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Quotidianos

A VIDA MUDA. E UM DIA MUDOU!Por PAULA PEREIRA

"Estar desempregado não pode ser um sinal negativo. Despedir-se ou ser despedido não tem de ser um estigma. Tem de representar também uma oportunidade para mudar de vida. Tem de representar uma livre escolha, uma mobilidade da própria sociedade."
Olharam um para o outro. E pensaram: a vida muda. E hoje mudou.

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A VIDA MUDA. E UM DIA MUDOU! Por PAULA PEREIRA

Por Jornal Rostos

Era uma vez 2 adolescentes que começaram a namorar ainda andavam na escola, o romance continuou mas o ensino secundário acabou. Seguiu-se a universidade, trabalhavam de dia e estudavam de noite, saiam e entravam em casa ainda era escuro. Vários transportes públicos para apanhar e os lanches na mochila. Acabaram os cursos. Com a ajuda dos pais compraram um apartamento num bairro nos subúrbios de Lisboa. A vida corria-lhes bem. As empresas pagavam a tempo e a horas. Eram felizes. Cansados mas felizes. Os anos foram passando, nasceram as crianças, infantários privados porque nos públicos nunca conseguiram vagas. Com algum esforço iam levando a vida para a frente. As crianças cresciam felizes. À noite era o sorriso dos pais que os esperavam. Tantas vezes, com os problemas do trabalho na cabeça, o peso do cansaço dos transportes e das compras de última hora a caminho de casa, ainda encontravam ânimo para uma escorregadela e uns empurrões no baloiço ou uma futebolada no campo de futebol improvisado no hall de entrada.
Mas a vida muda. E um dia mudou. A empresa da mãe começou a não pagar, as despesas continuavam mas a mãe não quis deixar de trabalhar, afinal foram tantos anos a estudar, mas chegou o dia em que chegou ao cúmulo de pagar para ir trabalhar. Por acordo e porque vivemos num país em que a diferença remuneratória entre mulheres e homens ainda se faz sentir, foi a mãe que deixou de trabalhar. As crianças saíram do infantário e a mãe cuidava dos filhos e da casa, abdicando da sua profissão e da sua realização profissional, na esperança de que as coisas iriam melhorar.
Com muitas dificuldades e com muitas noites em branco, sentados na mesa da cozinha, a fazerem contas, o orçamento agora limitado a um único salário custava cada vez mais a gerir. Os passeios ao final da tarde, a futebolada no hall de entrada, os sorrisos dos pais, transformaram-se em angústias, em tristeza, num nó no estomago.
Alguém lhes sugeriu que emigrassem, mas para onde? Para onde se pode emigrar com duas crianças menores? Em que condições? Este era o seu país, que os viu nascer, crescer, formarem-se. Era aqui que queriam viver e criar os seus filhos, junto da família e dos amigos.
Mas a vida muda. E um dia mudou. A empresa do pai, sem encomendas e sem mercado, encerrou! Assim. Sem apelo nem agravo.
Nessa noite, sentados no sofá, e depois das crianças terem adormecido sem terem ido ao parque e sem sorrisos, ouviram na televisão:
"Estar desempregado não pode ser um sinal negativo. Despedir-se ou ser despedido não tem de ser um estigma. Tem de representar também uma oportunidade para mudar de vida. Tem de representar uma livre escolha, uma mobilidade da própria sociedade."
Olharam um para o outro. E pensaram: a vida muda. E hoje mudou.
Não estavam dispostos a desistir de ser felizes! E a frase daquele autor de quem já tinham ouvido falar, sem nunca prestar muita atenção, entoou nas suas cabeças: “Ninguém pode vencer um povo que resiste.”

PAULA PEREIRA

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