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A infalibilidade doutrinária - BarreiroPor Nuno Santa Clara

Há um traço comum entre todos estes infalíveis: têm sempre razão, contra tudo e contra todos, e sobretudo contra os factos. Ou seja, não me venham com factos, porque eu tenho argumentos. Agarrada a ideia, há que adaptar o Mundo ao conceito, dê por onde der.
Se me permitem a expressão, é como cortar os dedos dos pés, para poder calçar as botas.

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A infalibilidade doutrinária - Barreiro Por Nuno Santa Clara

Por Jornal Rostos

Durante o Concílio Vaticano I o Papa Pio IX fez aprovar o conceito da infalibilidade pontifícia, não sem alguma oposição de parte dos padres conciliares.
A questão agitou muito o final do século XIX, e serviu de bandeira a muitos opositores da religião católica. No caso português, basta ler, ou reler clássicos como Antero de Quental, Guerra Junqueiro ou Eça de Queirós, para avaliar o impacto dessa decisão.
É que a infabilidade é algo que nos causa instintivamente uma reação negativa, a nós criados no cadinho da cultura greco romana, e mais ainda para quem mergulhou no raciocínio dialético (não forçosamente marxista, mas simplesmente hegeliano).
Mas a infabilidade tem sido invocada e utilizada muitas vezes, e até por quem deveria, em princípio, ser o seu maior opositor.
Nos anos 30, Estaline parecia infalível, não só na União Soviética, mas em todos os partidos comunistas espalhados por todo o Mundo. As falhas do processo de coletivização, e as consequentes fomes e purgas, não bastaram para destruir a imagem da sua infabilidade.
Mesmo depois do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1956, ainda há quem mantenha um saudosismo desses tempos da construção da pátria do socialismo, considerados heroicos, minimizando (quando não negando) o lado negro da História.
Da mesma forma, Mao Ze Dong (ou Mao Tse Tung, como queiram) atingiu o patamar da infalibilidade, com todas as cambalhotas e golpes de rins que foi fazendo, e deixando também atrás de si a imagem de milhões de chineses mortos de fome. É certo que das orientações do Grande Timoneiro pouco resta, mas, ao contrário de Estaline, nunca foi “saneado”, ainda que a título póstumo. A sua imagem continua afixada em tamanho gigante em Pequim (ou Beijing, se preferem).
Outros infalíveis houve. Quando Hitler, por exemplo, tomava decisões disparatadas, à luz da ciência militar, havia sempre quem dissesse que ele tinha intuições geniais. Mas nisso entrava mais Nietzsche e o primado da intuição do que a filosofia clássica. E há também quem negue o lado negro da História.
Há um traço comum entre todos estes infalíveis: têm sempre razão, contra tudo e contra todos, e sobretudo contra os factos. Ou seja, não me venham com factos, porque eu tenho argumentos. Agarrada a ideia, há que adaptar o Mundo ao conceito, dê por onde der.
Se me permitem a expressão, é como cortar os dedos dos pés, para poder calçar as botas.
Agora temos entre nós um infalível na pasta das Finanças. Os sintomas estão à vista: aquela fixação nos números, a indiferença quanto às consequências das decisões, o alheamento quanto ao sofrimento humano.
Salazar ainda tinha algo de humanitarismo cristão, que lhe vinha da doutrina social da Igreja. Mas os ultraliberais não: os aspetos sociais das questões passam-lhes ao lado.
Mas o mais perverso é que os infalíveis acabam por ignorar as suas próprias lógicas. Ou seja, sendo infalíveis, estão acima dos críticos, ainda que estes lhes sejam próximos.
Os avisos vêm de todo o lado, mas isso não importa. Soluções alternativas poriam em causa o dogma – e o dogma está acima das consequências.
E assim chegamos ao aparente absurdo. Levam-se países à bancarrota, e depois perdoam-se as dívidas, ou parte delas. Já se viu isso em África: aos países mais pobres, perdoou-se a totalidade da dívida; aos menos pobres, metade da dívida. Por humanitarismo? Nem por sombras! Porque era impossível cobrar as dívidas, e sobretudo porque já estavam pagas, com juros usurários.
Assim como quem lega os seus bens aos pobres, depois de morto, e de em vida os ter explorado até ao tutano. Será que assim se ganha o Céu?
No nosso caso, havemos de lá chegar, por este caminho. As nossas dívidas serão perdoadas, depois de pagas.
Só que, entretanto, o País mudou de dono. E o dono já anuncia investimentos – com o nosso dinheiro!

Nuno Santa Clara

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