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Quotidianos

O bom ladrão e o mau ladrão - BARREIROPor Nuno Santa Clara

Considerando o bom ladrão, o Estado ganharia com isso, da maneira mais simples: uma vez que o montante do subsídio de férias é diluído por doze meses, o Estado passaria a cobrar os seus impostos a partir de Janeiro, em vez de esperar para os meses de Verão para sacar o devido imposto.
Esta é a teoria do bom ladrão: tirar-nos suavemente, ou de uma só vez, tanto faz; e assim se consegue algum alívio para os cofres das Finanças.

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O bom ladrão e o mau ladrão - BARREIRO Por Nuno Santa Clara

Por Jornal Rostos

Mais uma inspiração bíblica. Cristo, crucificado entre dois ladrões, teve palavras de conforto para um deles, que mostrou arrependimento.
Essa imagem tem passado ao longo dos séculos como o exemplo de que, mesmo na aparente igualdade de circunstâncias, há diferentes valores em causa.
Quando alguém está a mexer no nosso bolso, a tentação imediata é gritar “Aqui del-rei”, invocando assim os poderes públicos para a sua obrigação de defender os simples cidadãos.
Mas se forem os poderes públicos os autores do assalto? História antiga: a sisa foi criada pelo rei D. Fernando (de cognome o Formoso) para fazer face à guerra com Castela. No final do século XIV – ainda antes de Aljubarrota.
O problema é que a sisa ficou até ao século XXI, e só acabou por ter sido substituída por outro imposto…
Estamos perante nova contingência nacional, em que são pedidos novos sacrifícios, com a diferença de que, se antes tínhamos como inimigo o reino de Castela, agora nem podemos chamar de inimigo a nossa aliada Alemanha.
E assim vão correndo os tempos.
Foi agora anunciado que o subsídio de férias, ou 13.º mês, passaria a ser pago em duodécimos, portanto diluído e diferido ao longo do ano.
Aparentemente, sem inconveniente de maior. O valor do vencimento pago é o mesmo, apenas disperso ao longo do ano. A única alteração seria que os portugueses deveriam deixar de contar com aquela espécie de poupança forçada, ou bónus anual (cada um entenda como quiser) para pagar o seguro do carro, mudar de máquina de lavar ou ir de férias. Em vez disso, passariam a ser obrigados a poupar, para ter acesso a esses investimentos de melhoria de vida ou de simples lazer.
Mas aqui entra a questão do bom ou do mau ladrão.
Considerando o bom ladrão, o Estado ganharia com isso, da maneira mais simples: uma vez que o montante do subsídio de férias é diluído por doze meses, o Estado passaria a cobrar os seus impostos a partir de Janeiro, em vez de esperar para os meses de Verão para sacar o devido imposto.
Esta é a teoria do bom ladrão: tirar-nos suavemente, ou de uma só vez, tanto faz; e assim se consegue algum alívio para os cofres das Finanças.
O problema está em que, se o Estado ganha durante os primeiros seis meses do ano, por antecipação da cobrança do imposto, naturalmente perde nos restantes seis meses, por atraso dessa mesma cobrança.
Ora, aquele que nos governam fizerem decerto essas contas. Porquê, portanto, esta bizantinisse?
Aqui entra o mau ladrão.
Se o pagamento do subsídio for diluído por doze meses, pela lei do hábito, facilmente passaria a ser considerado como parte integrante do salário. E uma vez parte do salário, facilmente seria esquecido o direito ao subsídio – como outros direitos têm sido esquecidos. Tudo fruto da conjuntura, como fruto da conjuntura foi a criação da sisa.
Resta rematar com mais uma citação: quem tem olhos para ver, que veja; quem tem ouvidos para ouvir, que ouça.

Nuno Santa Clara

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