50% ou 100%?Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Os últimos dias foram assinalados pelo caso dos 50% de desconto numa rede de supermercados. Filas intermináveis, confusão generalizada, prateleiras vazias, alguma destruição.
Ao apelo irresistível do desconto de 50% a quem gastasse ali mesmo mais de 25% do salário mínimo nacional, aderiu uma larga percentagem da população.
Não faltaram, como era de prever, as análises, declarações, tomadas de posição e comunicados, num País tão produtivo nessa área. E alguns deles eram interessantes, força é dizê-lo.
Logo à partida, o que sucedeu foi que as notícias do dia 1.º de Maio deixaram de ser sobre as manifestações e comícios, passando a focar a corrida aos supermercados. Para os adeptos da teoria da conspiração, aí estava um belo campo para especulações.
Para os que defendem a abertura das grandes superfícies sem restrições, ali estava um caso de sucesso, a ilustrar a justeza das suas opiniões. Foi um caso de liberalização suprema, até nos preços.
Para os defensores da ética e das boas práticas comerciais, era algo de suspeito: 50% de desconto é, em qualquer parte do Mundo (e não se tratando de saldos), indício de uma ação de dumping, ou seja, de venda abaixo do preço de custo.
A crer nas declarações vindas a público, não foram praticados preços de dumping.
Então, o caso é mais grave. Pois se um desconto de 50% não acarretou perdas, é porque o produto poderia mesmo ter sido vendido pela metade do preço afixado.
Voltando aos números, se os produtos valiam metade do preço, então a margem de lucro era de 100% - sempre a fazer fé nas notícias vindas a lume.
Pelo que o que me preocupa não é a história dos 50%, e tudo o que lhe ficou associado.
Não.
O que me preocupa é a hipótese dos 100%.
Nuno Santa Clara














