A mãe do 27Por Nuno Santa Clara
Barreiro

Por Jornal Rostos
Como se sabe, muitas vezes, na tropa, as pessoas são conhecidas pelo número; isso não significa redução do indivíduo a um mero algarismo, mas uma forma de alcunha, tal como a referência pelo local de origem, como o “Vendas Novas”, ou o “Algarvio”.
Certo é que essas alcunhas ficam, a pontos de fazer esquecer o nome real da criatura.
Uma “estória” clássica da tropa é a da morte da mãe do “27”. Chegado o telegrama comunicando o falecimento à Companhia, o capitão teve um sobressalto. Chamou o sargento e perguntou-lhe:
- Este “27” não é o que está sempre a falar na mãe? E, perante a afirmativa, acrescentou: - Diz aqui que a mãe dele morreu.
- Ele mata-se! – respondeu logo o sargento. E acrescentou:- Eu não lhe dou a notícia!
- Só se for o alferes do pelotão dele. Vá chamá-lo.
Vindo o alferes, posto ao corrente exclamou logo:
- Ele dá um tiro na cabeça! Nem sei como lhe vou contar isso! Só se for o furriel da secção dele; vou buscá-lo.
Vindo o furriel, e explicada a situação, disse de pronto:
- Ele suicida-se! Não contem comigo para dar a notícia. Só se for o “Sesimbra”, que é muito amigo dele.
Vindo o “Sesimbra”, a mesma reação:
- Ele mata-se! Não sei como lhe hei de dizer.
- Tens que ser tu, disse o capitão. Desenrasca-te.
E lá foi o “Sesimbra”, pensando no assunto. Ao fim de algum tempo, chamou o “27” e disse-lhe:
- Vieram notícias da tua terra, e não são boas!
- A minha mãe? – gritou logo o “27”.
- Qual tua mãe! Houve um grande desastre, e morreu tudo! Teu pai, tua mãe, teus irmãos, tua avó… Não escapou ninguém!
- Ai que eu mato-me! – gritou o “27”, procurando já a arma.
Então, o espertalhão do “Sesimbra” deu-lhe uma forte palmada nas costas e, com um largo sorriso, disse-lhe:
- Estava a brincar! Foi só a tua mãe!
Esta “estória” de humor negro lembra uma prática hoje corrente dos nossos governantes. Primeiro, anunciam, ou fazem constar, uma medida que vai bulir, e muito, com a vida de cada um. Corte salarial, despedimento coletivo, introdução de propinas, aumento de impostos, tanto faz.
Mas depois, com ar sorridente, vêm dizer:
- Qual quê! Corte salarial, mas só de 10%, e não 20% como se disse.
- Despedimento, mas só de 2.500, e não de 5.000 trabalhadores!
- Propinas? Por enquanto, não!
- Aumento de impostos, mas não para já!
E assim vão fazendo, com o mesmo espírito do espertalhão “Sesimbra”. E nós todos aliviados, tal como o “27”, porque afinal, só a mãe tinha morrido.
Nuno Santa Clara














