Saltar para o conteúdo
Quotidianos

Da burguesiaPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Mas, na transição do século XIX para o XX, a movimentação social veio criar nova escala de valores. A burguesia passou a ser indissociável da exploração capitalista, com uma conotação agora negativa, de modo a que já ninguém queria ser reconhecido como burguês, ainda que indesmentivelmente o fosse.

5 min de leitura
Da burguesia Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Ser burguês foi o sonho de todos os europeus, desde os tempos da Revolução Francesa. Ser burguês era ser livre, poder deslocar-se, mudar de profissão, dispor dos seus bens, enfim, poder subir na vida. Ser burguês era antes de mais ser respeitável, e a respeitabilidade substituiu as linhagens ilustres, as dinastias e os títulos hereditários. Só que a respeitabilidade tinha de ser conquistada e mantida, ao contrário dos foros de fidalguia, que nunca corriam o risco de ser perdidos. Basta recordar os romances de Júlio Dinis e outros escritores do século XIX para lembrar os desacatos dos morgados, seguros da sua impunidade, escudados num estatuto obtido por nascimento, e não por mérito.
Mas, na transição do século XIX para o XX, a movimentação social veio criar nova escala de valores. A burguesia passou a ser indissociável da exploração capitalista, com uma conotação agora negativa, de modo a que já ninguém queria ser reconhecido como burguês, ainda que indesmentivelmente o fosse.
E assim, quando todos estávamos inapelavelmente constituídos em burgueses, com todos os valores da classe plasmados nas leis fundamentais das Repúblicas e Monarquias Constitucionais, eis que começamos a sentir-nos insultados por ser chamados burgueses. A classe média entendia que ser burguês era desprestigiante e sinónimo de mau gosto; pequeno burguês, pior ainda. Assim o diziam os intelectuais (burgueses como os outros); assim o diziam os desfavorecidos (que queriam melhorar a vida, ou seja, tornar-se burgueses); assim o diziam os revolucionários de todas as tendências (até se instalarem no poder e aburguesar-se).
O sentimento anti burguês continua. Ainda recentemente, um grupo musical fez furor como contestatário e iconoclasta, até que, num refrão de uma das suas composições, disse:
Que quer o Povo? Que quer o povo?
Quer dinheiro para comprar um carro novo!
Está bom de ver que, com esta confissão de generalizada aspiração burguesa, o grupo ficou condenado ao ostracismo…
Exceções há; mas quantos são os que, como que seguindo as palavras de Cristo, fizeram como Ele disse: vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres, e acharás um tesouro no Céu. Pessoalmente, só conheci dois, e nenhum deles era crente…
Este complexo de culpa da burguesia, esta rejeição do próprio estado, seria cómico se não fosse trágico. É que negar a sua própria essência é abrir a porta a outros valores, ou a falta deles, como sucedeu na Europa, com especial destaque para a Alemanha e para a Itália, quando nazis e fascistas, sob uma capa de revolução social, perverteram toda a sociedade.
O papel da classe média é fundamental na nossa sociedade, e os políticos sabem bem que é ela que elege e derruba os governos, embora nem sempre se tenha consciência disso. Em Portugal, desde 1976, as variações de voto deram-se entre os partidos do centro. E, se olharmos para os demais países da Europa, ou por todo o lado onde reine a Democracia representativa, o panorama é o mesmo.
Foi para mim um choque conhecer um pouco da realidade da Costa do Marfim, primeiro país africano independente que visitei. À pobreza generalizada opunha-se uma reduzida clique opulenta, com um padrão de vida mais elevado que o da sua equivalente europeia. Eu guardava a recordação das nossas colónias, onde havia uma classe média de empregados e funcionários (a par, é claro, da massa dos explorados), que mantinha um ar de sociedade burguesa, transposta para os trópicos.
Do que hoje se passa por aquelas bandas, deixo ao critério de quem tem visitado ou trabalhado nesses países. Mas sempre se pode dizer que, nos restaurantes chiques, um jantar familiar pode custar um salário mínimo (português, claro, já que salário mínimo é algo desconhecido por essas mesmas bandas).
O problema está em que a sociedade portuguesa parece singrar na mesma rota, com as classes média e média-baixa a serem severamente fustigadas pelas medidas ditas de contenção. O retrocesso é nítido. Na habitação, que é um caso de estudo, passou-se do apoio ao pequeno proprietário para o espoliado a favor da banca. Ou seja, a breve prazo, só haverá proprietários investidores e inquilinos proletarizados.
E o mais curioso é que o slogan de fazer de cada português um proprietário não foi lançado pela Esquerda, mas sim pelo CDS, baseado (e muito acertadamente) na doutrina social da Igreja…
A História é fértil em exemplos de tomadas de Poder em que os primeiros sacrificados são os que levaram a esse Poder as pessoas que depois inverteram a escala de valores de que se reclamavam. Como na I República, em que os carbonários, muitos dele analfabetos, que tinham estado na Rotunda em 4 e 5 de Outubro se viram impedidos de votar pela lei eleitoral do Partido Republicano, tirando daí a amarga conclusão de que para morrer pela República, serviam, mas para votar, não…
Estou convencido que a solução, como sempre, virá do exterior. Não por alguma atitude revolucionária, mas pela simples constatação de que o atual rumo da Economia nem sequer garante a solvência dos Estados.
O primeiro sinal veio de França, um dos parceiros do que foi o núcleo duro do ultraliberalismo serôdio.
Outros se seguirão. No fundo, é um exemplo do efeito Gaia: face a situação anómalas, a Terra tende para a auto regulação.

Nuno Santa Clara

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção