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Quotidianos

ABRIL E MAIOPor Nuno Santa Clara
Barreiro

O delírio ultraliberal em que estamos mergulhados, já contestado pelo próprio FMI, já denunciado pelo candidato François Hollande, continua à solta, assestando os seus disparos sobre tudo o que represente um entrave à lei do mais forte.

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ABRIL E MAIO Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Esta época é propícia a comemorações, evocações e festejos; mas também a reivindicações, manifestações e outras ações orientadas no sentido da defesa do que se convencionou chamar “as conquistas de Abril”.
Nada mais natural. A cada passo da nossa História, tendemos a considerar que estamos sempre inseridos numa linha ascendente, de melhoria contínua da nossa qualidade de vida, e que essa linha ascendente é de sentido único, isto é, não tem retrocesso.
Claro que esta visão é idealista. Basta atentar nos ciclos de aceleração e retrocesso económico para compreender que a evolução da Humanidade se compõe de avanços e recuos. As grandes catástrofes que foram a I e II Guerras Mundiais são talvez o exemplo máximo da fragilidade do processo dessa evolução, bem como a crise de 1929, com tantas semelhanças com a crise atual – muito embora haja quem continue a negar qualquer semelhança.
Pessoalmente, admiro a abordagem que Arnold Toynbee, com o seu conceito algo geométrico da evolução da Humanidade. Segundo ele, a trajetória da nossa evolução seria semelhante a uma espiral, de modo a que, se na projeção horizontal tudo parece voltar atrás em cada ciclo, na verdade há um avanço na vertical em cada ciclo, portanto um ganho civilizacional.
Exemplificando, mesmo a barbárie nazi não foi um retrocesso completo: todo o Mundo compreendeu que tal descalabro não poderia repetir-se, ainda que possam existir alguns revanchistas, saudosistas e afins, capazes de tentar o revisionismo da História, e a negação da evidência.
Certo é que, neste momento da nossa atribulada História, têm vindo a ser contestados muitos ganhos que julgávamos irreversíveis. Temos sempre a convicção de que as conquistas são permanentes, esquecendo que, para assim acontecer, têm de ser defendidas, por vezes em lutas renhidas.
Mesmo o período de Salazar e Caetano teve alguns avanços, como os subsídios de Natal e de férias, ou a estabilidade de emprego, coisas que hoje alegremente são lançadas borda fora desta nossa nau, batida por tempestades alimentadas por depressões centradas em Wall Street ou em Frankfurt.
É que a utopia corporativa pretendia chegar um a Mundo ideal, em que todos os conflitos seriam dirimidos pela concertação social. Utopia decerto, até porque não vingou em lado nenhum; mas ficou uma recordação de uma boa intenção, impossível na prática, e sabotada até à medula pelos interesses das classes bem instaladas e dos grupos de pressão com pulso livre, ao contrário das classes mais desfavorecidas.
O delírio ultraliberal em que estamos mergulhados, já contestado pelo próprio FMI, já denunciado pelo candidato François Hollande, continua à solta, assestando os seus disparos sobre tudo o que represente um entrave à lei do mais forte.
Quanto mais tempo durar esta deriva, maiores serão os custos para o Povo Português. Pessoalmente, penso que a solução será imposta de fora, já que por lá impera o bom senso que por cá nos falta.
E até lá? Lutar pelas conquistas de Abril?
Sim, mas também pelas conquistas de Maio.
Não as do 1.º de Maio; no estado em que estamos, pelas do 28 de Maio.

Nuno Santa Clara

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