Uma terra chamada barreiroPor Rosalina Carmona
e com ele, uma parte fundamental da história desta terra, e de portugal, desaparece.

Por Jornal Rostos
Texto que fiz há dias quando tomei conhecimento da notícia do encerramento das Oficinas Gerais do Barreiro e li, por solidariedade com os trabalhadores ferroviários, em nome do Movimento Cívico para a Salvaguarda do Património Ferroviário no Barreiro, na Tribuna Pública realizada sábado dia 22 de Setembro no Barreiro.
uma terra chamada barreiro
era uma vez uma terra chamada barreiro, que até meados do século xix vivia na idade média e de repente, com o comboio, entrou na modernidade. uma terra que cresceu e se desenvolveu graças ao caminho de ferro, sim, que o comboio sempre foi, e ainda é, modernidade e progresso. e graças às populações que aqui afluíam em busca de trabalho, o barreiro era uma terra de promessas.
e no comboio chegava o trigo, das grandes planícies do sul alentejano e muitos, muitos alentejanos, que consigo traziam a sua fala do sul. e é por isso que, às vezes, os barreirenses parecem alentejanos na fala. e chegava também a cortiça, que de comboio vinha. e nos comboios de carga, escondidos, muitos algarvios. e depois já vinham com bilhete. e outros a pé, pela linha. até ao barreiro.
mas com o comboio chegou, também, a mais moderna exploração capitalista. e nessa terra construíram-se fábricas. o alfredo da silva construiu muitas fábricas. e o barreiro tornava-se, segundo os manuais "a mais moderna vila industrial". nunca se questionando, esses manuais, acerca das condições de vida, miseráveis, dos operários, nos bairros de barracas entre o lavradio e a baixa da banheira. só em 1948 eram mais de 480 barracas, uma enxovia imensa, onde cresciam crianças e se desenvolviam doenças. xangai, assim lhe chamavam.
e a cuf desenvolvia-se e a exploração intensificava-se e a resistência ao fascismo também. e as prisões enchiam-se de corticeiros, ferroviários e outros operários.
e as altas fábricas do maior potentado capitalista da península ibérica prosseguiam, vomitando gases e fumos venenosos, que tudo queimavam: hortas e pulmões.
e as oficinas alargavam-se e metiam sempre mais gente, chegaram a ser 2000. tocava a buzina às 6 da tarde e as ruas vestiam-se de ganga azul. às segundas feiras cheirava a ganga lavada.
e o comércio crescia e desenvolvia-se. e alguns filhos de operários já chegavam às universidades e davam excelentes engenheiros.
esta é uma história de um barreiro que começou com o caminho de ferro.
agora vão encerrar as oficinas gerais do caminho de ferro.
e o caminho de ferro, que tudo movimentou no barreiro, acaba.
e com ele, uma parte fundamental da história desta terra, e de portugal, desaparece. quando os terrenos das oficinas forem urbanizados, para mais especulação urbana todos ficaremos mutilados, se desaparecerem as oficinas, o belíssimo edifício da estação fluvial, a rotunda das máquinas, o bairro ferroviário, o armazém de víveres, a estação do lavradio, que já toda alterada foi, a ponte pedonal do bairro das palmeiras...
e sem os ferroviários...!!!
o que vai ser o barreiro!?, sem os ferroviários!?...
esta é a questão do momento, para a qual eu não tenho resposta, nem sei se alguém aqui a tem. eu, a única resposta que posso dar é esta: solidarizar-me com os ferroviários do barreiro nesta luta.
e lembrar que o Movimento Cívico editou a Rota do Património Ferroviário do Barreiro e no dia 16 realizámos, em conjunto com a Associação IbikeBarreiro, um passeio de bicicleta pela maior parte destes locais, chamando a atenção para a importância histórica do caminho de ferro no Barreiro para o problema que se coloca actualmente com o encerramento do Pólo Ferroviário no Barreiro.
e lembrar que no dia 29 lá estaremos, como sempre!
rosalina carmona
investigadora de história local
Movimento Cívico de Salvaguarda do Património Ferroviário do Barreiro














