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Quotidianos

Das orgulhosas viasPor Nuno Santa Clara
Barreiro

A questão está no aproveitamento que certos conjunturais salvadores da Pátria fazem desse sentimento profundo, dessa constante crença num destino ímpar para os portugueses.

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Das orgulhosas vias Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Portugal (como qualquer comunidade) tem as suas constantes. Os cínicos referem os três F (Fátima, Fado e Futebol), mas esses fenómenos têm menos de um século (exceto o fado), e como tal não podem ser considerados constantes. O que verdadeiramente conta são as pulsões profundas, que ao longo da nossa História de quase nove séculos vão vindo à superfície e condicionam as nossas atitudes – essas atitudes que para outros são inexplicáveis.
Na leitura dos nossos clássicos abundam os exemplos disso. Há sempre uma referência à nossa especificidade e ao nosso destino glorioso, embora envolto em brumas, tanto faz no Padre António Vieira como em Fernando Pessoa.
Naturalmente que esse sentimento é importante para a consolidação do nosso espírito nacional. Sem um mínimo de crença, para além da frieza da seca narração dos fatos e da ainda mais secante estatística, estaríamos condenados a viver na tal apagada e vil tristeza.
A questão está no aproveitamento que certos conjunturais salvadores da Pátria fazem desse sentimento profundo, dessa constante crença num destino ímpar para os portugueses.
No século XX (o dos três FFF) essa exploração atingiu o seu píncaro nos anos sessenta. Portugal estava isolado internacionalmente, padecia sob um regime repressivo anacrónico, um décimo da sua população estava emigrada, a guerra lavrava em três frentes, absorvendo mais de 40% do orçamento; mas, perante o coro das críticas universais, o nosso líder carismático, providencial e austero proclamava que estávamos “orgulhosamente sós”.
Caído o regime, acabada a guerra, havia que reconstruir o País e a sua economia; mas eis senão quando, perante algumas opções erradas, não suportadas por nenhuma doutrina ou corrente de pensamento com resultados no terreno, houve logo quem descobrisse que tínhamos encontrado uma “via original para o socialismo”.
Virada a página para o século XXI, aí temos o velho demónio novamente à solta. A receita ultraliberal falhou em toda a parte – o que não significa que não se tente aplicar a Portugal. Aumentar os impostos (com a consequente perda do poder de compra), provocar o desemprego e a precariedade (com a consequente baixa da massa salarial e dos impostos aí cobrados), desregular o já desregulado mercado da habitação (com a natural contração do investimento), a par do aumento de encargos com o desemprego, só podem conduzir à diminuição da cobrança fiscal e ao aumento da despesa.
Então, como designar esta nova linha de pensamento, ao arrepio de todas as escolas e práticas?
Baseado nas experiências do século XX, haveria que combinar o “orgulhosamente sós” com a “via original para o socialismo”.
Qualquer coisa como “originalmente sós nesta via orgulhosa”, ou “orgulhosamente originais na via do liberalismo”.

Nuno Santa Clara

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