Saltar para o conteúdo
Quotidianos

Novíssimas oportunidadesPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Oportunidade de mudar de vida, é líquido. Passar ao desemprego, deixar de pagar impostos, deixar de produzir, ficar sem casa, não poder garantir o sustento ou o estudo dos filhos, tudo isso são claríssimas oportunidades de mudar de vida. Talvez mesmo a oportunidade de meditar sobre a renúncia às coisas do mundo, tal como entendiam S. Francisco de Assis ou Mahatma Gandhi.

4 min de leitura
Novíssimas oportunidades Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

E se alguém, neste País, resolvesse dizer o que efetivamente pensa?
Esta atitude de ser sincero é politicamente incorreta. Disse um dia Winston Churchill, com o espírito irreverente que era o seu timbre, que nunca se mente tanto como antes das eleições, durante a guerra e depois da caça.
Esse mesmo Churchill teve uma atitude interessante, no período imediatamente antes da II Guerra Mundial. Ele havia escolhido Hitler como seu inimigo direto, e o futuro havia de lhe dar razão. Muitos conservadores consideravam o regime nazi como o menor dos males: havia ordem nas ruas, os comunistas estavam neutralizados, os sindicatos domesticados. Mas Churchill era a nota discordante. Sobre Hitler, disse: se quisermos saber o que esse senhor pretende, vão ali à rua, e por um preço módico compram um livro chamado Mein Kampf (A Minha Luta), e ficam sabendo o que ele quer; não é segredo para ninguém.
Escândalo nas hostes conservadoras: Mein Kampf, pelo seu absurdo, só podia ser mera propaganda eleitoral, retórica populista que ninguém de bom senso levaria a sério. Só a partir de 1939 se compreendeu que aquilo era mesmo a sério. Como regra, entendamos que casos de declaração expressa das intenções não são abundantes.
Por outro lado, basta ao leitor consultar todos (e insisto no todos) os programas de todos (e insisto no todos) os partidos políticos para constatar que todos (e insisto mais uma vez no todos) têm como prioridade as classes sociais mais desfavorecidas.
O atual cancro da nossa sociedade é o desemprego. Não o decorrente de despedimento com justa causa, da reestruturação de empresas, de variações sazonais, de quebras na procura, ou outras causas inteligíveis. O desemprego que nos aflige deriva da especulação desenfreada, da desregulação financeira, da irresponsabilidade global erigida como dogma, enfim, do caos em que estamos mergulhados.
Por isso me parecem particularmente interessantes as palavras do atual Primeiro-Ministro: ”estar desempregado não pode ser um sinal negativo. Despedir-se ou ser despedido não tem de ser um estigma. Tem de representar também uma oportunidade para mudar de vida. Tem de representar uma livre escolha, uma mobilidade da própria sociedade”.
Sinal negativo, não é. Aparentemente, nos nossos dias, nem é sinal negativo ser apanhado nas malhas da Lei. Até parece que passou a ser uma forma de promoção nacional, dada a atenção da comunicação social para esses casos. Portanto, perder o emprego por si só não é nada – mesmo que isso derive de alguma atividade ilícita.
Estigma, também não é. Sendo que a esmagador massa dos desempregados deste País sempre cumpriu com as suas obrigações laborais e profissionais, não lhe pode ser assacada a responsabilidade pela situação criada.
Oportunidade de mudar de vida, é líquido. Passar ao desemprego, deixar de pagar impostos, deixar de produzir, ficar sem casa, não poder garantir o sustento ou o estudo dos filhos, tudo isso são claríssimas oportunidades de mudar de vida. Talvez mesmo a oportunidade de meditar sobre a renúncia às coisas do mundo, tal como entendiam S. Francisco de Assis ou Mahatma Gandhi.
Só não se pode concordar com a livre escolha. Adlai Stevenson, antigo Secretário de Estado dos EUA, disse um dia que, se o povo tiver de escolher entre Democracia e Sanduíches, escolherá Sanduíches. Isto porque não terá livre escolha, já que o instinto de conservação do indivíduo é muito forte, mesmo mais forte do que o da conservação da espécie.
Já quanto à mobilidade própria da sociedade, não se poderia melhor definir o nosso espírito aventureiro, o que nos guiou nos Descobrimentos, que esteve na origem da nossa diáspora, que criou o luso-tropicalismo tão caro a Gilberto Freire.
Aliás, os recentes apelos à emigração (desta vez qualificada) vão nesse sentido.
Portanto, não compreendo o tumulto criado à volta da declaração do Primeiro-Ministro.
Então, já não se pode dizer o que se pensa?

Nuno Santa Clara

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção