A Criatividade e a Educação - MontijoPor Nuno Canta

Por Jornal Rostos
Um dos temas mais importantes no desenvolvimento das comunidades locais é, sem dúvida, a participação na criação do seu futuro. O futuro simplesmente acontece, no entanto, o mesmo pode ser criado através das ações que desenvolvemos. Na verdade, todos nós queremos ter uma palavra na criação do futuro, o que nos conduz à necessidade de compreender a criatividade, pois para criarmos temos, forçosamente, de sermos pessoas criativas.
A criatividade é, assim, uma ferramenta poderosa para alavancar o desenvolvimento das comunidades locais. A essência da criatividade é a resolução dos problemas. Não podemos subestimar a importância da resolução de problemas na vida social, pois é por esta via que a comunidade promove a mudança social, a mudança cultural, o avanço político, o progresso económico, e, também, representa o ponto de partida para a investigação, a inovação e o empreendorismo. Os empresários desenvolvem ideias criativas para introduzir produtos e serviços inovadores, ou para fornecer produtos e serviços novos, de maneira mais eficiente e logo mais produtiva. Existe hoje um acordo generalizado que a inovação deve estar sempre presente em todos os aspetos das organizações.
Quase todos os políticos no ativo já afirmaram que “as crianças são o futuro”. Mas, se realmente acreditam na frase anterior, então são obrigados a considerar as crianças como uma parte fundamental na criação do futuro. Sabemos bem que, os jovens de hoje são os trabalhadores de amanhã e que os bebés que nasceram ontem, num piscar de olhos, estão a tomar decisões e a governar as cidades.
As crianças de tenra idade são extremamente criativas e imaginativas. Um pau de madeira transforma-se num cavalo, logo a seguir numa boneca e, depois, numa espada de um guerreiro. Um ambiente de liberdade, longe do juízo dos adultos sobre o certo e o errado, as crianças desenvolvem um conjunto de capacidades essenciais para a formação de uma personalidade criativa. Na aprendizagem da criatividade, durante as brincadeiras mais divertidas, as crianças têm de reconhecer os seus interesses, lutar para os alcançar, tomar decisões, demonstrar tenacidade e liderança. A aprendizagem da criatividade pelas crianças é fundamental para que estejam em posição de enfrentar os grandes desafios que o futuro lhes vai colocar.
Quando olhamos com atenção para as vivências da infância de hoje, verificamos que, as crianças deixaram de brincar como o faziam. As crianças deixaram de brincar na rua, não trepam às árvores e desistem de organizar aventuras. As crianças de hoje frequentam, desde a mais tenra idade, de
manhã à noite, instituições educativas onde existe um envolvimento dos adultos em quase tudo. Acresce que, as crianças preenchem o tempo restante com outras atividades estruturadas, muitas delas importantes no desenvolvimento, como a dança, a música ou o desporto. Enquanto antigamente disfrutavam de uma infância em liberdade, as crianças de hoje confrontam-se com estrutura, em resultado da imposição de uma agenda adulta.
A perda do método tradicional de aprendizagem da criatividade obriga a refletir sobre as possibilidades de a recuperar. Como referimos atrás, as crianças passam grande parte do tempo em instituições escolares, portanto, as escolas podem desempenhar um papel chave na recuperação da criatividade. Uma comunidade inovadora, empreendedora, com progresso económico e desenvolvida socialmente tem de orientar as escolas, do pré-escolar e primeiro ciclo do ensino básico, para a aprendizagem da criatividade.
Importa, assim, no caso do concelho do Montijo, compreender por um lado as estratégias pedagógicas para estimular uma educação para a criatividade e, por outro, ganhar e motivar os professores e encarregados de educação para construir uma escola criativa. A definição de uma política educativa tem de ter em conta o gosto de aprender, o contexto de aprendizagem e os métodos pedagógicos. A formação dos indivíduos depende do gosto de aprender, uma característica desenvolvida durante o período de frequência do pré-escolar, visto que, de forma a aprender um conjunto de conceitos básicos de cada profissão, temos de dominar um campo de saberes e de estudo. Um ambiente escolar democrático e de projeto, com professores abertos, reflexivos e criativos, são, também, componentes essenciais para conseguir uma agenda criativa nas escolas.
Reconhecemos que a criatividade é determinante no desenvolvimento social e económico, mas, infelizmente é largamente ignorada pela sociedade. Identificamos uma estratégia educativa para a literacia e numerária, mas falta-nos uma estratégia para a criatividade, ponto de partida para o risco, a inovação e o empreendorismo. Se acreditamos que “as crianças são o futuro”, devemos refletir sobre os métodos e processos educativos, isto é, na maneira como realmente lhes transmitimos as capacidades necessárias para criarem o futuro.
NUNO CANTA, 2012














