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Quotidianos

A seca milagrosa.Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Nada que lance o alarme numa sociedade empenhada em discutir ideologicamente o euro, as privatizações, a necessidade de uma revisão constitucional, e assim se vão tirando coelhos da cartola para gáudio do Povo.
Porque o que vai acontecer é que, finda esta fase, os portugueses vão descobrir que o país mudou de mãos, à semelhança das leiras alentejanas castigadas pela seca.

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A seca milagrosa. Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Este título pode parecer de muito mau gosto, se não ofensivo, para os portugueses que sofrem uma das piores secas que há memória. Mas não se trata, minimamente, de tirar partido da desgraça coletiva – embora haja quem o faça, como veremos.
O Sul de Portugal, que grosso modo se pode considerar como Alentejo, teve um povoamento de origem diferente do Centro e Norte. Não por fatores étnicos, mas sim pela sua origem. Ao contrário do Norte, e parte do Centro, foi deliberadamente despovoado por cristãos e mouros, para impedir o inimigo de se estabelecer – e consequentemente reabastecer – qualquer das partes.
Isto transformou o Sul numa terra de presúria, em que a força das armas determinava o dono, e os reis concediam aos seus grandes vassalos e Ordens Religiosas largas extensões de terreno, que eles naturalmente não trabalhavam diretamente. Assim nasceu a grande propriedade, que associada ao regime de morgadio (só o filho mais velho herdava), permaneceu até à extinção dos vínculos (morgadios e capelas) decorrente da Revolução liberal.
Redistribuição de terras? A princípio, foi; os endividados morgados foram obrigados a dividir e vender as terras para pagar as dívidas.
Mas a terra tem os seus ciclos. A cada período de seca, seguia-se a falência do pequeno proprietário, e sua aquisição por quem tinha poder de compra, e não tinha dificuldade em aguentar maus anos agrícolas.
Daí que, para a concentração da propriedade, uma boa seca vem a calhar. E, portanto, pode-se lucrar com a desgraça alheia.
Esta imagem pode muito bem ser transcrita para o atual panorama económico e financeiro. Quem tiver reservas, ou apoios, há de singrar e aumentar drasticamente a sua fortuna. Assim o demonstra a alta de vendas de viaturas topo de gama.
Um exemplo comezinho é o que se passa com as casas devolutas, e entregues aos Bancos. Muitas delas já estavam parcialmente pagas, e pagos juros que ultrapassam largamente o valor da casa. Devolvidas ao Banco, tudo se perde: amortização e juro.
Resta ao Banco tornar a vender as mesmas casas. Como a história dos pombos-correios: vende hoje, à noite estão de volta, amanhã torna a vender.
Claro que isto pressupõe que a Banca tenha liquidez para aguentar o retorno maciço das casas, ainda por cima com um mercado deprimido.
É aqui que entram as garantias, os empréstimos, as dívidas soberanas, e toda essa verborreia que nos entra diariamente em casa. Garantidas as reservas e a liquidez, a Banca tem todo o tempo para vender as casas, pelo mesmo método, ou seja, recebendo o triplo do que elas valem, sem ter gasto um tostão com elas.
Se Barack Obama perder as eleições, será precisamente por aí: nunca conseguiu esclarecer os cidadãos da pátria do Capitalismo porque é que dinheiros públicos salvaram empresas privadas – ainda por aquelas que, pelas usas práticas especulativas, tinham dado origem à crise.
O que se irá passar em Portugal? Não é preciso ser bruxo, vidente ou apenas economista.
Se fizermos uma analogia com a guerra (e isto é uma guerra!) na classificação clássica da era soviética, quando dois países capitalistas entravam em conflito, este era designado como uma “guerra de redivisão”. E assim era: o choque de dois imperialismos.
Algo semelhante se passa entre nós. Subterraneamente, sem comunicados, sem declarações, nem mesmo operações conhecidas. Aqui e ali, no entanto, aparecem “indícios técnicos”, como se diz na gíria militar. O caso da televisão, o caso das redes telefónicas, o caso da espionagem…
Nada que lance o alarme numa sociedade empenhada em discutir ideologicamente o euro, as privatizações, a necessidade de uma revisão constitucional, e assim se vão tirando coelhos da cartola para gáudio do Povo.
Porque o que vai acontecer é que, finda esta fase, os portugueses vão descobrir que o país mudou de mãos, à semelhança das leiras alentejanas castigadas pela seca.

Nuno Santa Clara

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