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Quotidianos

As Alterações ClimáticasPor Nuno Canta
Montijo

Desde 2006, que o Município do Montijo dispõe de uma iluminação pública mais eficiente, com um baixo consumo, foram, ainda, desenvolvidos vários projectos de distribuição de lâmpadas de baixo consumo à população.

A frente ribeirinha foi requalificada com base na utilização das energias renovável das marés, isto é, a represa de água tem o seu enchimento assegurado pela subida das marés e, em cada ciclo, depois de represada, a água do mar é despejada, na maré vazia, para limpeza das calas de navegação.

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As Alterações Climáticas Por Nuno Canta Montijo

Por Jornal Rostos

Desde sempre que há registo da ocorrência de alterações climáticas na Terra tratando-se, portanto, de um fenómeno natural. Contudo, nos últimos anos, as alterações climáticas passaram para o centro das preocupações públicas de uma forma impressiva e num curto espaço de tempo. Os dados e evidências provêm de inúmeros trabalhos científicos de várias Universidades do Mundo, reunidos no Quarto Relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC), em 2007, e cuja publicação confirmou de modo mais acentuado as previsões do Relatório anterior, de 2001, e alertou para o perigo das alterações climáticas para as sociedades modernas.
Vamos começar por fazer uma abordagem aos aspectos básicos do problema das alterações climáticas. Aspectos muito perceptíveis ao nível do sistema climático global. Um deles, considerado o mais importante, é o aumento da concentração de um gás, o dióxido de carbono, na atmosfera terrestre. Se recuarmos 100 anos atrás, observamos que a concentração de dióxido de carbono na atmosfera era de 280 ppm (partes por milhão). Mas, nos últimos 100 anos, o dióxido de carbono aumentou significativamente na atmosfera, cerca de 30%, isto é, passou para uma concentração atmosférica de 380 ppm. Para conhecer o efeito que um gás, como o dióxido de carbono, tem na atmosfera da Terra e porque nos preocupamos com isso, temos de perceber o que é o efeito de estufa.

O Sol é a força motriz do clima terrestre. A atmosfera da Terra é, até certo ponto, transparente para a luz solar visível e, por esse facto, a maioria da luz solar atinge a superfície Terra onde é transformada em calor. O calor é depois emitido da superfície da Terra de volta para o espaço exterior. Se a atmosfera fosse constituída apenas pelo azoto e oxigénio, os dois constituintes dominantes (98%), então o calor emitido pela superfície era perdido na totalidade para o espaço exterior e arrefecia. A razão por que não arrefece deve-se à presença de outros gases na atmosfera, como, entre outros, o dióxido de carbono, vapor de água e metano. Estes gases têm uma concentração mínima na atmosfera, no entanto, têm a propriedade fundamental de reter o calor emitido pela superfície da Terra. Portanto, o calor não é perdido para o espaço exterior e, em vez disso, o calor é enviado de volta para a superfície. Assim, a Terra é aquecida duas vezes devido ao efeito de estufa.
Desta maneira, os gases com efeito de estufa actuam como se fossem um cobertor em volta da Terra, aprisionando o calor emitido pela sua superfície e, portanto, aquecendo mais a parte inferior da atmosfera. As alterações na concentração dos gases com efeito de estufa na atmosfera alteram, consequentemente, o efeito do aprisionamento do calor e, com isso, aumentam ou diminuem as temperaturas médias observadas na superfície terrestre.

Este efeito identifica como a principal causa das alterações climáticas, as emissões de dióxido de carbono, associadas à utilização da energia pelas atividades humanas, principalmente na queima dos combustíveis de origem fóssil, embora, ao nível local e regional, também sejam relevantes as mudanças no uso do solo e a urbanização. As mudanças no uso do solo pela urbanização e práticas agrícolas, embora de âmbito local, tem um efeito directo nos locais onde as pessoas vivem, trabalham e produzem alimentos. A desflorestação e a desertificação, na Amazónia e no Sahel, respetivamente, são dois casos onde a evidência mostra uma relação entre as atividades humanas e o clima regional. Também, o clima das grandes cidades regista temperaturas mais elevadas que as zonas rurais envolventes, devido à “floresta de betão” e ao seu efeito de retenção de calor, da drenagem canalizada da água e da poluição do ar, que, em conjunto, criam as chamadas ilhas de calor urbanas. Uma das consequências das temperaturas mais elevadas é aumentar a evaporação da água que, por sua vez, acelera a secagem da superfície terrestre e a acumulação de vapor de água na atmosfera. O aceleramento da secagem da superfície terrestre potencia a ocorrência de secas severas, enquanto o excesso de vapor de água atmosférico aumenta o risco de chuvas torrenciais.

Este aumento do dióxido de carbono na atmosfera e o consequente aumento das temperaturas, são tendências do clima confirmadas nos modelos climáticos, produzidos pelos cientistas, e nos registos meteorológicos recentes. Como os valores recentes das emissões de gases com efeito de estufa mostram uma tendência de crescimento, não apenas nos países industrializados, como nas economias emergentes, como a China, a Índia, a Rússia e o Brasil, à medida que avançamos no tempo, a magnitude da mudança antropogénica torna-se esmagadora, quando comparada com as influências naturais.
Apesar das incertezas, o Homem está a entrar num território desconhecido relativamente ao comportamento do clima e os impactos poderão ser desastrosos. Parecem existir limites que, se forme ultrapassados, podem desencadear uma mudança radical no regime climático, muito diferente do actual. Estas alterações climáticas abruptas encontram-se documentadas nos registos climáticos e, embora associadas a mudanças na órbita da Terra, provocaram o degelo nos pólos e uma mudança nas correntes oceânicas. Uma combinação entre correntes oceânicas e degelo pode, pelo aumento no nível do mar, inundar as zonas baixas durante séculos.

Existem diferentes tipos de medidas políticas que podemos adotar para prevenir os problemas das alterações climáticas, algumas delas têm sido adotadas no Montijo, nos últimos anos, como parte de uma estratégia de preparação do território para as consequências das alterações climáticas. São exemplo destas decisões políticas, a opção pela poupança energética que, provavelmente é a resposta mais adequada no curto prazo. A eficiência na utilização da energia eléctrica tem um efeito imediato na diminuição das emissões do dióxido de carbono e, no mínimo, pode estabilizar essas emissões. Para além, de continuar a aprofundar a eficiência do lado das fontes emissoras, devemos trabalhar o lado dos chamados sumidouros naturais de dióxido de carbono, pela aposta no alargamento da área verde urbana e na arborização da cidade, que funcionam como elementos de arrefecimento e de captura do dióxido de carbono.
Desde 2006, que o Município do Montijo dispõe de uma iluminação pública mais eficiente, com um baixo consumo, foram, ainda, desenvolvidos vários projectos de distribuição de lâmpadas de baixo consumo à população. Através da Casa do Ambiente, foram realizadas ações de sensibilização dos munícipes para a importância das compras com base no rótulo ecológica dos produtos, como nos eletrodomésticos, nos carros ou habitações.
Mas, se queremos realmente ter um efeito de longo prazo na redução das emissões dos gases com efeito de estufa, temos de fazer a opção pelas energias renováveis, com instalações de painéis fotovoltaicos e energia eólica. No município do Montijo, o regulamento de edificação, obriga os promotores ao aproveitamento das energias renováveis nos edifícios novos. Dentro desta linha, também a AMARSUL desenvolve tecnologias de aproveitamento do metano dos aterros sanitários para produção de energia eléctrica e, mais recentemente, instalou uma unidade para a produção de combustíveis derivados de resíduos.

A frente ribeirinha foi requalificada com base na utilização das energias renovável das marés, isto é, a represa de água tem o seu enchimento assegurado pela subida das marés e, em cada ciclo, depois de represada, a água do mar é despejada, na maré vazia, para limpeza das calas de navegação. Deste modo, o enchimento da caldeira funciona com a energia renovável das marés. Acresce que, a bacia de retenção da frente ribeirinha funciona como amortecedor das inundações provocadas pelas chuvas torrenciais, cada vez mais frequentes. Ou, ainda, a construção de novas infraestruturas dedicadas à promoção da mobilidade sustentável, como é exemplo a rede de ciclovias da cidade. E que, aos poucos, vão criando uma cultura de mobilidade desligada dos combustíveis fósseis e, assim, das emissões de dióxido de carbono.
Outra particularidade de adaptação da cidade do Montijo às alterações climáticas é a política de gestão da água. Com as alterações climáticas, a escassez de água aumenta, crescem os custos e pode ocorrer uma ruptura do serviço.

Assim, o município tem vindo a desenvolver uma gestão activa do aquífero, pela separação das fontes, entre o abastecimento público e a rega dos espaços verdes.
Dispomos, portanto, de um vasto conjunto de conhecimentos e de tecnologias para conseguir uma descarbonização em larga escala e estabilizar as emissões do dióxido de carbono produzidos pelas atividades humanas. Porém, este fenómeno extravasa o estrito domínio ambiental, refletindo-se direta e pesadamente em tudo o que respeita à sobrevivência das sociedades humanas e à prosperidade da economia mundial: disponibilidade de água, energia, ordenamento do território, saúde pública, pesca, agricultura e transportes. É, portanto, um problema ambiental que tem, a montante, causas humanas e, a jusante, consequências sociais. Existem, por isso, muitas questões éticas e morais relacionadas com as alterações climáticas. Al Gore, Ex. Vice-Presidente Americano, no seu documentário “Uma Verdade Inconveniente” refere o seguinte, e cito: “o combate ao aquecimento global é um imperativo moral”.
Com certeza que, ao longo da história geológica da Terra ocorreram alterações climáticas extremas, mas foram mudanças que levaram milhares de anos. O perigo das alterações climáticas modernas está no curto espaço de tempo que podem levar a consumar-se, com evidentes problemas na adaptação das sociedades humanas e das outras espécies. O que está em causa é a manutenção das sociedades humanas que criamos, e esse objetivo só será alcançado caso se comece a enfrentar a crise entre a nossa espécie e a Natureza.

NUNO CANTA, 2012






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