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Quotidianos

Pôr os palitos - BarreiroPor Nuno Santa Clara

Ora, o que se passou na noite de 13 para 14 de Novembro no Barreiro foi algo estranho, que não hesito em classificar como contrário ao espírito democrático dos barreirenses, caldeado em dezenas de anos de luta pela Democracia.

Houve alguém que se entreteve a meter palitos nas fechaduras de algumas instalações camarárias, como as da Rua Teresa Borges, da Rua Stinville, da Biblioteca e Largo das Obras, tendo como resultado que ninguém pôde entrar nas instalações, fosse que por motivo fosse.

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Pôr os palitos - Barreiro Por Nuno Santa Clara

Por Jornal Rostos

Esta expressão tem fundas razões históricas. Basicamente, no nosso cadinho mediterrânico de civilizações de cunho patriarcal, a grande ofensa era a infidelidade feminina. Podia ser mesmo considerada como uma prova de incapacidade do marido enganado, e não da pura intenção de traição (chamemos assim) por parte do cônjuge infiel.
Quanto à infidelidade masculina, era assunto aceite e assumido, até desde os templos bíblicos. Fazer um filho numa escrava era normal, e assim teria nascido a nação ismaelita.

Mesmo em tempos mais recentes, no nosso ordenamento jurídico, o adultério tinha diferentes entendimentos, consoante quem o cometia. E mais: se a mulher encontrasse o marido em plena cena de adultério, e o matasse num casso de fúria, incorria em pena de prisão. Se fosse o marido a cometer o mesmo ato, poderia ser condenado a seis meses de degredo da comarca, ou seja, sendo barreirense, condenada a morar seis meses em Setúbal.
Pôr os palitos é portanto um sinónimo de infidelidade, de engano, de perfídia.
Será isto o início de uma crónica de costumes? Nem por isso.

Tivemos, no dia 14 de Novembro, dia da Greve Geral, por razões que todos conhecemos, e que todos os cidadãos de boa vontade aceitam, não só em Portugal como em toda a Europa.
O direito à greve foi o resultado de uma dura luta, com inúmeros mártires, vítimas de tortura e de assassinato, luta essa que foi inspiradora do 25 de Abril e que com ele ficou consignada (esperemos que para sempre) na Constituição da República Portuguesa.

O direito à greve é acompanhado do direito à não participação na greve; por muito que isso custe, por variadas que sejam as razões que a isso levem, o direito de participar é simétrico do de não participar.
Todos conhecemos as formas de torpedear uma greve por parte das entidades patronais, e de quem por elas são controladas, nomeadamente os Governos; mas essa constatação não deve levar as pessoas a ignorar os direitos fundamentais: esse papel cabe aos inimigos da Democracia – mesmo aqueles para quem a Democracia é um conceito vago, a meter e tirar da carteira conforme convém.

Ora, o que se passou na noite de 13 para 14 de Novembro no Barreiro foi algo estranho, que não hesito em classificar como contrário ao espírito democrático dos barreirenses, caldeado em dezenas de anos de luta pela Democracia.

Houve alguém que se entreteve a meter palitos nas fechaduras de algumas instalações camarárias, como as da Rua Teresa Borges, da Rua Stinville, da Biblioteca e Largo das Obras, tendo como resultado que ninguém pôde entrar nas instalações, fosse que por motivo fosse.

Disso resultou prejuízo para a Câmara, já que as fechaduras ficaram irremediavelmente danificadas, e trata-se de material caro, e os tempos não estão para desperdícios.
Resultou também que não houve aulas na Rua Stinville, cujo primeiro andar esta a ser usado pelo Politécnico.
Resultou em que houve uma quebra de credibilidade na justa luta dos espoliados deste país.
Tal como os apedrejadores da Assembleia da República, que esperaram pelo fim da manifestação para dar vazão aos seus instintos, houve quem extrapolasse as legítimas palavras de ordem para sabotar instalações.
Tal como nos maridos enganados, na nossa tradição patriarcal e mediterrânica: afinal, quem pôs os palitos a quem?

Nuno Santa Clara

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