Um século da indústria corticeira no concelho de MontijoPor José Bastos
Um século depois é quase nula a importância da indústria da cortiça para o concelho de Montijo.

Por Jornal Rostos
A indústria da cortiça instalou-se nos fins do século XIX, nas localidades da margem sul do Tejo, para estar perto do porto de Lisboa, já que a quase totalidade da cortiça se destinava à exportação. A cortiça em prancha ou transformada seguia em fragatas pelo Tejo para os navios.
Em 1910, instalou-se em Aldeia Galega,perto da estação da CP, a firma de capitais alemães, Bruchuall, Scholtz e Companhia, a quem a população chamava o “Choça”. Era uma grande empresa que preparava cortiça em prancha para exportação.
Em 1916, chegou a Aldeia Galega a empresa Mundet & Cia, com sede no Seixal, que se instalou aqui para fabricar aglomerados de cortiça. Esta empresa que pertencia a José Mundet , empregava à volta de duzentos trabalhadores. A firma Mundet tinha médico e enfermeiro e oferecia brinquedos aos filhos dos operários no Natal o que constituía uma novidade no meio operário. Também tinha uma carrinha que transportava os empregados de escritório do centro da Vila para a fábrica.
A Câmara de Montijo, nos anos sessenta, quando o poeta José Joaquim Caria era vereador da toponímia, homenageou o proprietário desta firma, dando o seu nome a uma rua da cidade.
Em 1929, iniciou a sua actividade em Aldeia Galega, a firma Pablos & Tavares, Lda, que se dedicava à cozedura e transformação de cortiça e que chegou a empregar mais de mil trabalhadores. Esta fábrica foi a maior do Montijo de todos os tempos. Centenas de operários vieram de Silves para trabalhar para esta empresa.
A fábrica do “Tavares”, nome porque era conhecida da população, depois da saída do António Rodrigues Tavares e dos filhos, da firma, passou a denominar-se Pablos, Lda.
Os Pablos que sempre viveram em Lisboa ficaram a ser os únicos sócios da Firma. O dr. José Pablo tirou o curso de medicina, mas nunca exerceu.
Lembro-me também da firma Francisco Beatriz & Filhos, o Beatriz da calçada, que também transformava a cortiça, empregava muitos trabalhadores e faliu nos anos cinquenta do século passado.
Existiu uma grande fábrica de espanhois José Peics (herdeiros), a fábrica do Peixe, como era conhecida da população.
Os Tavares eram algarvios de Faro, o Jorge Rodrigues Tavares ainda é vivo e existem cá na Terra muitos descendentes.
Foi no entanto, de São Braz de Alportel que se deslocou para Montijo, nos anos trinta e quarenta do século passado , uma grande quantidade de famílias algarvias , para aqui instalarem as suas fábricas de preparação de prancha para exportação, trazendo consigo a grande experiência que tinham adquirido na sua terra na fabricação de cortiça. Arderam este ano milhares de hectares da serra algarvia de São Braz de Alportel que produz a melhor cortiça do mundo.
As pessoas que vieram de São Braz de Alportel, contribuíram em muito para o desenvolvimento de Montijo. Eram empresários que viviam no Montijo e que muito contribuíram para criar postos de trabalho e aumentar o número de pessoas da classe média.
Existem no Montijo ainda vivas muitas pessoas que vieram de São Braz e descendentes há por aí às centenas.
Os nomes: Beatriz, Mendonça, Afonso, Caiado, Douradinha, Pinto, Braz, Viegas, Gonçalves, Arroja, Neves, Barreira, Horta, Alves, Eusébio,Louro, Cabrita, Guerreiro, Mousinho, Gago, são apelidos de pessoas que vieram de São Braz de Alportel.
Também tiveram importância na vida do nosso concelho as fábricas de aglomerados de cortiça que aqui existiram: Sopac, Infal, Robison.
Só existe uma fábrica de cortiça dos homens que vieram de São Braz, a firma Carvalho, Lourenço & Braz, Lda. E mais quatro ou cinco empresas.
A transformação de cortiça, uma indústria de mão de obra intensiva, tinha sempre muita dificuldade em competir com as pequenas do Norte do país, porque a maior parte destas empresas não descontavam para segurança social e empregavam menores.
Um século depois é quase nula a importância da indústria da cortiça para o concelho de Montijo.
José Bastos














