Saltar para o conteúdo
Quotidianos

Manuela Fonseca crónicas da vidaPor Rosalina Carmona
Barreiro

E sempre, nas suas crónicas a memória e a denúncia do tempo negro do terror, da censura, que Manuela Fonseca desejaria «escrever com tinta invisível» e que deixou marcas na sua infância.

6 min de leitura
Manuela Fonseca crónicas da vida Por Rosalina Carmona Barreiro

Por Jornal Rostos

Conheço Manuela Fonseca mais ou menos desde que cheguei ao Barreiro, vai para 30 anos. Não tivemos proximidade inicial, por força das circunstâncias, da vida, cada uma de nós tinha os seus percursos.
Tomei contacto com a sua actividade criativa e literária através da revista “Um olhar sobre o Barreiro”, onde li alguns dos seus escritos. Mas conhecia a Manuela, sobretudo através de amigos comuns. Era eu, então, cantoneira de limpeza e aprendiz de historiadora.
O primeiro contacto, mais próximo e directo, que tivemos ocorreu quando convidei Manuela Fonseca para escrever o prefácio do meu livro “…do Barreiro ao Alto Seixalinho Um passado rural e operário”, em 2005. Nessa altura comecei eu à busca de uma escrita em que o resgatar da história não fosse um mero exercício académico, seco, quase impessoal, mas uma tentativa de interpretar o tempo e a memória em contextos não imunes aos afectos. Penso que o compreendeu Manuela Fonseca - e isso lhe agradeço - e o seu prefácio, onde fala das suas origens e me escreve como trabalhadora intelectual, categoria que muito me sensibilizou a mim que já me sentia uma operária, também das palavras, ajudou e enriqueceu os meus propósitos.

Desse contacto, que amiudado se tornou e por vezes íntimo de inquietações, descobri a Manuela Fonseca que, ainda hoje conheço e a meus olhos surge como:
Uma mulher enlevada na vida e sempre com urgência de a viver. Uma sobrevivente, como de si própria diz: «cá continuo com a teimosia da sobrevivência.»
Eu diria antes que Manuela Fonseca não é uma sobrevivente, é sim uma resistente.

A Manuela Fonseca é esta mulher cidadã que já aqui nos foi apresentada, não vou por isso repetir, o que dito foi.

Direi apenas que fiquei muito feliz, quando soube que lhe foi atribuído o galardão Barreiro Reconhecido.

Nas suas crónicas, Manuela Fonseca fala do seu tempo, conta dos seus afectos e paixões, de um modo geral pelo Barreiro e pelos barreirenses, não se furtando a identificar alguns (eu incluída) com palavras generosas e fraternas.

Considero as crónicas de Manuela Fonseca de uma grande honestidade intelectual, já que sempre dizem ao que vão: não se ocultam em subterfúgios.

Com o mesmo entusiasmo, fraternidade e ternura solidária com que fala dos seus amigos, da sua profissão, da educação, do associativismo, do teatro, de literatura, faz um enérgico“toma!” à boa maneira de Bordalo, à doença e ao desânimo.

Nas suas crónicas encontramos a pedagogia do tempo feliz, a grande alegria do 25 de Abril e a construção de um tempo novo.

«Pertenci a esse grupo, enorme, que ousou tentar mudar Portugal; por mim, o estudo e o trabalho ao mesmo tempo não foram prejudicados pelas manifestações, nas horas de júbilo (tantas!) em que participei.
Fui com os sentimentos sociais, positivos, que aprendi na minha família, na minha terra, professora. Vi e colaborei num Portugal mais moderno e afortunado – apesar de tudo, ainda não o subtraíram por completo -, vi pais e avós construírem parques infantis, remodelar escolas, arranjar Sociedades de Cultura e Recreio. Vi o país ficar muito mais letrado, culto, solidário.»

E sempre, nas suas crónicas a memória e a denúncia do tempo negro do terror, da censura, que Manuela Fonseca desejaria «escrever com tinta invisível» e que deixou marcas na sua infância.
«(Criança, atravessara o então, salvo, seja, denominado Parque Oliveira Salazar, durante a Campanha Eleitoral do General Humberto Delgado para ir à casa da minha avó, pertinho.
Um susto no regresso com uma das tais fardas com boca a perguntar-me:”Para onde é a ida, minha menina?”, veículos repressivos na estrada a curta distância, eu a tremer até chegar ao pé do conforto materno.
Péssimas marcas deixam as ditaduras!)

Nas suas crónicas ressalta o entusiasmo por duas grandes paixões da sua vida: o Futebol Clube Barreirense e os comboios.

Identifico-me com a segunda, já que nunca gostei de futebol, mas não quero fazer-lhe a desfeita de não falar do seu amado clube. Escolhi uma passagem, que vou ler, em que mais que falar de futebol, fala do Barreiro no tempo da CUF.
«Claro que continuamos por saber as doenças que a poluição provocou a gerações de barreirenses e entendemos que uma investigação acerca das mesmas já deveria ter sido executada ou, pelo menos, pensada e em fase de execução. No entanto, “mais vale tarde que nunca”, pelo que a aguardamos.
Filha de ferroviário, viajava bastante de comboio e reparava na aflição das pessoas que não eram da nossa região quando aqui chegavam e ficavam desesperadas com os fumos que as altas bocarras lançavam, sem precauções.
E chegava a não ver as três equipas, em jogos no Manuel de Melo, tapadas por agressivas e malcheirosas nuvens gigantes, como numa altura, por certo a pior, num Barreirense-Beira –Mar dentro das quatro linhas gritava-se que nada se via.»

Sempre os comboios na sua escrita. A esta sua paixão encontramos referências várias, nas crónicas, mas respigo aqui uma passagem que acho de grande sensibilidade:
«(A verdade é que, bem pequena, ele, ele que deixou de saber andar sem mim, começou a levar-me para a Rotunda, as Oficinas, os Comboios e os Braços da CP. Acompanhavam-nos a minha mãe e a boneca “Fifi”. Como nos divertíamos todos!
(Não se acabaram, papá: o prazer de entrar numa carruagem, arrumar a bagagem - ainda que, no presente, tenha de pedir esse obséquio -, sentar-me, ver a paisage, e depois ler uma revista ou um livro, herança em que íamos do Barreiro a Vila Real de Santo António e daí para Mina de S. Domingos, terra dos Hortas. Depois de Vila Real, passávamos pelo Pomarão, em inesquecível barco que mostrava um rio, duas margens, dois países, duas pobrezas e a escassez de víveres; duas ditaduras.»
Por fim, gostaria de ler um excerto de uma das suas crónicas que, infelizmente, é o retrato da situação actual. A propósito do convite do primeiro ministro, às gerações actuais, para deixarem o nosso país, rumo à emigração. Com fina ironia Manuela Fonseca devolve o conselho à procedência.
«A Excelência e as que a acompanham saberão, têm de saber que nem emigramos nem somos tragados por qualquer mar ou rio. […] Lá por não servir para Primeiro-Ministro, o Dr. Passos Coelho é homem para refazer a vida noutro lado, voltar a uma actividade que domina e ser útil ao crescimento de um desses territórios amigos.
Pode levar os seus ministros e outros membros do governo e dos gabinetes […]
Nós Excelência(s) ficamos: pelos antepassados, pelas convicções, pelo que fizemos, enquanto orgulhosos profissionais docentes, no crescimento de Portugal, durante a esperança de Abril.
Querem acabar com este velho e respeitável Portugal?
Não conseguem fazê-lo.)»

As boas crónicas são assim: retratos do seu tempo. Portas que abrimos no tempo e entramos lá dentro, ferramentas de trabalho para o investigador, ou simplesmente exercícios literários, onde nos revemos e reconhecemos. Isso, são as crónicas da Manuela Fonseca
Obrigado Manuela

Rosalina Carmona

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção