Da fábrica que falece…Por Nuno Santa Clara
Barreiro
E a besta anda aí à solta, que nem nas San Fermines de Pamplona.
Portanto, a “fábrica que falece” bem pode ser uma praça de touros…

Por Jornal Rostos
Não! Não se trata da agonia do parque industrial do Barreiro, essa morte lenta da qual todos temos a dolorosa consciência, e para a qual se tem procurado muitas e variadas explicações, mas “tão concreta e definida, como outra coisa qualquer”; se não está morto, está moribundo, e é essa realidade incontornável que está em causa.
O título deste artigo tem a ver com Francisco de Holanda, humanista e pintor português (1517?-1585), autor da obra “Da fábrica que falece à cidade de Lisboa”, datada de 1571, na qual o autor tece uma série de considerações, desde a fortificação da cidade ao abastecimento de água.
Ora, o Barreiro tem decerto obras que lhe falecem, ou seja, em linguagem quinhentista, obras que seriam necessárias à cidade de Barreiro.
Será o abastecimento de água? Isso não, porque água temos, de boa qualidade (assim o dizem as análises), e em quantidade suficiente, pelo menos por agora.
Obras de fortificação? Tão pouco, não só porque a atual conjuntura não recomenda tais encargos, como as fortificações, diz-nos a História, não são garante absoluto de coisa nenhuma.
Então, qual seria a obra que falta, ou seja, que falece ao Barreiro?
Pois bem, uma praça de toiros!
Não porque eu seja um ferrenho aficionado, ou porque as terras vizinhas dispõem de tal infra-estrutura (a inveja também pode ser motor da mudança).
Mas porque, na tauromaquia, há duas grandes lições a tirar, e ambas na lide apeada, ou seja, ao alcance de qualquer plebeu.
Uma é a do toureio com o capote, ou com a muleta: tendo o toiro à sua frente um homem, minúsculo e vulnerável, exposto a ser sumariamente morto com uma simples colhida que lhe perfure a artéria femural, o toiro marra contra o engano, contra aquele bocado de tecido, atrás do qual não há nada.
Outra é a pega de caras, para mim arte suprema da tourada à portuguesa, em que oito valentes desafiam meia tonelada de força bruta. A coragem e a decisão, a par do saber fazer, resolvem o assunto.
Duas belas lições para a vida corrente, e em particular para a ação política: umas vezes pelo engano, outras vezes pelo afrontamento direto, conforme as circunstâncias. Mas sempre com o fito de dominar a besta.
E a besta anda aí à solta, que nem nas San Fermines de Pamplona.
Portanto, a “fábrica que falece” bem pode ser uma praça de touros…
Nuno Santa Clara














