PatrimónioPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Há conceitos que, sendo aparentemente simples, desencadeiam uma torrente de definições e interpretações, capazes não só de fazer correr rios de tinta (e atualmente milhões de megabytes), mas também de criar conflitos, romper amizades, ou mesmo de suscitar ódios insanáveis.
Por isso, recorri à Internet para uma definição de Património. Pareceu-me uma definição incolor, inodora e insípida, tal com a água, aquela H2O que serve para tudo, desde a mais elementar possibilidade de vida até à definição de densidade, de peso, de caloria, etc. Com esta abrangência, não corro risco de ser contestado.
Património, neste conceito, é um conjunto de bens, materiais ou imateriais, que devem ser considerados de interesse relevante para a permanência e identidade da cultura de um povo.
Simples? Parece bem que sim. Estão aqui contidas muitas ideias chave: bens, materiais, imateriais, interesse, permanência, identidade, cultura, povo.
O Barreiro tem naturalmente um Património. E não interessa se é grande, pequeno, rico, pobre, antigo ou novo: é o que existe, e representa a sua cultura, substancializada em bens materiais e imateriais, cuja permanência é importante, garante da identidade, definidora de um povo.
As fúrias da modernidade são o maior inimigo do Património. Um bom exemplo é Bruxelas, esse farol que nos guia e impõe regras, mas que é o melhor caso de estudo da destruição de Património. A ponto de ter dado origem a um neologismo: bruxelizar. Significa destruir tudo o que é antigo e fazer de novo, em nome do Progresso (?). Quem conhece aquela cidade compreende a justeza deste neologismo.
Mas o curioso é que noutros pontos da Bélgica a preservação do património é um fato. Basta visitar Antuérpia, Bruges ou Gand para ver a diferença.
Um caso interessante é de Leuven (em francês Louvain e em português Lovaina), cidade com uma das mais antigas e prestigiadas universidades da Europa, por onde passaram Erasmo e Damião de Góis. Parcialmente destruída durante a II Guerra Mundial, dilacerada pelas querelas linguísticas, que provocaram a sua divisão, a Universidade Católica de Lovaina continua a ser uma referência, não só na Europa, mas em toda a América Latina e em África, sobretudo na francófona.
Qualquer cidade universitária tem de encarar o problema do alojamento dos estudantes, com soluções que vão de centros de acolhimento, residências especializadas, pensões de vários tipos e por fim as célebres repúblicas, tão típicas de Coimbra, que têm algo de equivalente nos “cot” belgas.
Ora, na Bélgica existe outra instituição tradicional, o “beguinage” (em flamengo begijnhof), bairro fechado por um muro onde se recolhiam mulheres, sem estar sujeitas a votos religiosos, ali vivendo protegidas do mundo, das guerras e das convulsões sociais. Os beguinages foram reconhecidos como Património Mundial pela Unesco.
E que fazer com este património? Museus, como em Bruges? Ou sítios habitados?
Foi esta última a solução de Lovaina. O seu grande beguinage foi recuperado e transformado em residências de estudantes e de professores da Universidade.
Aqui soa-nos a algo já conhecido. A recuperação de muitas casas do bairro da CUF, em Santa Bárbara, vai no mesmo sentido. Ali se vão alojando muitos estudantes angolanos, e a iniciativa terá garantido a preservação de um património para o qual seria muito difícil encontrar financiamento por outras vias.
Penso que se trata de uma forma racional, económica e sobretudo rica em presença humana de preservar o nosso Património. Outras iniciativas semelhantes podem ser tomadas, em relação ao Bairro da Câmara ou ao Barreiro Velho. Pequenas casas pouco próprias para famílias numerosas podem ser reconvertidas em residências de estudantes, ou residências temporárias de professores.
No fundo, preservando o nosso Património, no que tem de bens materiais, com interesse para a permanência da identidade e cultura do povo barreirense.
Mas nem só de Património material se trata. Confesso que quando foi anunciada a vinda de algumas centenas de estudantes para um sítio específico do Barreiro, receei várias coisas: que se viesse a constituir um ghetto, ou um bairro separado; que os estudantes dessem largas à estroina, à boa maneira portuguesa; que não se misturassem com os barreirenses; ou que entrassem em conflito com a população local.
Pois bem, nenhum desses receios se materializou. Os estudantes angolanos, aparentemente, estão aqui como em casa; de estroina, nem ameaços (até serviriam de exemplo para as nossa universidades); são aplicados, ao contrário de muitos dos nossos conterrâneos, que parecem considerar o ensino superior com o mesmo espírito displicente do ensino obrigatório; e trouxeram mais juventude, a um bairro com tendência para o envelhecimento.
O património cultural do barreiro resultou de muitas culturas que aqui desembocaram, neste cruzamento de rio com o mar, de barcos com comboios, de fábricas com transportes, de camponeses com operários; esta nova leva deverá trazer novos valores, não só de cultura no seu abstrato, mas também em coisas mais correntes, como música ou culinária. Mas os angolanos também levarão com eles um pouco do nosso Barreiro, como sempre levaram todos os estudantes de Coimbra ou de Lovaina, de regresso à sua província ou ao seu País distante.
Em suma, enriquecerão o seu e o nosso Património.
Nuno Santa Clara














