DisciplinaPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Esta palavra tem vários significados, que vão desde uma matéria de um curso (nesse sentido, Matemática ou Português são disciplinas) até a um código de conduta, imposto através de sanções.
Na perceção corrente, a disciplina aparece como uma componente de qualquer atividade organizada. Assim, práticas desportivas, vida associativa, educação e ensino, e sobretudo a vida militar, parecem inviáveis sem o recurso a uma disciplina.
Não é por acaso que o exemplo mais típico da disciplina aparece associado à função militar. Sendo o instinto de conservação o mais forte de quantos nos condicionam, vencer esse instinto e enfrentar o perigo carece de uma motivação que o simples espírito de corpo pode não dar. Daí que, desde a mais remota antiguidade, a par de todas as ações de mentalização para o combate, surgem sempre sanções para os que não cumprirem, desde a rejeição coletiva até á pena de morte.
Neste contexto, a disciplina é um meio, e não um fim. Frase estafada, tresandando a chavão; mas nem sempre objeto de uma, ainda que curta, reflexão.
Há muitos anos, numa tentativa de reflexão sobre este assunto, escrevi um texto em que comparava dois artigos sobre disciplina, um da International Defense Review (americana) e outro da Revista Militar Soviética. O curioso é que os artigos eram muito semelhantes, referindo o caráter utilitário da disciplina e defendendo as vantagens da disciplina aceite e participada, nos modernos cenários de conflito.
Uma análise histórica explica esta convergência. Nas hordas primitivas, ou mesmo na falange grega, combater ombro a ombro facilita a disciplina (pelo menos enquanto a formação se mantiver); combater com espaços e intervalos entre homens e unidades exige outra atitude, razão porque os romanos, ao adotar estas formações, tiveram que criar uma disciplina que garantisse o sucesso. Da mesma forma, quando Frederico da Prússia adotou a “ordem oblíqua” no campo de batalha, necessitou de ter uma tropa altamente disciplinada, pelo que “o soldado deveria ter mais medo do cabo do que do inimigo”
Ultrapassados esses confrontos cara a cara de formações extensas, com a invenção de máquina mortíferas como a metralhadora ou a granada explosiva, aumentadas as distâncias e consequentemente entregues os combatentes ao seu julgamento e iniciativa, forçosamente a disciplina (o meio) teve de ser adaptada, para atingir o sucesso (o fim). Basta pensar numa patrulha isolada no Afeganistão, ou mesmo uma sentinela em Bagdad, para compreender o terrível potencial que um simples gesto pode ter, quão importante tem de ser o discernimento desses homens, e que a disciplina prussiana não tem aplicação nessas situações.
Porquê todo este arrazoado à volta da disciplina militar? Porque existem outras disciplinas, e a tentação de confundir meios e fins não se cinge ao universo militar. Possivelmente, no meio militar este problema parece estar melhor resolvido do que noutros universos.
Ultimamente tem sido levantada a questão da disciplina de voto. Nada mais natural, quando se tem de fazer opções difíceis, criar consensos e arranjar acordos que implicam sempre cedências; o problema está em saber até onde se pode ir.
No mundo político anglo-saxónico as coisas correm de outro modo, talvez porque a democracia americana, bem como a inglesa, têm raízes mais profundas e mais antigas. Nesses países, ninguém sabe de véspera o resultado de uma votação em qualquer das câmaras; os deputados, senadores e membros do parlamento respondem perante os seus círculos eleitorais.
Foi nesse espírito que os deputados do CDS da Madeira votaram contra uma proposta da coligação do Governo, e a direção nacional do partido aceitou, com ou sem murmúrios, essa posição. Pelo menos com menos agitação da que teve origem noutro deputado do mesmo partido, quando fez passar um orçamento a troco de apoio para a indústria de laticínios da sua terra. Escândalo nacional, herói local.
Compreensão da Europa do Norte, rejeição da Europa do Sul. Mas nem sempre: Berlusconi caiu porque parte da sua coligação votou contra ele. Dá que pensar: se a disciplina de voto fosse dogma, o corrupto cavaliere ainda estaria no poder…
Retomando o conceito da disciplina como meio para atingir um fim, compreende-se que o fim justifique os meios – mas nem todos; existem preceitos de ética e do direito que os limitam.
Mas qual será o fim último? Vencer o jogo, ganhar a guerra ou aprender nas aulas são objetivos fáceis de definir, ou mesmo materializar. Ou seja, importante é saber o que está em causa, e se a disciplina, e que tipo de disciplina, se torna necessária.
Aliás, houve já casos em que foi dada liberdade de voto, sem que daí derivasse qualquer rotura nos partidos ou a Democracia saísse minguada. Bem pelo contrário, essa decisão só veio reforçar as instituições, e só pareceu perturbar os defensores da chamada “democracia orgânica”.
Portanto, se o que está em causa é algo de fundamental, é uma coisa; se for apenas manter a obediência ao pastor do rebanho, e garantir um lugarzinho nas próximas listas eleitorais, é outra…
Nuno Santa Clara














