PACTOS CONTRA-NATURAPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Em 23 de Agosto de 1939 foi assinado o chamado Pacto Molotov-Ribbentrop. Acordo estranho e, à primeira vista, contra-natura, uma vez que colocava como aliados dois inimigos figadais, a Alemanha de Hitler e a União Soviética de Estaline.
Seria tão imprevisível, ou mesmo impensável? Nem por isso. A União Soviética vinha sendo ostracizada pelas potências ocidentais, e necessitava de esconjurar o seu inimigo direto, a Alemanha nazi. Estaline precisava de vários anos para preparar a guerra que seria inevitável; Hitler precisava de esconjurar o fantasma da guerra em duas frentes, que levara a Alemanha à derrota na I Guerra Mundial.
Esta aliança saída da necessidade não podia ser sincera, e durou menos de dois anos: em 22 de Junho de 1941 a Alemanha invadia, sem declaração de guerra, a União Soviética. Sorte para nós, portugueses, pois a “Operação Barbarossa” poupou-nos da planeada invasão da Península Ibérica, já planeada desde 1940 pela “Operação Félix”.
A História não se repete, dizem. Mas quem não aprende com a História está condenada a repeti-la, dizem também.
Porquê esta divagação histórica? Apenas pelo desafio da extrapolação de situações de pactos contra-natura, que são mais frequentes do que se julga, mas que são sempre fonte de longos estudos e divagações, mas que têm um fator comum: criados num momento específico, estão condenados a ter vida curta.
Não confundamos pactos contra-natura com a Realpolitik de Bismark, que tanto fascinou Henry Kissinger: uma coisa é ter uma atuação pragmática, outra é fazer um acordo de circunstância.
Ora, nos últimos dias apareceu-nos o espectro de um pacto contra-natura: David Cameron, o Primeiro-Ministro conservador do Reino Unido, veio a público manifestar o seu apoio a Angela Merkl, a conservadora Chanceler da Alemanha.
Nada mais natural, dirá o leitor desatento; não são da mesma área política?
Ser, são. Mas enquanto Merkl refulgia no palco da Comunidade Europeia, de parceria com son ami Sarkosy, no famigerado tandem franco-alemão, Cameron mantinha-se na posição tradicional dos conservadores britânicos: empatar, diluir, desmembrar, desvalorizar, a Comunidade Europeia, sempre dentro da estratégia da superioridade anglo-saxónica de Além e Aquém Atlântico.
A vitória da esquerda francesa e a nova postura do Presidente François Hollande veio alterar tudo. A perda do Grande Aliado deixou Merkl “perdida no mato sem cachorro” como dizem os brasileiros; Cameron de imediato ofereceu os seus préstimos, e ela naturalmente aceitou.
E assim fomos cair numa aliança contra-natura: um cético da CE aliado a um (pretenso?) motor da dita Comunidade.
Esperemos que a vaga de fundo que já transpareceu nas eleições regionais da Alemanha reponha a ordem. Seria, a meu ver, mais uma manifestação do efeito Gaia.
E, quanto a cambalhotas, não nos devemos surpreender. As mais firmes convicções podem vacilar na adversidade. Figuras da mais rígida ortodoxia podem ser atraídas para o abismo dos compromissos, face às circunstâncias, como António Sardinha, que em 1919, exilado em Espanha, no seu livro “À lareira de Castela”, deu uma ideia de iberismo que decerto deixou confusos os mais decididos dos seguidores do integralismo que ele próprio lançara.
Sic transit gloria mundi. Se o náufrago se agarra a uma palha, na esperança de não se afogar, porque não agarrar-se a um pacto contra-natura?
Nuno Santa Clara














