PROFISSÃO PROFESSORPor Paulo Marques
Barreiro

Por Jornal Rostos
Pretendo que os meus alunos sejam interessados, que se empenhem, que cumpram, que obtenham bons resultados, para o seu bem e para minha gratificação. Só que isso significa um esforço sobre-humano que sinto, a maior parte das vezes, exercer sozinho e em contramaré. Esta exigência que lhes imponho e este desgaste a que me submeto, só raras vezes vejo reconhecido. Porém, são eles a minha motivação e, quase sempre só deles, me chega a compensação.
Sou um professor convictamente exigente, porque sei que a ignorância, a preguiça, o reles, o facilitismo, como as bexigas, alastram por contaminação. O saber pode atrofiar até mirrar de todo se dele não cuidarmos. Em «Conta-Corrente 2» o professor e escritor Vergílio Ferreira escreveu: «Anteontem, quando acabei de dar Os Lusíadas, todos os alunos deram um grande suspiro de alívio. (…) A cultura, como a higiene, tem de se impor à força. Abandonado a si, o homem não se lava. Mas depois descobre que é desagradável comer com as mãos sujas.»
O processo educativo é um processo violento. Chego, sinceramente, a ter pena das pobres crianças. A escola é o lugar onde perdem a infância pois a educação e a socialização das crianças, submetidas ao papel de alunos, rouba-lhes a inocência, a espontaneidade e o impulso criativo.
Aspirando o desenvolvimento dos alunos em diversos domínios, mas também uma relação próxima, afetiva, fraterna que seja gratificante para o educador e os educandos, e já agora, que preconize a felicidade de ambos, tal revela-se incompatível com as funções seletivas e avaliadoras que também me pertencem.
Embora pretenda fazer da escola um local onde os meninos sejam felizes e se realizem, é muito frágil o equilíbrio entre sedução e imposição. A escola conduz ao cumprir e ser compensado e ao não cumprir e ser penalizado. E contra isso não há saída possível.
Para aprender, é necessário fazer-se uso de três das fundamentais faculdades humanas: a memória, a inteligência e a sensibilidade. Depois, é precisa a ordem e a disciplina (indissociáveis do respeito) para que o processo de aprendizagem decorra com norma e tranquilidade, de modo a que se crie saber. E nada disto é possível sem muito, muito trabalho. Trabalho árduo e sistemático, cansativo, por vezes violento. Educar é teimar, teimar…
No que me diz respeito sei que dou o mais que posso, embora não dê tudo quanto pudesse dar. Sobretudo nos últimos anos, a profissão tem-me de certa forma desencantado. Um esforço pessoal que não só nem sempre é reconhecido, como é muitas vezes desprezado, amesquinhado, e que não sendo sequer financeiramente bem compensado, me tem conduzido a um certo cansaço e desencorajamento.
Deste modo, tenho procurado responder às minhas necessidades de afirmação e de expansão fora da escola, nomeadamente, desenvolvendo uma atividade paralela como escritor. Por acaso uma atividade subsidiária da de docente, mas quantos professores, em circunstâncias semelhantes, não têm vindo a deslocar o seu interesse e investimento do espaço escolar para outras atividades que lhe são próximas (explicações, acumulação em colégios privados, prosseguimento de estudos…), para as múltiplas solicitações da sua vida familiar e social, ou até mesmo, para áreas que lhe são totalmente alheias (venda de computadores, cosmética, vestuário…) para compor o ordenado?
Desde que entrei na escola nunca mais de lá saí. Primeiro como aluno, mais tarde como professor. Já lá vão quase quatro décadas. Posso dizer que possuo um modo escolar de estar na vida. O homem e o pedagogo não se dissociam. A escola entranhou-se. E não é possível sair do que está dentro de nós.
A profissão tem-me dado grandes alegrias, e muitas desilusões e desgostos. Desagrada-me a dimensão funcionária do ser-professor, com os seus atos repetitivos e rotineiros mas lá vou, com infinita boa vontade, levando o be-a-ba diário até que saia alguma coisa, até que se produza conhecimento na cabeça dos meninos. Aprenderem as letras, as palavras, as frases, os textos. Lerem e interpretarem, até estarem capazes de todo o resto.
Os meninos têm a inquietação do sangue, a indisciplina e insolência da idade, são cruéis de sua natureza. A esta idade compete naturalmente a ignorância, a precipitação, a não-experiência, a dificuldade em controlar emoções e comportamentos, mas também a curiosidade, a cabeça fresca para memorizar, o gosto de entender, a vontade de fazer.
A criança é um ser no início do seu desenvolvimento, no período por excelência da aquisição das bases da sua personalidade, ainda não definitiva e, portanto, mais facilmente educável. Neste ainda não definitivo reside a oportunidade educativa, a oportunidade de conduzir a um plano maior. Essa é a tarefa de grande importância e de enorme responsabilidade que a sociedade confia ao educador.
Resta-me continuar a investir, com o entusiasmo possível, na educação dos meninos. A semear com todo o engenho e arte que possua, para vir a colher com paciência mais tarde.
BUROCRATA DO ENSINO
Mas o que me desagrada profundamente nesta profissão são as obrigações administrativas que me tornaram num burocrata do ensino. Resmas e resmas de papéis: atas, planificações, avaliações, sumários, registos de dados, inquéritos, mapas, quadros… e reuniões, reuniões até ao enfado. Os papéis aviltam-me, as reuniões sufocam-me. Só os meninos me salvam. Só eles me fazem sonhar. São eles o desafio. Têm de ser eles a primeiríssima prioridade.
Vivo um conflito permanente entre o pedagogo que pensa e sabe, e ensina a pensar e a saber, e o funcionário que vem à repartição cumprir, dar despacho, ser avaliado pelo que escreve que faz. Matam-me a criatividade, a espontaneidade, a autonomia. Esperam de mim o acatamento acrítico de normas e decisões.
A ganga institucional asfixia o lado belo da profissão. Transforma a escola, casa de saber e de cultura por natureza e excelência, em repartição pública de ensino manufaturado, burocrático, normalizado, submisso.
É a escola desviando-se de si própria, esvaziando-se, transformando-se noutra coisa. É a cultura a perder para o formalismo vazio e estupidificante. É a nobreza essencial do mestre a ser amesquinhada, ultrapassada, substituída pela função que lhe é imposta de servo da mecânica trituradora da instituição escolar. O pensador cedendo lugar ao técnico. O criador cedendo lugar ao executor. E é o progresso do país encalhado em papéis estéreis e reuniões inúteis.
DEGRADAÇÃO DA IMAGEM SOCIAL DOS PROFESSORES
Hoje, a imagem da profissão de professor bateu fundo. Tão fundo que dá dó. E está onde está, por culpa de alguns professores; por culpa de muitos dos nossos governantes, nomeadamente, aqueles que têm assumido responsabilidades na área da Educação; por culpa de determinada comunicação social; por culpa de certos pais; por culpa de toda a sociedade (onde os professores mais uma vez se incluem).
Neste caso, a culpa não morre solteira. Somos todos responsáveis, ainda que por razões diferentes, ainda que uns com mais culpas, outros com menos. E é pena, porque perdem os professores, perdem os meninos e perde o país. Perdemos todos.
São vários os motivos que levaram ao presente estado de grande degradação da imagem social dos professores. Entre outros:
O facto de constituírem um dos mais numerosos grupos profissionais das sociedades contemporâneas.
A origem social do grupo (classe média e baixa).
O elevado número de mulheres – grupo socialmente discriminado.
O status dos clientes (alunos).
A relação com os clientes: relação não voluntária, mas sim obrigatória.
A escola não ter conseguido (ou desejado) aproximar-se da comunidade, envolvendo-a no processo educativo.
A sociedade ter deixado de acreditar na educação como promessa de um futuro melhor: perante os elevados índices de desemprego atuais, um grau académico não assegura nada.
A inexistência de mecanismos eficazes de avaliação e diferenciação de professores baseados na qualidade do seu desempenho.
A baixa remuneração para as qualificações que são detentores e para a exigência da função que lhes é atribuída.
A mediocridade das condições de trabalho.
A ausência, por parte de alguns professores, de uma reflexão crítica sobre a sua ação, com consequente ajustamento ou mudança das práticas.
A docência ser para muitos professores uma atividade que acolheram por não terem outras saídas profissionais: falta de vocação.
Os maus comportamentos, atitudes e práticas de alguns professores que tendem a ser generalizados pela opinião pública e a serem alimentados por certos círculos intelectuais e políticos que dispõem de um importante poder simbólico na atual cultura de informação.
A POBREZA AMESQUINHA E APRISIONA, A CULTURA LIBERTA
A baixa remuneração dos professores é não só um dos motivos para a degradação da sua imagem social como é consequência desta.
A indignidade dos salários dos homens e mulheres que exercem uma das profissões mais antigas e mais importantes, tendo em vista que as demais, na sua maioria, dependem dela, é uma situação não só desvantajosa para os próprios como altamente prejudicial para o país.
O prestígio social e uma situação económica digna, são duas condições essenciais para o cumprimento da importante missão que lhes está confiada, além de que a imagem e o estatuto dos professores são a imagem e o estatuto do país.
O que, à primeira vista, pode parecer um interesse pessoal e sectorial é-o, mas não se fica por aí. À pobreza material, ao professor económica e socialmente pobre está, inevitavelmente, associado o professor cultural, mental e eticamente pobre. A não ser que outros traços identitários transcendam esta condição, reduzindo-a ou anulando-a: forte motivação pessoal, elevada cultura, grande prazer pelo estudo, origem socioeconómica favorável. Só que isso só excecionalmente acontece…
LIÇÃO DE MORAL
Em 1989, há vinte e três anos, o professor e escritor Vergílio Ferreira escrevia em «Conta-Corrente»: «Sabiam que um deputado, que ordenha, creio, uns 250 contos por mês, tem direito a aposentar-se com o ordenado por inteiro e (talvez) sem impostos depois de oito anos seguidos ou salteados nas bancadas do ripanço? E sabiam que eu (e muitos outros) não chego a embolsar 100, depois de trabalhar no duro durante quarenta anos a preparar meninos para serem talvez agora deputados? Há decerto uma lição de moral prática a tirar daqui. Mas deve ser muito subtil para a espessura do meu cérebro.»
Nada de novo portanto.
SOBRE OS PROFESSORES
Tenho conhecido ao longo de todos estes anos muitos professores dedicados, exercendo eficientemente (e uns poucos, até exemplarmente) a sua profissão, alguns professores medíocres, muitos professores cansados, desiludidos, desistentes, céticos, que se deixaram levar pela rotina, e um número residual de professores execráveis. Existem, naturalmente, profissionais pouco dignos da sua missão, todavia, na ausência de fontes que o confirmem ou desmintam diz-me a experiência que se trata de uma minoria pouco considerável. Grosso modo, com maior ou menor vocação, mais ou menos motivados e empenhados, os professores lá vão cumprindo melhor ou pior o que deles se espera. Como de resto, calculo, acontecerá em todas as profissões.
Um professor é um funcionário, mas de um tipo particular. É que além de funcionário ele é um agente cultural e, inevitavelmente, um agente político. Realiza um trabalho de grande relevância social. A escola e a instrução incarnam o progresso, e os professores são os seus agentes. A partir do momento em que a educação é (ainda) um instrumento privilegiado de estratificação social, os professores personificam as expetativas de promoção dos alunos e das suas famílias.
Se os olhos da sociedade recaem implacavelmente sobre os professores, tal deve-se ao facto de atribuírem ao seu trabalho a mais alta consideração profissional.
Temos de suportar a crítica generalizada que nos considera como responsáveis imediatos (e, muitas vezes, únicos) pelas falhas e por certa degradação do sistema de ensino, fortemente transformado pelas profundas mudanças sociais dos últimos anos, nomeadamente, a passagem de um sistema de ensino de elite baseado na seleção e na competência para um sistema de ensino de massas que tornou a escola um lugar de grande heterogeneidade social, cultural e até linguístico. Este novo contexto enriqueceu o espaço escolar mas também o tornou mais complexo e lhe dificultou a gestão.
A atitude, o comportamento, os resultados do trabalho do professor são permanentemente vigiados e avaliados por todos. Toda a gente, visto que passou pela escola ou a ela está de algum modo ligada, possui opiniões acerca da educação. Pena que poucas vezes justas… Por norma, tudo se resume ao seguinte lugar-comum: «se os alunos têm sucesso é porque são bons estudantes (e a família para isso contribuiu), se as coisas correm mal, os professores são maus profissionais».
A sociedade que crítica o trabalho dos professores é a mesma que, pelas mais diversas circunstâncias, se demitiu em relação às suas responsabilidades educativas. O problema do ensino é um problema social que requer soluções sociais, não é um problema dos professores e das escolas. Também é, mas não é só.
Apesar de tudo, verifica-se com alguma surpresa, que a sociedade mantém a confiança nos professores. Parece que o prestígio da profissão docente permanece intacto. A imagem do professor, confrontada com outras atividades profissionais, continua francamente positiva. Segundo uma sondagem internacional realizada pela Gallup para o Fórum Económico Mundial (2008), os professores são a profissão em que os portugueses mais confiam e também aquela a quem confiariam mais poder no país. De acordo com a sondagem, os professores merecem a confiança de 42% dos portugueses, muito acima dos 24% que confiam nos líderes militares e da polícia, dos 20% que dão a sua confiança aos jornalistas e dos 18% que acreditam nos líderes religiosos. Como seria de esperar, os políticos são os que menos têm a confiança dos portugueses, com apenas 7%.
Atualmente são exigidas à escola cada vez maiores responsabilidades educativas, algumas que, tradicionalmente pertenciam à família. Do professor espera-se que seja simultaneamente instrutor, educador, facilitador, crítico, avaliador, controlador, disciplinador, gestor de conflitos, vigilante, terapeuta, psicólogo, amigo, pai, funcionário de secretaria…
Tudo se espera da escola, e a escola, na sua incapacidade de cumprir tudo o que dela se espera, só pode dar uma resposta insuficiente e insatisfatória. Porque será sempre incapaz, por si só, de resolver o que não dependendo exclusivamente dela, cabe por responsabilidade a toda a sociedade. Diz o sábio provérbio: «Para educar uma criança é necessária a aldeia inteira.»
Paulo Marques














