Agarrem-me, se não demito-me!Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Uma das atitudes mais típicas de muitos portugueses, quando confrontados com uma provocação direta e não escamoteável, é olhar em redor e, se tiver o conforto da presença de alguns amigos (em número e qualidade julgados suficientes), bradar bem alto: Agarrem-me, se não eu bato-lhe!
Felizmente para a nossa paz social, essa atitude é normalmente correspondida de forma simétrica pela parte contrária, pois o adversário assim ameaçado também dispõe de alguém por perto que o impede de se lançar na refrega.
Deste modo, vociferando, esbracejando e esperneando, as duas partes vão sendo mantidas fora do contato físico, evitando-se as vias de fato que têm o aspeto negativo de deixar marcas (nódoas negras, olhos pisados, mesmo alguma lesão mais grave).
Sábia atitude esta, a do nosso Povo, que assim criou um método eficaz daquilo que hoje se chama a prevenção de conflitos. Assim o entendessem as Nações, ou outros grupos sociais com tendência para o tumulto ou mesmo para a violência: ficando-se pelo gesticular, poupar-se-iam muitas vidas humanas e muitos bens materiais e imateriais.
E o conceito nem é novo: em termos de Relações Internacionais, a expressão “gesticular” significa precisamente demonstrar, por um conjunto de atitudes, declarações, movimentações de tropas ou de multidões, que uma das partes tem uma intenção, e poderá correr riscos para atingir esse intuito.
O pedido de demissão também pode ser uma forma de gesticular. Mas nem sempre. A História dá-nos muitos exemplos disso – de demissões pedidas, aceites ou não.
Um caso clássico foi o marechal Walther von Brauchitsch, o comandante das forças terrestres da Alemanha de Hitler. Vencedor na frente polaca, em Setembro de 1939, e na frente francesa, em Maio-Junho de 1940,conta-se que, quando as coisas começaram a correr mal na frente russa, o respeitado marechal pediu a demissão. Hitler, antigo cabo numa guerra em que o outro tinha sido major, perguntou-lhe se os simples soldados pediam a demissão, quando as coisas corriam mal…
O assomo de Hitler pode ter o seu quê de demagógico, mas é uma boa imagem das envolventes de uma atitude que tem sempre consequências, e que normalmente marca para a posteridade, quem a tomou.
Transpirou para o grande público que o Primeiro-Ministro tinha aventado a hipótese de demissão. Dadas as circunstâncias, até teria pretexto: as manifestações do passado fim-de-semana não podem deixar ninguém indiferente.
Mas esta fuga (?) de informação (que me perdoem alguma perversidade) tem um certo sabor à atitude acima referida. Que se saiba, ninguém do seu lado o quer ver demitido. E, do lado contrário, não haverá muitos interessados em tirar as castanhas do lume, e portante, os apelos à demissão são escassos.
Donde fica um certo sabor (ou antes, um travo) daquela nacional tendência para evitar as atitudes drásticas.
Só que, desta vez, a frase teria sido “agarrem-me, se não demito-me”.
Nuno Santa Clara














