O DECLÍNIO DA CLASSE MÉDIAPor Paulo Marques
Barreiro

Por Jornal Rostos
Os portugueses em geral, mas sobretudo a classe média, são confrontados com um conjunto de fortes medidas de austeridade implementadas pelo Governo sob imposição das entidades credoras (a chamada troika) devido à situação de iminente colapso das nossas finanças e em virtude do resgate da dívida externa do país.
Depois de tantas lutas ao longo das últimas décadas para melhorar o seu nível económico e o seu estatuto a, já de si frágil, classe média portuguesa está a ser duramente atacada em todas as frentes, prevendo-se que o continue a ser nos próximos anos.
Este grupo maioritário da população portuguesa, já que em bom rigor não se trata de uma classe propriamente dita, situa-se algures entre as elites e o proletariado, abrangendo camadas socioprofissionais muito heterogéneas. A classe média que nasceu com o capitalismo e que se convencionou tratar como possuidora de um padrão de vida e de um poder aquisitivo razoáveis, teve sempre fortes expectativas de ascensão social.
Entretanto, o modelo neoliberal faliu, e em virtude disso, muitas das conquistas civilizacionais alcançadas, não obstante estarem constitucionalmente consagradas, estão a ser destruídas: o Estado social (que tantas lutas custou aos europeus), os direitos laborais e sociais, as garantias de segurança no emprego, a própria dignidade do trabalhador…
Temos assistido nos últimos tempos ao avolumar do desemprego, ao agravamento das desigualdades entre os mais ricos e os mais pobres, e ao endividamento e ao empobrecimento de muitos que nunca se imaginaram na posição de quem estende a mão a pedir ajuda.
Tais circunstâncias, a acrescer ao facto da tomada de consciência, facilitada pelos media, da injustiça de continuarem as oportunidades e privilégios para uma minoria, e dificuldades e sacrifícios para a grande maioria, favorecem não só a insatisfação, como fazem prever o agudizar da ocorrência de conflitos com repercussões sociais e económicas e, muito provavelmente, políticas.
Portugal e a Europa precisam de um abanão que obrigue a uma mudança de paradigma. Uma mudança que abra novos horizontes e que faça emergir novos líderes e protagonistas, já que os que temos se mostraram incapazes.
Apesar de em geral se associar a classe média a um tipo de comportamento mais individualista, resignado e integrado socialmente, importa, porém, não esquecer que as últimas convulsões sociais que ocorreram na Europa foram animadas pela classe média. Um cenário que não lhe sendo estranho, pode voltar a ser reeditado. Muito possivelmente assumindo outras formas de protesto e ação coletiva, com outras configurações diferentes das do passado mais recente, a que não deverá ser alheia a internet e outras tecnologias da comunicação, o chamado «ciberespaço».
O que não me parece é que a classe média não vá reagir nos próximos tempos a este declínio de estatuto, e que essa reação não se inicie nalgum ponto da Europa para se arrastar por todo o velho continente…
Paulo Marques














