Saúde Pública e Ecologia - MontijoPor Nuno Canta

Por Jornal Rostos
Um exame sobre a mudança na saúde pública no Montijo, nos últimos 40 anos, justifica tanto celebração como desânimo. Por um lado, devemos celebrar o aumento generalizado da esperança média de vida à nascença, o desaparecimento da varíola e o declínio da maior parte das doenças infeciosas. Podemos, ainda, ficar maravilhados com os avanços técnicos, como no caso das novas Estações de Tratamento de Águas Residuais, da qualidade da água de abastecimento público, das cirurgias cardíacas, dos métodos moleculares de disgnóstico e dos sofisticados meios eletrónicos de imagiologia. Por outro lado, somos obrigados a reconhecer que muitas das doenças infeciosas, que julgávamos desaparecidas, estão a regressar, como a tuberculose, a cólera e a malária, e, também, surgiram novas doenças infeciosas, como o HIV-SIDA, a hepatite C e o Ébola, ao mesmo tempo, que os microrganismos demonstraram uma notável flexibilidade para contornar as terapias.
Quando olhamos para o padrão de sucesso e insucesso, parece que o sucesso advém sempre das soluções na escala reduzida, na resolução dos problemas específicos ao nível molecular e pela tecnologia, enquanto as falhas mais dramáticas surgem ao nível do sistema global; vejamos o exemplo do Montijo, onde os serviços de saúde estão muito avançados e, no entanto, continua a existir grandes desigualdades no acesso aos cuidados de saúde, ou que, apesar dos avanços extraordinários na estrutura social e na substituição das causas de morte, nos últimos 40 anos, temos mantido as diferenças, entre ricos e pobres, no que diz respeito à esperança média de vida e morbilidade.
As soluções concebidas para resolver problemas isolados podem extravasar o seu âmbito ou, mesmo, dar origem a novos problemas. Por exemplo, os pesticidas podem aumentar os problemas das pragas agrícolas e envenenar as pessoas, os hospitais são um local de infeção e o desenvolvimento da agricultura pelo modelo químico-mecânico pode levar à fome. Portanto, uma comunidade melhor preparada para enfrentar as incertezas, não pode ficar limitada aos problemas do quotidiano, tem de incluir no seu processo de desenvolvimento a perspetiva evolutiva, a biogeografia e a ecologia.
Quando passamos de um modelo que trabalha simplesmente com o peso relativo das influências dos problemas isolados para um modelo determinado pelo sistema global, passamos imediatamente a constatar que: qualquer teoria está errada se limitar as suas preocupações à espécie humana e negligenciar o resto da natureza; qualquer teoria é falaciosa se olhar para a espécie humana como um todo indiferenciado e ignore as desigualdades e injustiças sociais; qualquer teoria é redutora se olhar apenas para o confronto entre o individuo e o ambiente e falhar na visão do individuo como uma circunstância “única” num
campo eco-social; qualquer teoria está errada se fizer uma separação entre o corpo e a mente; e, finalmente, qualquer teoria está errada quando é desenvolvida dentro de certas condições de fronteira e dentro dos interesses pessoais dos cientistas.
Quando procuramos salvaguardar a saúde pública, então, a nossa tarefa terá de integrar as diferentes visões e confrontar a saúde, a sociedade e o ambiente como um “todo” e na sua plena complexidade. A saúde é criada e destruída num determinado ambiente natural e social, é variável com o tempo e o espaço, e com as interações sociais das pessoas em diferentes relações hierárquicas, cooperativas e competitivas.
A necessidade de uma abordagem complexa do sistema de saúde pública, obriga-nos a ter presentes três princípios fundamentais para intervir no desenvolvimento social, tendo em mente a saúde e bem-estar das pessoas. Primeiro, temos de colocar em causa as falsas dicotomias que condenam o nosso conhecimento. Uma das dicotomias, particularmente importante na saúde, é aquela entre a responsabilidade individual e a determinação social da nossa saúde. Considerando as frases seguintes: cada um de nós é responsável pela sua própria saúde; e, a nossa saúde é determinada pela sociedade. A primeira culpa o doente pela sua doença e justifica a diminuição ou a recusa do financiamento público na melhoria da saúde. A segunda, aceita uma responsabilidade coletiva, propõe uma ação pública para melhorar a saúde, mas deixa de fora da equação o individuo. Cada uma das preposições, assumida separadamente, é falsa e prejudicial para a saúde, mas quando assumidas em conjunto, ambas são verdadeiras e reforçam-se mutuamente. Em segundo lugar, devemos respeitar a atividade espontânea da natureza. Os agentes infeciosos são organismos que evoluem em resposta às circunstâncias ambientais e às tentativas do homem para os controlar. Os microrganismos conseguem adaptar-se rapidamente quando encontram novos ambientes, que potenciam as suas capacidades de sobrevivência, criados por nós ou por novas terapias. Por fim, em terceiro lugar, temos de respeitar a natureza sistémica do fenómeno da saúde.
As variáveis que afetam a nossa saúde pública encontram-se ligadas por mecanismos cíclicos de retroação, em lugar de um mecanismo linear de causa e efeito, com sentido único e que separam as variáveis dependentes das independentes. Portanto, em ordem a conseguir estudar o sistema de saúde pública, temos de abandonar a visão reducionista, suficiente para o estudo dos constituintes individuais, e, em sentido contrário, adotar uma abordagem dinâmica global orientada pela teoria dos sistemas complexos e pela ecologia.
NUNO CANTA, 2012














