista nos brindou – com ajuda de sindicatos e da tal dita esquerda bem pensante.Depois, lá vem um um governo de coligação (PS/CDS) exigir esforço aos mesmos.
1983 – 2.ª intervenção do FMI, depois de mais um brinde do PS.Repetiu-se a história, só que desta vez coube ao PSD coligar-se (bloco central) exigir os esforços.
A seguir foi o PSD do actual PR a estragar-nos a vida, com a desvalorização deslizante – sacrifícios encapotados - para que pudéssemos aderir ao Euro.
2011 - Agora, já neste século, foi uma mistura de estraganço. Cabe, mais uma vez ao PSD endireitar as contas. Por outras palavras, pedir novamente esforços aos mesmos.
Sempre que colaboramos e levamos o navio a bom porto, vem alguém e estraga. Nós voltamos a reerguer o País e vem alguém e estraga. Será que é até à eternidade, como ao tal Rei? Espero bem que não.
Recordo isto por uma simples razão. A austeridade leva, sem margem para dúvidas, a recessão. E, esta, por ter componentes psicológicas auto-alimenta-se. Aguardo, sinceramente,que os nossos governantes – em quem votei e apoio – tenham isto presente.
É que os primeiros (?) sinais de preocupação séria começam a surgir.
A taxa de desemprego em Janeiro, não reflectindo a realidade, já ia nos 14,8%. O desemprego é uma das principais causas, senão a primeira, para a exclusão social. Os desempregados não saem, não convivem, não reaprendem, entram em stresse, alguns refugiar-se-ão na bebida – engana a fome segundo dizem -, não acompanham a evolução tecnológica o que lhes dificulta o acesso ao mercado de trabalho já não falando do estigma da idade.Daí à exclusão social é um passo. (Marx rebola-se a rir na cova e Keynes, grita como era seu hábito, também da cova – “é a economia estúpidos”).
Marx, porque o exército de reserva está criado e com isso baixa-se o salário médio português no futuro.
Keynes, porque ao Estado não basta ter ideias para além da austeridade, tem de pensar em pô-las em execução.
Na segunda quinzena de Fevereiro e primeiros dias de Março o “anjo da morte” sobrevoou o País. Dizem os entendidos que morreram cerca de mais 1.000 pessoas que o normal. O frio justificará epidemia gripal. A falta de dinheiro parece justificar má alimentação, não medicamentação e não tratamento, que minorando defesas abre a porta a gripes e pneumonias. O que convenhamos, em determinadas idades não é recomendável.
As reformas baixas não justificam tudo, tal como a onda de frio não justifica cerca de 500 mortes a mais por semana (estatísticamente falando – entenda-se). Há que lhes somar o maior número de desempregados (até casais). Isto representa menores rendimentos. Doentes crónicos abandonam consultas, tratamentos e medicação por falta de dinheiro. Entre estes há a destacar diabéticos, doentes cardíacos, doentes com insuficiência respiratória, depressivos e mentais. A alimentação deficiente e exígua bem como a falta de aquecimento são outras razões a potenciar o problema. Quanto mais baixa é a posição na hierarquia social e económica, pior será a saúde.
O sr. Ministro da Saúde, reconheceu há pouco um dos perigos; o aumento da tuberculose.
Conhece-se há muito o ciclo vicioso da pobreza. Quem nasce pobre tem uma menor probabilidade de frequentar a escola com capacidades de aprendizagem logo terá menor desempenho. Ao sair da escola o emprego que o espera terá pouca qualidade, maior exposição a riscos (acidentes e doenças ) e o desemprego é a porta que o espera se houver qualquer assomo de crise. Aos seus descendentes só por acaso não sucederá o mesmo.
Tecnicamente o desenvolvimento juvenil afecta a educação/instrução/formação, que afectará o emprego, que afecta o rendimento, a sua autoestima e até o lugar onde vive.
Esta mistura explosiva influencia comportamentos (tabagismo, alcoolismo,drogas, etc.), a exposição a maiores riscos de toda a espécie ( físicos, sociais e psicológicos).
Nós que, parece, estávamos a acabar com este ciclo a começar na juventude (taxa de mortalidade infantil óptima, escolaridade alta, alimentação mais ou menos adequada, etc.), estamos a enveredar por começar o ciclo dos quarenta de idade em diante.
As pessoas perdem o emprego, perdem carro, perdem a casa, têm de voltar para casa dos pais, afastando-se da “civilização urbana”, começam a comer pior – se comerem – não podem sair de casa – por vezes não têm dinheiro para o transporte - a procurar emprego, que não há, mudam os filhos de escola – perdendo o contacto com os amigos, tiram os filhos das actividades complementares de formação – os que as tinham – entram em stesse que leva ao alcoolismo, a doenças cardíacas e outras, que leva ao recurso a fármacos que não têm dinheiro para comprar, intupindo as urgências e os hospitais, a esperança de vida desce e a austeridade leva ao aumento da despesa pública com a saúde, o inverso do que se pretende. Se não nos quizerem matar.
Duvido, não de agora mas também não há mais que dois/três anos, do crescimento contínuo. Primeiro porque não podemos consumir tudo o que nos querem impingir, depois porque os recursos não são tão elásticos quanto o desejável e por último porque o homem comum não pode nem quer ser eterno escravo dum capitalismo financeiro ganancioso.
Não sei e penso que ninguém sabe soluções milagrosas. Já aqui referi, anteriormente, algumas que poderiam ajudar se postas em prática. Li este fim de semana o senhor secretário de estado da cultura afirmar que um próximo QREN, seja lá o que isto for – pois não vislumbro qualquer estratégia para o País, terá de apostar na recuperação do património edificado cultural e histórico. Será uma forma de salvaguardar os nosso rendimentos futuros no turismo. Eu escrevi isto em Março de 2011.
O Sr. Primeiro-ministro afirma que o nosso esforço não será em vão. Também espero.
Não gostava nada de ver o nosso esforçado, abnegado, trabalhador e ordeiro POVO, tranformado num SÍSIFO do Séc. XXI.
José Manuel de Oliveira Soares
26Março2012














