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Quotidianos

LEVANTADO DO CHÃO !por Armando Sousa Teixeira
Barreiro

O senhor presidente da República condena a violência dos que provocaram os incidentes. Mas há violência má e violência boa?
Condenamos toda a violência! A começar pela violência institucional que nos rouba o pão, a dignidade, o futuro!

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LEVANTADO DO CHÃO ! por Armando Sousa Teixeira Barreiro

Por Jornal Rostos

Sete horas da tarde! A televisão antecipa o telejornal, hoje há futebol!

A imagem da Polícia de Intervenção a espezinhar um homem já maduro apanhado no atropelo, reerguendo-se com dificuldade, continuando a formação cerrada com agressões a pessoas que não tinham a ver com as pedras e se “atrasaram” na fuga desordenada, é um murro no estômago e um sufoco na memória de cenas recônditas vividas antes do 25 de Abril de 1974 (no Rossio, na Alameda da Universidade, no Parque Municipal do Barreiro).

Os incidentes suscitam uma dupla reflexão:

1. A grande Greve Geral fica relegada para segundo plano na abertura dos telejornais (em Portugal e na Europa).

2. As imagens transportam uma mensagem subliminar muito conveniente ao poder político que está a perder a base social de apoio – estão a ver, a alternativa é o caos e a anarquia!

O senhor ministro Miguel Macedo veio dizer (depois!...) que os acontecimentos nada tinham a ver com a greve e com a manifestação de CGTP. A essa hora já as imagens tinham corrido mundo e uma imagem vale mais que mil palavras!
Acrescenta o ministro que em democracia as pessoas podem manifestar-se dentro da lei, mas um grupo de “meia dúzia de profissionais da desordem”, esteve a atirar pedras à polícia durante hora e meia! Hora e meia?! E não foram detidos em flagrante delito pelos polícias à paisana que andam no meio da multidão? (todos sabemos que andam!)

2. A nossa descendência é a “libertação da lei da morte”, por isso ficamos contentes quando vemos os filhos e netos seguirem os princípios de uma vida de responsabilidade cívica e de consciência crítica.
O caçula trabalha numa multinacional, mester responsável, dedicação sem horário, má remuneração. Também por isso, fez greve, o único na empresa! É preciso ter coragem para fazer greve, um dia sem vencimento, ficar “marcado”, arriscar o futuro! Muito, muito mais do que para mandar pedras!
No entanto acha que as manifes da CGTP não são o suficiente, é preciso levar mais longe o protesto! Pensa como muita malta nova, radicalizada, desesperada, muitos sem trabalho, sem sonho, sem futuro!
“ Mas não condenar abertamente a violência exercida por jovens de cara tapada é objectivamente legitimá-la!”. Mário Crespo, um bom comunicador com uma longa história de oportunismo político, “aperta “ com João Semedo, recentemente eleito dirigente do Bloco, hesitante.
Falámos com um jovem com uma máscara “carnavalesca” na manif de 29 de Setembro da CGTP, no Terreiro do Paço. Estava inquieto, à procura dos (ali) raros pares. Resposta manhosa, “… trata-se de um movimento de jovens em luta a nível internacional e a máscara é para a Polícia não identificar”. Conversa ingénua, contestatária ou provocatória?!
Os amigos da tertúlia da esquina, dizem que são os gajos das claques de futebol, gente de extrema-direita! Serão?
Os politólogos da teoria da conspiração falam de provocadores infiltrados!? Alguns, talvez!...
A jovem repórter pergunta ao ministro se não há polícias infiltrados à paisana?! Ó minha senhora!...
A sociologia política há muito estudou o radicalismo de jovens da pequena e da média burguesia urbana, contestatários violentos da ordem estabelecida. No Maio de 1968, em França, este “fenómeno social” foi bem caracterizado!

3. De todos os lados chovem os elogios à intervenção policial.
Então num país com mais de um milhão de desempregados, 30% dos quais são jovens com menos de 30 anos, mais de metade dos quais não recebe qualquer subsídio, não há frustração, desespero, raiva?
Na mesa do Clube com o Zézé (que também andou a fugir à frente da Polícia de Choque, em Aveiro, em 1973), as palavras ficam presas num soluço na garganta, o peito sufocado na comoção pelas imagens da Polícia de Intervenção a varrer milhares de pessoas. Intervenção proporcional?
“ Se visses a cara de raiva, transtornada, do polícia a dizer que lhe pagavam para bater!?” – conta o caçula, reflectindo sobre a experiência de andar a fugir à frente da bófia. Deve ser parecida com a do “choque”, do capitão Maltez Soares, que me “baptizou” há 40 anos !
O senhor presidente da República condena a violência dos que provocaram os incidentes. Mas há violência má e violência boa?
Condenamos toda a violência! A começar pela violência institucional que nos rouba o pão, a dignidade, o futuro!
Saudamos as centenas de milhares de trabalhadores que fizeram greve! Esses, organizados, corajosos, é que o poder político capitalista ultra-liberal, que empurra o país para o desastre, teme verdadeiramente. Incluímos na saudação os jovens generosos, idealistas, utópicos, responsáveis, que não desistiram de Portugal e do seu (nosso) futuro!

16/11/12
Armando Sousa Teixeira

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