Antologia «RIO DE DOZE ÁGUAS»Por Fernando A. Almeida Reis

Por Jornal Rostos
Antologia “RIO DE DOZE ÁGUAS”
(chancela COISAS DE LER)
– Opinião Literária©
Se já não é fácil escrever sobre uma antologia poética, que não é temática, mais difícil se torna quando os seus doze autores tematizam, nela, os assuntos mais díspares. Para não dizer da dificuldade crescente que vai sentir quem emite opinião, que sairá das suas resenhas particulares para a tornar pública, não conhecendo, praticamente nada, das obras editadas dos mesmos autores para nelas se colher, de cada um, os traços definidores e, necessariamente avaliativos, para deles dizer mais do que obrigatoriamente ficará dito, debruçando-se, apenas, sobre o limbo da sua poesia, colhida da parca meia dúzia de poemas que cada um escreveu para esta antologia. E porque, escrever sobre a Antologia “RIO DAS DOZE ÁGUAS”, implica, necessariamente, escrever sobre cada um dos autores que nela verteram poesia, é mais importante do que dizer generalidades sobre a obra que, sendo de todos, também o é de cada um.
Sublinho, o risco do erro avaliativo, ao escrever – ao pretender escrever – de cada um deles, a partir da leitura e análise, sempre subjectiva, de meia dúzia de poemas que cada um perpectuou nesta obra, Rio de Doze Águas. Por outro lado, o desconhecimento pessoal dos autores permite sempre, a quem deles escreve, uma apreciação fria e desinteressada dando maior rigor ao exercício da análise. E, aqui, noventa e nove por cento dos autores são-me desconhecidos.
O espaço da poesia, nesta Antologia Rio de Doze Águas, é o espaço da palavra quase sempre talhada com mestria e saber. Metodicamente elaborada por-todos-os-poetas desta antologia, tão bem construída na lavra da palavra aqui plantada. De difícil escolha para o leitor mais dedicado e atento, a maioria destes poemas, e poetas, na compreensão, nunca se reduz ao imediato, resultando, mesmo assim, como qualidade, a sua capacidade de comunicar com o leitor e transmitir-lhe que da “densa escuridão” se alcança a Luz, vinda do sonho, “até onde a memória a ferro e fogo / na carne das trevas (o escritor-poeta) tatua o texto”, nas palavras ditas num mar de imagens de António Gil.
Profundamente reflexiva, leva-nos, com alguns dos seus (melhores) poetas a indagar sobre “a obrigação do poeta: cantar”. E, “cantar o mundo, cantar a vida em todas as suas formas, nas diversas vertentes”, como nos adverte Joaquim Pessoa no seu tão elucidativo prefácio. É a obrigação mais nobre do poeta!
Ficaria tudo dito, sobre esta antologia, o que é exíguo, no meu entender, dada a qualidade dos seus poetas e a obrigatoriedade que a consciência me impõe, falar deles, correndo, embora, o risco de pecar por defeito.
Preservando os “sentidos” que colhem na “Flor e Haste”, das palavras de ANTÓNIO GIL, “cor, perfume e pólen”… “haste” que se eleva, à vida, o poetar nobre “de uma luz capaz de trespassar os olhos sem (os) cegar”, quando se detêm na “beleza” que “atordoa” da “semente que germina” da flor poética, onde os “frutos” colhidos vão rasgar caminho no “pequeno ribeiro” dos grandes poetas, aqui presentes, e formar este “Rio de Doze Águas”.
É no abraço do silêncio que o poeta citado “tantas vezes tropeça e estremece, sem cair” em divagações inúteis (como a maioria dos poetas que por aí pululam na blogosfera e o fazem em obediência a um egocentrismo exagerado, esgotando, em palavras repetidas, o seu eu-amor-próprio (mal) cantado em inócuas palavras sem sabor e sem saber). Aqui, em todos os poetas residentes, que ilustram com magnitude esta antologia, há o instrumento do saber construir, sem recurso à sensaboria do poema elíptico, cansado e cansativo, que se esgota no eu-próprio.
Em António Gil, e não é demais referi-lo, o poeta não cai, ainda que tantas vezes “tropece” e “inseguro” estanque e estremeça, para logo recomeçar e ser o “herói de um reino de encanto”, o instante e o eterno de “ignoto rio ou mar distante”, buscando “no silêncio que (o) toca”, o que sente, com o “vigor que não se esgota e que repetidamente (se aponta) ao ilimitado”. É o cair e tropeçar, para logo se levantar, que reconhece em si, que torna o poeta, que auto se reconhece, grandíloquo. O que dá força ao poema é a certeza do inseguro, que lhe permite levantar-se com segurança, após ter caído, e caminhar na senda do imenso. É a humildade, reconhecida sabedoria, em si presente!
Antologia que voa, como se fosse “hora derradeira”, mas fica na “memória perfumada da tua presença”, (se a leres) – como se fosse advertência ao leitor numa tentativa de o levar (a embrenhar-se nela) no dizer poético de CARLOS CAMPOS que se interroga na existência do olhar. Ele que pára tantas vezes no “porquê?”, como se a sua “janela” fosse a alma que deseja interrogar e a quem pede ajuda às perguntas metafóricas e imagéticas. É, no seu primeiro poema desta antologia, a interrogação inquieta do homem enquanto SER? Sim, será!
“Porquê este vício nocturno de olhar / Se a janela só reflecte o meu rosto / (…)?”; ou será a interrogação-súplica a um amor-ausente, sob o ponto de vista de uma certeza duvidosa? “E sei que não é a tua hora de voltar”. Personificação, absoluta, nesta sua interrogação-busca inquieta, em demanda do princípio. Que será o tal amor ausente ou a busca do SER. Talvez, mais, o primeiro que o segundo, tão bem tratado em palavras que não se deixam arrastar pelo fácil, que a maioria dos poetas soem usar ao tratar o amor. Aqui, em monólogo surdo com a “janela nua”, “transparência sonhada de uma ilusão”, porque, neste ser-cego-surdo-mudo que o domina e o leva a transpor o que sente para o papel no uso que dá à manipulação sábia da palavra, já nem sequer sabe se a janela é “janela ou muro decorado” que oculta o que procura – o SER ou o outro-ser. O que importa é interrogar e ser, mesmo não se sabendo o que se é ou se se é.
Poeta luminoso, neste tempo sombrio, que procura nos “passos esquecidos” de qualquer “rua (que) não vai a lado algum” o sentido das coisas na sua decisão de partir ou ficar. Não importa a chegada ou a partida, ao contrário de Torga a quem apenas importava a partida. Aqui, em Carlos Campos, o que importa é a vontade e o existir.
“Num mundo de esquecimento” onde a gaivota plana sobre as ondas encrespadas, talvez à procura do seu cais para daí fazer novos voos, CLÁUDIO CORDEIRO respira “lentamente a fome dos (…) braços” da sua metade-outra no “corpo” (sempre o “corpo virgem” da procura) como “fruto delicado”, “na ponta dos (seus) dedos”.
Transfigurar ou personificar, com a mestria da palavra, é coisa de mestre – só em Herberto Helder e Ramos Rosa tal ofício (se) eternizou. Honra, ora, a este poeta do Mondego, que tais passos lhes segue.
“Uma pedra luz um pássaro árvore…”, em Cláudio Cordeiro, faz lembrar Herberto em “uma rosapeixe dentro da (sua) ideia / desvairada” de procurar dentro de si e em si, a união que faz ao corpo na sua nudez onde “as pedras do futuro florescem”. E hão-de florescer, um dia, quando os verdadeiros críticos literários se debruçarem sobre a poesia de tal autor (que eu, tal não sou; apenas, e só, fiel e humilde leitor que escreve para si a opinião das coisas boas que dos outros lê). No centro do triângulo da sua escrita dominada pelo “corpo”, pelo “vento” e pelo “fogo”, eis o “chão (que) é a (sua) unidade” onde, com firmeza, transforma o sonho-sonho em lucidez. Afirma-se o “nada anónimo de ninguém”, a plenitude da certeza a “um deus / que antecedeu o tempo” e o antecedeu no tempo.
Poesia forte, magistral, magnânima, é como “o sol (que) renasce” e impulsiona a vida na vontade, tal é a vontade, sempre, em a reler. Atrevo-me, a dizer que, dos doze, talvez seja o rio, com melhor caudal e caudal mais reflexivo e que obriga a maior reflexão, da antologia Rio de Doze Águas, pela mestria e significado filosófico-literário da sua poesia.
Na “crença” de FRANCISCO VARVERDE ARSÉNIO, há um vaguear dentro de si, mesmo acreditando “num caminho / parco de luzes” ou, porque, acredita apenas, e vagamente, nesse “caminho parco de luzes” que o projecta para o pretérito (“queria voar”) da vontade, e que lhe é imperativa, não a “sua” vontade mas uma outra vontade exterior a si, (“resta-me continuar a caminhar”), condicionando-o no querer, como se claudicasse ao encontrar “uma mão cheia de nada” por onde caminha “descalço / sobre a fragilidade cristalina / das palavras” que escreve. É parco na vontade. Na sua vontade. Interroga-se e interroga, em vãs perguntas de resposta, invariavelmente, inconclusiva. “Ninguém sabe!” – E, fá-lo, apesar das reticências da pergunta-resposta “Quem sabe…”, com certeza peremptória e afirmativa “Ninguém sabe!” – assiste-me, face a esta poesia de Valverde Arsénio, triplicar a afirmação, nas suas palavras: “Ninguém sabe!” (!!!).
O rio de Valverde Arsénio, pelo menos o que aqui nos dá a conhecer, ainda que grande em comprimento (em referência ao número de versos dos poemas), vindo de nascentes longínquas (como é o cantar-ao-amor), desagua em fraco caudal, talvez porque esse “caminhar descalço / sobre a fragilidade (…) / das palavras”, seja “forçado por horizontes imaginários” onde, ainda, “há sombras / que se digladiam (…)” na “claridade baça da manhã”, ao invés de mostrarem que é exactamente da sombra que nasce a luz, porque esse lado outro da sombra é Luz.
No dizer complexo e musical do poema, o “desenhador” da palavra que a burila com mestria, enaltecendo-a, quando a transporta “para lá / da substância palpável”, é um filósofo. Mais do que poeta ou, melhor dizendo, para além de poeta é um filósofo que nos dá muito que pensar e nos escreve muito, para pensarmos ainda mais.
E que dizer, se bem que minguem as palavras, a quem se aventura dele, a escrever? Que é um risco e que é difícil a tarefa. Criticá-lo, ou antes, fazer-lhe crítica literária, é um risco; não a fazer com receio de mau desempenho, é um desafio a fazê-lo. Aventurem-se os críticos literários, aqueles que o são. Eu fico-me pela minha resenha de opinião.
Porque ele (e nele) não sendo Deus, é “a palavra que transita / de (…) olhar, a clara água”. Que não é tão clara, assim, quanto nos faz crer o poeta. Mas, não é por ser turva. Que, de limpidez e cristalina, tem que baste, para não dizer em excesso, que pode levar a interpretações negativas de qualidade. De limpidez e cristalina tem a sua escrita no peso, na conta e na medida, porque nos falta a nós (me falta, a mim) o saber para dizer. E, o saber, vindo de mim, como defeito, para dele dizer. Dele, de JOAQUIM MONTEIRO, um verdadeiro arquitecto e filósofo da palavra.
Põe a alma no que canta, porque, para si, as coisas têm que ter alma que “quando a alma / das coisas se eleva, para lá / da substância palpável // não há regresso possível, quando / do nada se cria.” Nada se deve negligenciar das leituras deste autor do Rio de Doze Águas, advirto os fazedores da crítica literária, tão adormecidos andam da sua poesia; ou terão medo de o cristalizar, ao ombreá-lo com os melhores contemporâneos do nosso meio literário? Fica a dúvida e a pergunta.
Joaquim Monteiro, ciente de que “não há regresso possível, quando / do nada se cria (…)”, pergunta-se, se terá “nascido de um acto de dúvida / em prematura afirmação (…)” com a consciência de que “todo o (seu) estar é uma interrogação / permanente”. Curioso e incomodativo este interrogar-se. Em evidência a interrogação do homem enquanto SER, na “certeza (de) que (é) alguém esperando / uma língua de fogo sobre a cabeça”, remetendo-nos para os saberes e crenças bíblicas, com esta sua proposta poética. Na sua “inquietude”, a eterna procura da “raiz procurando / a humidade criadora” – talvez, Deus ou a Sabedoria.
Podíamos quase dizer que, com João Margado nasce a segunda parte da Antologia Rio de Doze Águas, não tivéssemos nós, ali pelo meio, um poeta, que “passo a passo (viaja) nestes mares etéreos / na deriva de silêncios sem margens ou luas” e, corajosamente e arriscadamente, porque “sem margens ou luas” descobre, “no vento que mareia” e lhe traz voos de inspiração, “mares desconhecidos por querer”. Mas, sobre esse poeta, a seu tempo se dirá.
Uma poesia de imagens, no poema deliberadamente simples de JOÃO MORGADO, sem a complexidade posta na palavra pelos poetas que o antecedem, trata o poema com a fluidez que requer quem está habituado a ler a sua poesia sem a dificuldade de compreensão e interpretação. É o poeta da prosa poética nos seus livros em prosa. O poeta, conterrâneo de Eugénio de Andrade, do pouco que lhe conheço em verso tanto vejo dele na forma mágica da sua escrita. É o poeta da prosa no romance “Diário dos Imperfeitos”, Prémio Literário Vergílio Ferreira, 2012. As palavras, aqui dadas a conhecer em Rio de Doze Águas – e cai-se sempre no erro de julgar, por dele se conhecer tão pouco, ao pretender-se escrever de si, algo – são despidas de artifícios retórico-estilísticos, tão bem manuseados nos poetas até aqui tratados, naquilo que se pode considerar ser a primeira parte da antologia, procurando ele ser o espelho, sem mancha, da ingenuidade sábia do saber desconstruir complexidade das coisas, transformando-as no natural e espontâneo.
Mas isto, não faz dele um poeta menor em relação aos demais, presentes até ele, no Rio de Doze Águas. Faz dele, apenas, um poeta diferente: um poeta que não precisa dos artifícios mágicos da escrita para dar magia ao texto escrito, no uso que faz da palavra cristalina; que não precisa de metafísica nenhuma, nem dos artifícios malabarísticos da imagística e das palavras truncadas de difícil entendimento, para cantar o amor, cantar a vida. Ele canta-o como aquilo que o amor deve ser (seja amor ao/pelo outro ser, seja amor à/pela palavra), quando sincero. Simples e verdadeiro, como a sua poesia, aqui vertida, o é.
Poesia directa, sem artifícios que dificultem o entendimento, tão límpida como o seu “rio de água” onde ele é “leito” e o amor cantado “nascente”, corre, com a “alma” que empresta ao poema, exíguo em número de versos, até onde o rio nasce. Consequentemente, a sua poesia nunca corre para a foz. Nunca flui no sentido em que as coisas terminam, ainda que para logo nascerem outra vez. A sua poesia corre em busca dum (do) amor de quem não sabe viver ausente: “eu sou / leito / tu és nascente, / não deixes de verter, / ajuda-me a correr, // não sei viver contigo ausente”. A sua poesia corre, sempre, em busca do Princípio.
É, assim, a poesia do estudioso da música clássica JOSÉ GABRIEL DUARTE. Ele é um daqueles autores presentes no Rio de Doze Águas de quem não é preciso dizer muito, porque ele, nos seus poemas de versos cristalinos, como a água da (sua) nascente, diz tudo. Desenha o verso com bem menor complexidade com que desenhará, de certeza, os seus programas informáticos.
No “conversar com as palavras” é uma procura, não do “eu”, que ele está presente na sua poesia, mas da linguagem mais pura e do círculo natural do poema. Ele está com as “palavras”, ele “fala com as palavras”, ele “não dorme sobre as palavras”, porque existe nele uma colheita de sensações que o incomodam e inquietam: “esta noite eu não dormi, / sonhos, ilusões, / não quis esquecer que existem pobres, guerras, / violações.”. As palavras nascem, nele, e dele, como “o beijo de amor, (que) não tem cor, / é transparente / (…)” – as palavras em José Gabriel Duarte, são transparentes!
De JOSÉ LUÍS OUTONO, de quem pensava já ter dito (quase) tudo quando em análise ao seu “Mar de Sentidos”, verifico, agora, que muito mais ficou por dizer. Ele, enquanto poeta, existe no espaço e no tempo. E, existe, principalmente no saber “olhar o mar” por onde eternamente a palavra (se) passeia “na deriva de silêncios sem margens ou luas”. Em si, a poesia não tem margens, nem limites, nem fronteiras.
É, no que nos dá a conhecer no Rio de Doze Águas, um construtor sem invenções e menos imagens retórico-estilísticas (que as que nos deu a conhecer no seu Mar de Sentidos) que sonha o poema, no seu “primeiro acto de acordar” tão simples (coisa rara nele) como “tomar um café (…)” elevando-o, depois, através da palavra, até ao “sonho da (…) partilha” e ao limite “(…) do amor por fazer…”, atingindo, como uma flecha mortal cheia de vida, o interior da alma de quem o lê.
Disse, anteriormente, dele, em opinião literária emitida, que o poeta se afirma, não apenas como corpo, que é, mas, também, como construtor de signos; melhor, como inventor na lavra da sua escrita. Talha, aqui, o texto, usando maior simplicidade, no artefacto da palavra, que no Mar de Sentidos. Usa a simplicidade que o poema requer num enredo de busca num “labirinto / de nada”. “Nas clepsidras do tempo” o poeta desenha “mares etéreos” (sempre o eterno-longínquo-mar… tão presente em seus versos), por onde viaja “na deriva de silêncios” mesmo que entre “prisões de algas soltas sem norte ou fundos / (ou) /brisas intemporais de momentos ausentes”. E é nesta “liberdade de sentir (-se) errante” que sorri na espera da “sentença”, na espera dum abraço bloqueador que o algeme a algo… mas nesta espera encontra, apenas “silvos amargos de acasos”. Não se percebe bem, ou, percebendo-se, não se quer perceber preferindo-se julgar pela subjectividade, se se trata, nesta espera, da espera do ser amado (ou que se deseja) ou da vinda da palavra sempre nova por nascer e se dar a conhecer. É um enigma em Luis Outono.
Mais uma vez o poeta de Mar de Sentidos a sulcar o seu mar em desafios constantes da palavra. Não é de mais repetir que se exprime no termo poético, através de signos tão seus, com mestria tal, que faz parar o leitor, no tempo, sem deixar o tempo do autor, para regressar ao primeiro verso e se extasiar, até ao último, na sua leitura. Não é aqui, em meia dúzia de poemas, que se lê e compreende Luis Outono. Como não será, de igual modo, relativamente aos outros poetas do Rio de Doze Águas. Por isso a advertência inicial de que, do pouco que se disser de cada um, muito ficará por dizer, não se conhecendo obra (mais vasta) de cada qual. E, de Luis Outono, que conheço dele (e é o único, dos daqui, que em poesia conheço a fundo) a sua escrita, posso afirmar que ela é quase sui generis, que ele é mais do que um ser da linguagem. É um poeta-ser que se autosupera nunca se fixando nos limites do óbvio porque “no vento que mareia” a sua poesia, “há mares desconhecidos por querer” ainda que “tão fugidios da razão” que teima em “escrever” na “rocha vulcânica de dureza distância” duma “esperança sem norte”. Apenas aqui me parece ver sombra de desânimo no poeta. Mas logo se levanta para nos anunciar que são “apenas fantasias sem cor d’ontem”. O poeta, é, assim!
Argumentarão, alguns, que não estamos aqui para apreciar os autores do Rio de Doze Águas. Pois não! Mas não teceríamos opinião da antologia se não víssemos, caso a caso, cada um dos seus autores, porque, uma antologia é aquilo que os seus autores forem e escreverem nela.
É uma poesia (quase) sem fronteiras a que nos dá a conhecer JOSÉ MARIA ALMEIDA. E nisto me faz lembrar certo poeta que começa os seus livros escrevendo como primeiro e único verso no meio da primeira página “universal é o verso sem fronteiras” para advertir o leitor que a sua poesia é livre, no pensamento e na subordinação a escolas e/ou vontades externas, livre até na ausência do ponto final a marcar fronteira em cada verso. Aqui, quase o é na poesia deixada pelo autor José Maria Almeida, não fora o facto de lhe encontrar um ou outro ponto final (perdido em fim de verso) a marcar baliza. Porventura será assim toda a sua poesia? Inquieta-me a pergunta!
Poesia repleta de imagens, como a de João Morgado, mas que não as usa em demanda do “eu” porque ele se define naquilo que escreve: “sou o que vejo / o que faço o que amo / sou uma vida na sua forma mais pura / sou um beijo uma ave um piano / sou o próprio tempo e a lonjura”. Admirável a sua existência nesta poesia telúrica em que é, mas não é, a natureza que vê e que imagina. Há versos em que se nota a presença de Alberto Caeiro, quando ele (Caeiro) nos diz que não precisa de metafísica nenhuma para sonhar. Em José Maria Almeida “Sinto-me onde estou, mas não penso o que vejo. / Sinto o verde das planícies que imagino / mas eu não sou esse verde em que me deito / porque se me deito e é o verde que sou / é o azul do céu que eu vejo / e entre o verde e o azul eu me reparto / tal como as palavras que digo e aquilo que faço”.
A sua poesia é um misto de dúvida, de inquietação e, ao mesmo tempo, de esperança. Hesitante na fé, “a minha fé é como um navio / (…) sem chegar onde é esperado” mas, ao mesmo tempo, crê-se Deus: “Deus nascido homem me fiz”. Talvez nos queira dizer que, como no contexto bíblico, foi feito, homem, à imagem e semelhança de Deus, seja ele que Deus for. Vai mais longe, quase em aposta até ao infinito “Há um fogo que arde em mim. / É um fogo que sinto quando arde / mas não é palavra nem é deste mundo.” Faz-nos pensar a sua poesia. Faz-me pensar!
Admirável é a sua escrita e a (in)certeza como se define, dando-nos o “fogo” como imagem da sua ânsia de ser e em ser: “É a ponte (o fogo que arde nele) entre o que sou e o que faço, / é um laço que ata o mundo a mim, / é uma brisa que me traz a frescura dos prados / e eu posso que está em mim / porque lhe chamo brisa dos prados / e a sinto nesse fogo que arde”. É um Caeiro (heterónimo de Pessoa) em toda a sua plenitude, com uma visão (quase) primitiva e pura da natureza. Despido de emoção e objectivo, é quase uma não-poesia o que aqui deixa, pois a sua linguagem, simples e objectiva, procura estar perto das coisas e das sensações, despindo as palavras daqueles artifícios retórico-estilísticos tão usuais nos poetas de hoje e, nomeadamente em alguns, que não são poucos, dos que fazem correr o Rio de Doze Águas.
O poeta expõe-se por inteiro naquilo que escreve. Seja metafísico ou não. Desafiando-se ou desafiando. Interrogando-se acerca de si próprio ou interrogando acerca do mundo que o rodeia. Muitas vezes, o poeta parece não ter sentido naquilo que escreve, ou porque é de difícil interpretação no uso que faz de artifícios retórico-estilísticos, recheados de malabarismos de imagens, ou porque, por tão simples os seus vocábulos, directos e objectivos, se julga do mesmo, ser um mero amador que não vale a pena perder tempo em lê-lo. Puro engano! Podia aqui argumentar-se o quanto errado são esses juízos, mostrando, num caso e outro, poetas de vulto no panorama literário português, já consagrados, que não são maiores que outros que ainda buscam um lugar ao sol no campo da literatura.
O que o poeta escreve não tem que fazer sentido: tem, sim, que maravilhar, despertar, desafiar, provocar reflexos, meditações, mudanças, êxtase, catarse. Mas, apesar disto e acima disto, não tem, necessariamente, que mostrar, no que escreve, mau português eivado de erros e muitas vezes em escrita sem nexo. Porque o erro, na escrita que se torna pública, causa algum afastamento e repulsa a quem, nela e com ela procura deleite. Situação última de que esta magnífica obra não enferma, felizmente, tal o cuidado posto, pelos poetas, no que escreveram e revisões que fizeram. ESTE “RIO DE DOZE ÁGUAS” É PORTUGUÊS SEM MANCHA! É um puro deleite ler um livro assim concebido!
É também um puro deleite ler a poesia das duas únicas poetisas (ou poetas, que a poesia não tem sexo) que povoam a antologia. É pena que sejam em minoria; é pena que aqui a igualdade, em termos matemáticos, se não tenha verificado. Se, aquilo que ambas escrevem poesia lhe podemos chamar (mais prosa poética que outra coisa), ela não desafia, não interroga, mas desperta, na simplicidade do mais vernáculo português.
Em LÍLIA TAVARES e MARIA JOÃO SARAIVA, percebe-se, claramente, pelos cuidado posto nos vocábulos sempre correctos, da sua escrita pessoal e intimista, alheia a qualquer estética habitual, daqueles que procuram fazer escola recorrendo ao malabarismo que nos permite (e eu falo por mim que também sou poeta) inventar na poesia. Sem recurso a vocabulário mais culto e sofisticado, se bem que o podia ser vindo de duas pessoas letradas, mas que não precisa de o ser, necessariamente, para ser belo, demonstram, numa construção simples do poema, em ambas quase descritivo, sem pretensões de passar nenhum subjectivismo, que a arte na poesia, é essencialmente fazer despertar no leitor alguma forma de sentimento.
Descrevem os seus estados de alma “anoiteceu a tarde / (…) / procuro a transparência / da tua espera (…)”, diz-nos Lília Tavares num “(…) cântico de coragem e espera”. Sem recurso ao cronómetro do tempo, porque “não pode haver tempo nem pressa / neste livro que se permite ler devagar” para fazer renascer “das palavras o amor maior”, ao que Maria João Saraiva argumenta (a força da expressão é minha para dar sequência ao descrito) que “enquanto houver claridade / dentro das mãos”, “há florestas rentes ao céu / que guardam o silêncio azul” das palavras com que borda o poema.
Poeta pessimista (e ultrarromântico fora do tempo) que, se tivesse vivido na época da escola literária em questão, ainda se compreenderia; o que não quer dizer que hoje também não, se considerarmos o quão tenebrosos andam os tempos…
No meu ponto de vista, em termos de opinião literária, PAULO EDUARDO CAMPOS é um “mau auditor de contas, nas contas que faz da poesia”. Desiste, simplesmente desiste, facilmente desiste nos “dias de nevoeiro, cor de chumbo, que pesam tanto como a idade dos anos” quando, afinal, a idade dos anos até devia ser conselheira do tempo e dele. O poeta, desiludido, porque nele “existe (…) / um mês despido das folhas / do (…) sorriso” de alguém, a quem ele quererá muito, contradiz-se “com as mortes que os anjos levam” (maus anjos serão estes; demoníacos, talvez!) e com “o medo que pernoita adormecido” mas, apesar disso (aqui a incongruência) o “acorda nos poemas que (lhe) ardem nas mãos, / nos dias que se recusam a amanhecer”.
Não tão lúgubre, como ele, ao tempo do ultrarromantismo, quase me faz lembrar Soares de Passos, no lúgubre, na desilusão, no desconsolo, quiçá, na morte, pelo sentimentalismo e por uma melancolia exacerbada.
Surpreendo-me, neste poeta, pela submissão do (seu) “eu” a algo que julga superior a si, diminuindo-se, quando em dedicatória de um poema seu. Nada o é nem o deve ser. Nesse poema põe as palavras de luto e com o luto contamina o branco do papel: “há palavras que nos emudecem / enquanto nos observam vestidas de negro / contaminando a brancura do papel”. Submissão total, a outrem, reconhecendo, de si, só fraqueza. Como poeta do “eu” pelo negativo que a si próprio se impõe, anula-se, perante o maior. Há nele o medo de ser, de existir, de ir, de partir, de querer. É a sua vontade, sem vontade, submissa à vontade dos outros: “Eu espero quieto, que tudo se resolva, que tudo se ordene (…), que tudo se cale (…), que esta noite que me anoitece esteja cada vez mais próxima da luz que apaguei.”
Tivesse Paulo Eduardo Campos, em seus versos, a sombra do cipreste e o piar do mocho, poderíamos dizer que começava a Antologia Rio de Doze Águas, com a poesia profundamente reflexiva, como obrigação mais nobre do poeta, na voz de António Gil, a cantar o mundo e a cantar a vida, para terminar, quase de uma forma lúgubre, na melancolia do último autor a suspirar pela morte no cansaço da vida.
Fernando A. Almeida Reis,
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(não escrevo segundo as regras do acordo ortográfico)














