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Quotidianos

Retalhos da vida de um cidadãoPor Nuno Santa Clara
Barreiro

Os curandeiros da Economia (?) são peritos em informática, poliglotas, pluridiplomados, mas sofrem do mesmo mal: o remédio é sempre o mesmo: corta, sangra, deixa correr… Tal como o bruxo de Namora, o que uma vez deu certo, tem de dar certo para sempre, qualquer que seja a doença, o diagnóstico, a infeção, eu sei lá que mais variantes.

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Retalhos da vida de um cidadão Por Nuno Santa Clara Barreiro

Por Jornal Rostos

Por vezes, chego a pensar que seria excesso de otimismo esperar que muita gente se lembre dos “Retalhos da vida de um médico”, de Fernando Namora, sobretudo da primeira série, passada no mundo rural – aquele meio rural que foi a fonte da inspiração da maior parte dos escritores portugueses da primeira metade do século XX.
Talvez se lembrem melhor de uma série televisiva inspirada nessa obra literária. Paciência; é sinal dos tempos.
Fernando Namora, médico por vocação e profissão, conheceu a realidade do Portugal profundo. Do curandeiro e do seu equivalente político, o cacique local. E, homem de formação científica, doía-lhe constatar o prestígio do curandeiro, face aos esforços da Ciência para penetrar naqueles meios.
De uma forma magistral, definiu a grande diferença entre ambos: o curandeiro mede-se pelos êxitos, e o médico pelos fracassos. Mas o próprio Namora explicava o porquê: um médico é o produto de longos estudos, sim, mas alcance de qualquer bisonho estudante aplicado; o curandeiro nasce com esse dom, por desígnio da Providência, e os seus pergaminhos não se contestam.
Porém, tem acontecido que alguns escolhidos pela Providência – mais um sinal dos tempos! – se sentiram obrigados a pedir equivalências para formalizar dons naturais congénitos que, na verdade, não deveriam ser contestados, dada a sua origem transcendente. De certo modo, da mesma forma que ninguém se lembrou de levantar a questão das habilitações de Jesus Cristo, pese embora aquele show off que Ele deu no Templo, aos doze anos de idade.
Ora, Fernando Namora narra, num dos seus contos, a estória de um curandeiro que um dia, para tratar de um caso de histeria, recorreu a uma sangria. O caso resolveu-se, e a partir daí, a receita era sempre a mesma: cortar, e deixar correr. Estivesse o doente tísico, cardíaco, ou com cólicas, o remédio era sangrar.
Os curandeiros agora são mais refinados; o mesmo Namora dizia que os curandeiros da cidade até davam injeções na perfeição.
Os curandeiros da Economia (?) são peritos em informática, poliglotas, pluridiplomados, mas sofrem do mesmo mal: o remédio é sempre o mesmo: corta, sangra, deixa correr… Tal como o bruxo de Namora, o que uma vez deu certo, tem de dar certo para sempre, qualquer que seja a doença, o diagnóstico, a infeção, eu sei lá que mais variantes.
Se no Chile deu certo (por curto período e a que preço!) porque não na Europa? E, se der para o torto, a culpa não é do curandeiro das finanças, o iluminado da Providência: é do povo que não merecia tal líder – a mesma reflexão amarga de Hitler nas ruínas do Reichstag.
Estamos a desenvolver um complexo; não de superioridade, de povo escolhido, como no tempo de Salazar; não de inferioridade, como nos querem impingir de fora; mas o complexo de cobaia, de seu nome científico cavia porcellus, porco-da-índia, guinea pig, o que quiserem, mas um bicho destinado, por fatalidade, a servir para experiências científicas, sem que o dito animal fosse chamado a pronunciar-se sobre o seu destino.
A classificação de bom aluno vem daí; tal como a cobaia, vão-nos sangrando, injetando, dissecando, amputando, sempre a ver “o que é que isso dá”. Se der, é uma glória; se não der… foi uma experiência válida.
Dentro do espírito científico, há sempre uma discussão sobre justificação deontológica de certas experiências. Até porque é sempre de desconfiar de quem não pauta as suas experiências por princípios éticos. Afinal, estamos a trabalhar para os Homens, e não para a banca ou para laboratórios químicos. As experiências do Dr. Mengele em crianças judias não levaram naturalmente a lado nenhum, a não ser denegrir a nação alemã.
Tudo isto estaria muito bem, no plano teórico; mas não podemos esquecer os donos das cobaias, aqueles que, aconteça o que acontecer, irão ganhar com o negócio.
Com a agravante de que, desta vez, foram as cobaias que escolheram o seu próprio destino, votando nos proprietários…

Nuno Santa Clara

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