A pulga surdaPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Era uma vez um cientista, formado nas melhores universidades, detentor de várias pós-graduações, que encetou um profundo trabalho de pesquisa.
Primeiro, domesticou uma pulga. E o inseto colaborou inteiramente, a ponto de obedecer à voz do cientista. Quando este dizia “salta, pulga” a pulga saltava.
Depois, o cientista aprofundou e experiência. Talvez com uma ponta de maldade, justificada pelo amor à ciência, cortou as duas patas da frente à pulga. Em seguida disse “salta, pulga”, e a pulga saltou.
Continuando a experiência, cortou as duas patas do meio (perdoai-lhe o sadismo, a ciência a isso obrigou). Novamente disse “salta, pulga” – e a pulga saltou!
Aprofundando ainda mais a experiência, cortou as duas patas de trás (esqueçamos a malvadez). Novamente, ordenou “salta, pulga”, mas a pulga não saltou. Repetiu a ordem uma e outra vez, e nada de resposta.
Então, o ilustre cientista concluiu: quando se cortam as patas à pulga, ela deixa de ouvir.
Assim vão os sábios que conduzem os nossos assuntos. Recentemente, a Troika manifestou-se perplexa com o aumento de desemprego e com o crescimento negativo da economia, quando esses seriam naturalmente, aqui ou em qualquer parte do mundo, os resultados das políticas aplicadas.
Tal como a pulga, não saltamos – surdos aos bons conselhos, portanto por culpa nossa.
Por outro lado, vem da Alemanha a notícia da necessidade urgente de aumentar a despesa pública, para relançar a economia. Receita quase centenária, que não deveria admirar ninguém.
O problema está em que, na Alemanha, em vez de cortar as patas à pulga, até lhe querem acrescentar mais patas.
Nuno Santa Clara














