Outra parábola - BarreiroPor Nuno Santa Clara

Por Jornal Rostos
Segundo o Evangelho de S. Lucas, contou Jesus esta parábola:
Um homem rico tinha um feitor que foi acusado de dissipar os seus bens. Então, chamou-o e pediu-lhe conta da sua gerência, pois a partir desse dia deixaria de ser gerente.
Então pensou o feitor: que será de mim, se me tirarem a gerência dos bens? Não posso cultivar a terra e tenho vergonha de mendigar!
Chamou então os devedores do seu senhor, e foi-lhes perguntado: quanto deves? E um respondeu: cem medidas de azeite. Disse o feitor: senta-te depressa e escreve cinquenta. E a outro: quanto deves? E ele respondeu: cem medidas de trigo. Disse o feitor: senta-te e escreve oitenta.
E louvou o Senhor o feitor infiel, porque os filhos do mundo são mais hábeis na conduta dos negócios do que os filhos da luz.
Para os crentes, as palavras do Evangelho são eternas; para os não crentes, podem e devem ser um bom motivo de meditação. Ao fim e ao cabo, todos os valores que enformam a nossa sociedade atual têm a sua raiz no cristianismo.
Vamos tentar transpor para os nossos dias esta parábola, com linguagem atualizada.
Havia um dirigente nomeado (por eleição ou escolha, tanto faz) para gerir os bens públicos. Não que fosse grande gestor, mas essa qualidade não tem sido critério de escolha para os cargos públicos, e nem só.
Força é dizer que as coisas públicas não andavam bem, e por isso foi ele escolhido para a nova gestão.
E por isso, em vez de tratar com devedores, teve de tratar com credores do seu senhor.
Tal como o feitor infiel, o nosso dirigente pensou que tinha quatro anos para exercer o seu contrato, e que, no ponto em que as coisas estavam, dificilmente o seu contrato seria renovado.
Que se lixe o contrato, pensou ele consigo, e até o disse de viva voz. Tenho apenas quatro anos de contrato, dos quais quase metade já passou, e tenho de garantir o meu futuro.
Nada mais natural, uma vez que, tal como o feitor infiel da parábola, não sabia cultivar a terra e tinha vergonha de mendigar um emprego.
Então reuniu com os três principais credores do seu senhor, e encetou negociações.
E perguntou ao primeiro: qual o prazo para pagar as dívidas? E o credor disse: dez anos. E disse o dirigente: senta-te depressa, e escreve cinco.
E perguntou ao segundo: qual o juro que quereis cobrar? E o segundo credor disse: cinco por cento. E o dirigente: senta-te depressa, e escreve dez por cento.
E perguntou ao terceiro: quanto do património público querem vocês que seja alienado? E o terceiro credor disse: cinquenta por cento. E logo o dirigente: senta-te depressa e escreve cem por cento.
E louvou o senhor o dirigente infiel, porque os filhos do mundo são mais hábeis na conduta dos negócios do que os filhos da luz.
É perfeitamente descabido terminar com a fórmula “Palavras do Senhor”, mas que são as palavras de muita, muita gente, disso não há dúvida!
Nuno Santa Clara














